Voltando à educação, você vê alguma mudança na política de educação dos últimos quatro anos pra cá? Temos que ver isso a longo prazo. Muita gente fala da escola pública, “como era boa”, sabe? Mas se esquecem de que pouca gente estudava na época. Em um encontro que participei no DNABrasil, o físico Rogério Cerqueira Leite falava da qualidade das escolas públicas, aí a Regina Casé perguntou: “Mas quantos pretos existiam na sua sala?”. Nenhum... Hoje, a maioria da população estuda. O acesso à saúde e à educação realmente se democratizou. E é claro que isso gera uma quantidade enorme de problemas. Não deu tempo de formar professores... Tudo é feito aos trancos e barrancos. Essas pessoas hoje estudam em escolas precárias se comparadas à escola onde Villa-Lobos dava aulas de canto orfeônico. A qualidade do ensino certamente é pior, mas mais gente está estudando. Os últimos quatro anos não trazem novidade nesse processo. É mais do mesmo. Há uma grande continuidade nos dois governos.

São iguais? É o projeto civilizatório da USP. [José Arthur] Gianotti e tudo mais. A novidade, que a gente intuía, quando o Caetano disse que “o Gil será o Lula do Lula”, é de atentar que novos processos estavam acontecendo na cultura. A visão de cultura como economia criativa, o discurso que o Gil vive reprisando, isso ficou bem claro.

Você é um pouco assessor de Gil, não? É uma história engraçada. Eu tava num debate promovido pela Unesco no Sesc, sobre a im­por­tância do funk. Era um debate com muitos educadores e todo mundo contra o funk: “Como professor, ensino os garotos a não gostarem de funk”. E eu defendendo... Aí veio um cara conversar comigo: “Poxa, gostei muito, tenho um projeto”... e falou de um jei­to que era óbvio que eu deveria conhecê-lo. Fiquei com vergonha de perguntar: “Quem é você?”. Depois fui descobrir que era o Leo­nardo, ex-jogador de futebol, hoje diretor do Milan. Aí fui no Gol de Letra e a gente acabou

 
 

amigo. Levei o Leonardo no show do Gil, depois fomos jantar. Falei pra ele de como o desenvolvimento tecnológico abria brechas no mercado de trabalho — por exemplo, a en­trada do computador na Globo, nos estúdios de mú­sica... Se a garotada da periferia aprendesse essa linguagem ao mes­mo tempo em que os garotos de classe média teriam condição de...

Competir... De competir. Afinal, a maior parte dos cursos de informática pra pobre ensina o Office, como se o destino desses garotos fosse trabalhar em escritório. O Gil estava escutando e disse: “Hermano, não quero mais fazer um disco do Gilberto Gil, quero fazer parte de programas coletivos. Adorei essa idéia, tenho estúdio, posso abrir portas pra essas coisas, vamos fazer!”.

E sua influência na política dele como ministro? Eu fui fazer o documentário dos Doces Bárbaros, com o Andrucha [Waddington], no Ibirapuera, e aí o Gil me chamou e disse: “Ah, acabei de receber um telefonema do Lula me chamando pra ser ministro. Quero que você venha comigo, vamos tocar aquelas idéias?”. Assim aquela idéia do estúdio acabou dando nos Pontos de Cultu­ra. Participei de reuniões e comecei a sugerir coisas. Por exem­plo, a primeira viagem internacional do Gil foi pro Midem, em Cannes, a grande feira da indústria fonográfica. Descobri que ia estar lá o John Perry Barlow, presidente da Eletronic Frontier Foundation... Eu os apresentei, eles ficaram superamigos, Gil chamou o Barlow pra vir pro Carnaval... O governo tem de colocar o selo, sabe? É o que eu gosto de fazer, juntar coisas, pessoas.

Mas não é tão fácil assim incluir as pessoas pobres na indústria cultural, quando no fim das contas a panelinha e as indicações definem vagas? É, mas cada vez mais surgem espaços onde essa mediação é feita, como os grupos Nós do Morro, o AfroReggae. Eu dou aula num Ponto de Cultura em Vargem Grande — exatamente um Ponto de Cultura pensado sobre essa primeira idéia de ensinar a usar o computador pra produzir e editar vídeo e música. E aí a gente começa a chamar esses ga­rotos para fazer estágio na Globo. A gente tem que encontrar canais novos. São canais, como o próprio Instituto Criar, do Luciano Huck, espaços de convivência entre grupos diferentes...

Falando em TV, acha que a TV deveria ter censura? Eu acho que se auto-regula. É uma negociação constante entre os grupos da população. O papel do Estado é de ser o mediador. Afinal, a capacidade que o Estado tem de atrapalhar... [risos]. Por exemplo, descobri no Overmundo bandas de j-rock e encontros de anime e mangá pelo Brasil inteiro. Fui na UERJ, na festa mais bacana que vi recentemente, em um encontro de fãs de anime e mangá onde em um momento todos fazem a mesma coreografia e cantam a mesma música. Aí perguntei pro garoto ao meu lado: “Que música é essa?”. E ele disse: “É o tema do Naruto” — que é o desenho animado mais popular no mundo.
Aí perguntei: “Como é que tu vê Naruto?”. Ele disse: “A gente baixa”. Depois li que esses desenhos não são exibidos [o desenho passa à noite na TV paga] porque tem uma determinação do Ministério da Justiça que os considera violentos. Que mentalidade imbecil desses que estão legislando! Os garotos vão ter acesso de qualquer maneira.

É o mesmo preconceito sobre o que é bom, o que é ruim... Nos Estados Unidos é a mesma coisa: as pessoas deveriam ouvir Schubert e ler Proust. Aqui, com uma história de escravidão, de casa-grande e senzala, apesar de todos os contatos bem assina­lados de mestiçagem por Gilberto Freyre e companhia, existe um horror de ser brasileiro... Uma vontade de ser americano. E aquilo é tão brega, Lincoln Center, o MoMA.

Você acha o MoMA brega? Acho [risos]. Sabe a Muji, aquela cadeia japonesa que na Europa é uma loja de rua, mas em Nova York é do MoMA? Que é uma coisa que pra ser chique não tem etiqueta nenhuma [gargalha]... Brega, né? Não existe coisa mais brega do que esses bufês hoje em dia, em que você come queijo brie com tâmara.

O que define o brega? Música do Chimbinha é brega? É, também. É que tem uns bregas de que eu gosto muito [risos]. O brega que finge ser chique, consumido por uma minoria, que crê que aquilo não é brega, esse é o problema. Festas com salas VIP...

A pulseirinha... Como a Regina [Casé] diz: “Quem gosta de andar de pulseirinha é pobre!” [risos].

Mas é fácil falar isso quando você já está na área VIP... Não gosto disso não. Só é bom em show dos Rolling Stones, né? [Gargalha] Que eu fui pra levar o Lucas...

Falando em área VIP, você tem uma visão catastrofista do futuro? Acho que a gente vai dar um jeito. O Phillip K. Dick diz isso, ele tenta explicar, como gnóstico, que o reino dos céus e tudo o mais não aconteceu ainda. Ele percebe que ainda estamos em Roma e esses 2 mil anos são ilusórios e estamos ainda naquele momento esperando o fim do mundo... Nisso também tem um negócio puritano que a gente tá vivendo, que não pode comer nada. Isso é ruim pra festa. Dá-se um jeito. Não é o fim do mundo.

 
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