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amigo. Levei o Leonardo no show
do Gil, depois fomos jantar. Falei pra ele de como o desenvolvimento tecnológico
abria brechas no mercado de trabalho — por exemplo, a entrada do
computador na Globo, nos estúdios de música... Se a garotada
da periferia aprendesse essa linguagem ao mesmo tempo em que os garotos
de classe média teriam condição de...
Competir... De competir. Afinal, a maior parte dos cursos de informática
pra pobre ensina o Office, como se o destino desses garotos fosse trabalhar
em escritório. O Gil estava escutando e disse: “Hermano, não
quero mais fazer um disco do Gilberto Gil, quero fazer parte de programas coletivos.
Adorei essa idéia, tenho estúdio, posso abrir portas pra essas
coisas, vamos fazer!”.
E sua influência na política dele como ministro? Eu fui fazer
o documentário dos Doces Bárbaros, com o Andrucha [Waddington],
no Ibirapuera, e aí o Gil me chamou e disse: “Ah, acabei
de receber um telefonema do Lula me chamando pra ser ministro. Quero que você venha
comigo, vamos tocar aquelas idéias?”. Assim aquela idéia
do estúdio acabou dando nos Pontos de Cultura. Participei de reuniões
e comecei a sugerir coisas. Por exemplo, a primeira viagem internacional
do Gil foi pro Midem, em Cannes, a grande feira da indústria fonográfica.
Descobri que ia estar lá o John Perry Barlow, presidente da Eletronic
Frontier Foundation... Eu os apresentei, eles ficaram superamigos, Gil chamou
o Barlow pra vir pro Carnaval... O governo tem de colocar o selo, sabe? É o
que eu gosto de fazer, juntar coisas, pessoas.
Mas não é tão fácil assim incluir as pessoas pobres
na indústria cultural, quando no fim das contas a panelinha e as indicações
definem vagas? É, mas cada vez mais surgem espaços onde essa
mediação é feita, como os grupos Nós do Morro,
o AfroReggae. Eu dou aula num Ponto de Cultura em Vargem Grande — exatamente
um Ponto de Cultura pensado sobre essa primeira idéia de ensinar a usar
o computador pra produzir e editar vídeo e música. E aí a
gente começa a chamar esses garotos para fazer estágio na
Globo. A gente tem que encontrar canais novos. São canais, como o próprio
Instituto Criar, do Luciano Huck, espaços de convivência entre
grupos diferentes...
Falando em TV, acha que a TV deveria ter censura? Eu acho que se auto-regula. É uma
negociação constante entre os grupos da população.
O papel do Estado é de ser o mediador. Afinal, a capacidade que o Estado
tem de atrapalhar... [risos]. Por exemplo, descobri no Overmundo bandas de
j-rock e encontros de anime e mangá pelo Brasil inteiro. Fui na UERJ,
na festa mais bacana que vi recentemente, em um encontro de fãs de anime
e mangá onde em um momento todos fazem a mesma coreografia e cantam
a mesma música. Aí perguntei pro garoto ao meu lado: “Que
música é essa?”. E ele disse: “É o tema do
Naruto” — que é o desenho animado mais popular no mundo.
Aí perguntei: “Como é que tu vê Naruto?”. Ele
disse: “A gente baixa”. Depois li que esses desenhos não
são exibidos [o desenho passa à noite na TV paga] porque
tem uma determinação do Ministério da Justiça que
os considera violentos. Que mentalidade imbecil desses que estão
legislando! Os garotos vão ter acesso de qualquer maneira.
É o mesmo preconceito sobre o que é bom, o que é ruim... Nos Estados Unidos é a mesma coisa: as pessoas deveriam ouvir Schubert
e ler Proust. Aqui, com uma história de escravidão, de casa-grande
e senzala, apesar de todos os contatos bem assinalados de mestiçagem
por Gilberto Freyre e companhia, existe um horror de ser brasileiro... Uma
vontade de ser americano. E aquilo é tão brega, Lincoln Center,
o MoMA.
Você acha o MoMA brega? Acho [risos]. Sabe a Muji, aquela cadeia japonesa
que na Europa é uma loja de rua, mas em Nova York é do MoMA?
Que é uma coisa que pra ser chique não tem etiqueta nenhuma [gargalha]...
Brega, né? Não existe coisa mais brega do que esses bufês
hoje em dia, em que você come queijo brie com tâmara.
O que define o brega? Música do Chimbinha é brega? É,
também. É que tem uns bregas de que eu gosto muito [risos]. O
brega que finge ser chique, consumido por uma minoria, que crê que aquilo
não é brega, esse é o problema. Festas com salas VIP...
A pulseirinha... Como a Regina [Casé] diz: “Quem gosta de andar
de pulseirinha é pobre!” [risos].
Mas é fácil falar isso quando você já está na área
VIP... Não gosto disso não. Só é bom em show dos
Rolling Stones, né? [Gargalha] Que eu fui pra levar o Lucas...
Falando em área VIP, você tem uma visão catastrofista
do futuro? Acho que a gente vai dar um jeito. O Phillip K. Dick diz isso, ele
tenta explicar, como gnóstico, que o reino dos céus e tudo o
mais não aconteceu ainda. Ele percebe que ainda estamos em Roma e esses
2 mil anos são ilusórios e estamos ainda naquele momento esperando
o fim do mundo... Nisso também tem um negócio puritano que a
gente tá vivendo, que não pode comer nada. Isso é ruim
pra festa. Dá-se um jeito. Não é o fim do mundo.
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