Como é sua rotina de trabalho? Trabalho basicamente na rede. E isso
incomoda um monte de gente porque gostam de reunião, presença
física, trocar idéias, telefone, e eu não tenho telefone
celular.
Nunca teve? Nunca tive. Não gosto de ser encontrado, gosto de responder às
coisas na hora que dá. Vejo as pessoas muito presas àquilo, mas
funciono por e-mail. Mais ou menos faço meu horário, gostaria
de acordar sempre tarde, mas não consigo. Sinto também que, com
a idade, deveria ter uma vida mais regular, andar, correr de manhã...
Você não faz exercício? Todo dia faço uns alongamentos
meio tai chi, demora uma hora pra fazer.
Você acredita em energia? Yin/yang sim. É... Eu sou chinês.
Na vida passada? Não, hoje em dia. Eu, o Gilberto Gil [risos].
Você se sente meio chinês? E tenho medo dos chineses,
sabe? Fui a Macau fazer um documentário chamado Além Mar, sobre
lugares que falam português, e de manhã via a multidão
de chineses fazendo tai chi. Aí perguntei pro macaense: “Puxa,
mas eles fazem tanto tai chi e são tão
nervosos”. Aí ele disse: “Imagina se não fizessem” [gargalha].
Vi o capitalismo chinês, o capitalismo autoritário sendo
produzido em Xangai... Tem um livro que dei pro Gil e virou uma espécie
de livro de cabeceira dele, de um filósofo francês chamado François
Jullien, Um Sábio Não Tem Idéia. Ele fala que virtude é ocupar
os dois extremos ao mesmo tempo. Por isso fico na Rede Globo e no software
livre: ocupar os extremos sem escolher. Quando você escolhe uma posição,
apaga uma parcela da complexidade da vida... Quando você acredita muito
em alguma coisa se torna escravo, sem humor. Você tem que ser infiel às
idéias em que acredita,
tem que se auto-sacanear...
Você também nunca quis ter família, acha que não
dá tempo, é verdade isso? Eu não queria, mas a realidade
dá umas rasteiras. Você vê, com o acidente do Herbert, virei
meio pai dos filhos dele.
E você é bom pai? Eu sou carrasco total. Tem que andar na linha.
Boto de castigo, tem que respeitar. Antes eu era o tio maluco, eles vinham
em casa e podiam ficar acordados até de madrugada. Quando cheguei lá pra
educar tinha que dizer: “Não é mais farra. Tem que ir pra
escola, tem que dormir cedo”.
Seu pai era asim? Não, ele deu mole, por isso a gente é
maluco. Eu sou mais exigente, e adoro a escola do Lucas, que é um
Big Brother. Eu sei, pela internet, que horas ele entrou, que horas saiu.
Por que que você é tão repressor assim? Tem que ter disciplina.
A disciplina é China. Por mim eles estudavam no São Bento
[escola tradicional linha-dura para homens]. Você aprende Aristóteles,
o fundamento da cultura ocidental, e depois tem um negócio sólido
pra você se rebelar. É assim que funciona.
Você acha que família atrapalha? Foi um plano, nunca se casar...
Não. É de estar solto, poder mudar... Viver junto é chato.
Você não se sente sozinho? Tenho mais amigos do que
posso ter.
As pessoas te acham bizarro por causa disso? Acham. Pode ser uma resposta
errada para problemas não trabalhados, mas até agora está funcionando
bem [risos]. Não me sinto infeliz, mas tem uma pressão social
forte pra que você seja normal...
Vai ver é trauma da professora Áurea... Pode ser. Vai saber.
Já fez psicanálise? Nunca. Não acredito muito na idéia
de inconsciente. Acho que tudo é consciente. Tudo está na
superfície. Não gosto de uma coisa que está escondida
e que tem explicação sobre o que está na superfície,
sabe? Todo mundo acha que sou um caso. Quando teve o lance do Herbert, todos
ficaram muito preocupados com as crianças... Diziam: “Elas não
foram ainda pro psicólogo?”. Teve um dia que disse: “Não
agüento isso, vou fazer, senão vou me sentir culpado se os meninos
tiverem um problema depois e me disserem que não coloquei”...
Aí levei pro psicanalista.
Você é feliz? Sou muito feliz. Essa questão da felicidade
me persegue. No início do Programa Legal, a gente tinha um questionário
de 20 perguntas, uma delas era “O que é que você faz quando
você está infeliz para voltar a ser feliz?”. Tinha receitas
maravilhosas, como “Eu assobio”... Agora, o Dorival Caymmi, quando
fez 80 anos, a gente perguntou isso, e ele disse: “Não fico triste”. “Mas
nunca?” Aí ele: “Não. Às vezes quando vem
lá longe, eu tomo água”. Ele é uma lição.
Fez só 20 músicas, mas músicas perfeitas, não precisa
mais. Essa obsessão nossa de fazer as coisas... O mundo já tá entulhado
de coisas.
Então por que você não pára, Hermano? O Zé Marcelo,
que coordena o Overmundo comigo, mandou esse poema do João Cabral
de Melo Neto: “Fazer o que seja é inútil. Não fazer
nada é inútil. Mas entre o fazer e não fazer mais vale
o inútil do fazer”. É claro que tudo é inútil,
e o que eu admiro na festa é isso, a inconseqüência.
Em um seminário que participei sobre a Amazônia ouvi que os índios
agora querem ter monumentos... Fiquei com pena de eles entrarem nessa. Uma
das coisas que eu achava bacana nos índios é justamente não
ter monumento. É mais sábio. A gente fica carregando biblioteca. É um
peso enorme. Uma vez deu broca na minha estante... Seria bom se comesse tudo,
né?
Você não gosta muito de aparecer, né? Acho que é um
culto pelo desaparecimento, pelo estético.
Timidez? Também. Mas não é uma coisa rígida, sabe?
Não é Rubem Fonseca, Dalton Trevisan. É só meio chato
ficar
ali posando.
Você se considera vaidoso? Acho que sim. Todo mundo é. Vaidade é função
pra você estar vivo, sabe? Um dos livros mais importantes da história é do
Matias Aires, um filósofo português que morou em São Paulo
no século 17, o Reflexões sobre a Vaidade dos Homens. Se você não
tem um pouquinho de vaidade, não faz nada. Mas é também
um problema, como diz o Eclesiastes: “Tudo é pó”.
E seu ego é grande? É... É um ego que se envaidece quando
se dissolve e quando faz coisas que possibilitem a dissolução
de outros egos também.
Falando em ego, você não tem vontade de se meter mais com política? De jeito nenhum. Eu sou muito ingênuo.
Você já foi petista? Não, não gosto.
Votou no Lula? Dessa segunda vez aconteceu um negócio inacreditável.
Eu não decorei os números. Levei os de
deputado federal e deputado estadual escritos, mas não
levei de governador e presidente. Não sabia o número do Lula,
votei nulo.
Memória ruim, né? Sei, sei. Você gosta desse governo?
Gostar, não gostar, achei normal... No fundo me me defino como
anarquista: não gosto de governo [risos].
* Ilustrações feitas a partir de fotos de Calé |