Existem pessoas, falanges e entidades que fazem parte da nossa vida já de outros períodos na Terra. Alberto Marsicano é um deles. Um cavaleiro errante de altíssima estirpe. Conheço a peça rara nesta reencarnação há mais de 25 anos. Suas performances, embaladas pela sonoridade da cítara, seguem seduzindo criaturas por todo o mundo. Marsicano teve o privilégio de ser discípulo de Ravi Shankar e Krishna Chakravarty. Poliglota, traduziu luminares da poesia: Matsuo Basho, Wordsworth, Keats, William Blake, Rimbaud e Jim Morrison fazem parte de sua confraria literária. Espiritualmente, Marsicano é um polivalente – talvez por isso se intitule “zen-umbandista underground”.
Embalamos nossa entrevista em um belíssimo domingão depois de um lauto almoço regado a sucos de manga e carambola. Nosso eterno adolescente acaba de lançar Crônicas marsicanas (L&PM), com causos fascinantes de suas andanças de 30 anos. E prepara A linha do Oriente na Umbanda, co-escrito com a vidente Mãe Lurdes de Campos Vieira – o mentor desses mistérios é nada mais que o faraó Akhenaton. O livro será editado pela Madras, ainda este ano. Até lá, aproveite sem moderação as idéias dessa criatura que borbulha sabedoria além da imaginação.

Fale das Crônicas marsicanas... Como eu não podia guardar todas as lembranças na cabeça – vários amigos morreram, caras incríveis com histórias inarráveis... –, uma amiga sugeriu que eu escrevesse essas crônicas. Os primeiros textos saíram na melhor revista de HQ dos anos 80, a Animal. As crônicas têm também uma preocupação didática, porque ofereço uma antologia do me­lhor da poesia mundial por mim traduzida.

Como descobriu a cítara? Na Índia dizem que não é você quem escolhe a cítara, é ela quem te escolhe. Eu estava em Londres, era beatlemaníaco, escutava George Harrison direto. Fiquei hospedado no estúdio de uma artista plástica excêntrica junto com outro inglês que tocava cítara havia um mês. Ele foi viajar e disse que eu podia praticar. Eu tinha uns 18 anos, comecei a tocar com o que sabia do violão. Tocava a viola de dez cordas brasileira, a afinação é superparecida. Quando o dono da cítara voltou, falou que eu estava detonando e que o Ravi Shankar estava dando um workshop. A aula era no esquema faculdade indiana: ele ficava no centro, 20 pessoas em volta. Como minha grana era curta, só fiz umas aulas, abri uma fresta para pegar os ensinamentos do grande mestre. Em seguida, fui para a faculdade de Benares.

Qual foi seu primeiro instrumento musical? Uma Gibson SG, com 12 anos, igual à do Angus Young do AC/DC. A gente tinha uma banda malvista no colégio, o baixista era um alemão que se vestia de tirolês, era completamente trash... O colégio parecia um campo de concentração. E era rara uma carteira que não tinha uma suástica. Tinha muito alemão e filhos de executivos alemães no Brasil, pois era o único curso brasileiro reconhecido na Alemanha. Nosso professor de matemática, o professor mais bonzinho, um dia, no meio da prova, aparece a Polícia Federal pra pegar o cara – ele era criminoso de guerra, tinha sido da SS!

Falando em monstros, é verdade que conheceu o médico nazista Joseph Mengele? Nos anos 70 fui convidado a ir ao sítio de uma amiga, ali no cinturão verde da Grande São Paulo. Chegamos e fomos bem recebidos pelo caseiro alemão, o senhor Peters. Como falo alemão, fui conversar com ele. O senhor Peters nos serviu vinho branco, muito simpático. O ponto alto da noite foi quando um dos convidados começou a discutir a Segunda Guerra com ele – e por pouco não comentei o filme Meninos do Brasil [sobre clones de Hitler criados por Mengele]... O senhor Peters me chamou para mostrar um livro sobre plantas do Brasil. Um bom tempo depois, descobri pelos jornais que o senhor Peters era nada mais que o Mengele! Fiquei apavorado: corri risco de vida.

Voltando à música, que história é essa de você estar conectado com el duende? El duende é um termo técnico cigano. Na Andaluzia, costumam dizer que um guitarrista talentoso, que tem uma forma mágica de tocar e encantar as pessoas, tem el duende. É como pacto com o diabo... lembro que uma vez vi uma entrevista do cantor Nelson Ned numa TV de Porto Rico. O âncora do programa, que parecia um daqueles cardeais cabulosos dos quadros do Goya, perguntou como o Nelson fazia tanto sucesso na América Latina, e o baixinho respondeu: “Jamais faria um pacto com o Diabo; no máximo, um compacto” [gargalhadas].

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