Você parece gostar de tudo, mas disse que tem muita porcaria que faz sucesso. Quais? Eu tenho uma postura de Torquato Neto, “só quero saber do que pode dar certo”. Tem pouco espaço, quero dar força pro que acho bacana.

Só pra entender também seus parâmetros... Deixa eu pensar em alguma coisa que muita gente goste [risos]. Não que seja porcaria, mas não me interesso, por exemplo, pelo Nirvana. Não acho que ali tenha uma novidade com relação à história do rock. Strokes também. A gente trouxe Strokes no Tim Festival, mas aquilo não me interessa. Não tenho tempo para aquilo.

Originalidade é um critério? Acho que é. A maior parte...

E tem originalidade no rock do Brasil hoje? Deixa ver... O Montage, pra mim aquilo é rock’n’roll, sabe? Aquele menino ter entrado num negócio que só tinha forró, botado o povo pra pular daquele jeito, é tão rock’n’roll aquilo. A postura blasé, impressionante. Tem mais coisas... minha memória é tão ruim... Muita informação, cabe pouca coisa no... no...

HD. Isso. E a memória RAM, também, que pega no HD o que está usando. Você tem que limar determinadas coisas para entrar outras...

Você se considera um cara inteligente, apesar da memória fraca? Não. Não. Acho que tenho uma inteligência ligada à curiosidade. Isso me faz chegar a coisas antes que a maioria perceba que está acontecendo. Talvez meu maior talento, minha maior fonte de diversão e de alegria, seja conectar pessoas que estão fazendo — elas sim — coisas importantes.

Esse é seu trabalho? É, de botar coisas juntas e ver o que é que dá [risos]. É um trabalho de mediação, de trazer coisas que não fazem parte daquele mundo pra aquele mundo, e apresentar as pessoas umas às outras. Um trabalho de curadoria. O Chris Anderson, editor da Wired, que escreveu aquele livro The Long Tail — A Cauda Longa, diz: “Nosso papel não é de edição, de hierarquizar as coisas, mas de catalisar e curar, no sentido de fazer a curadoria”.

Qual é a diferença entre editar, ser curador e catalisar? Você não tem o controle da conversa. O editor tem o controle, decide o que vai estar na revista, na capa etc. Hoje você sabe que as pessoas estão conversando entre vários sites e vários blogs e as coisas não acontecem no seu site ou na sua revista. Com a ferramenta como o Technorati, sei quem falou de Overmundo em qualquer blog. Minha resposta para aquilo não precisa estar naquele blog, mas, se eu responder no meu blog, vão estar conversando porque todo mundo vasculha o Technorati pra saber quem falou o quê. Mas você pode identificar tendências, conversas interessantes, catalisar — no sentido de amplificar e tornar mais veloz tudo isso.

Mas atender aos desejos da audiência não é um perigo? Aprendi com o Neguinho do Samba, um dos meus ídolos, um dos principais caras do samba-reggae, que provocou uma mudança na música baiana: “Não faço o que o povo gosta, faço o que o povo precisa”. Que vai ao encontro do que o Gil falava: “O povo também quer aquilo que não sabe”. Tudo o que fiz na TV... Não havia demanda por aquilo. Você cria a demanda. Isso tem um resultado de audiência. Ou às vezes não é sucesso, mas tem conseqüências a longo prazo... De repente ouço coisas como a Vera, presidente do Ara Ketu, me dizer que eletrificou o bloco afro porque ela viu African Pop, que passou meia-noite na TV Manchete, ibope baixo, sabe?

Você fez várias coisas do tipo, como dar uma bateria eletrônica para o Marlboro... O Marlboro ia encontrar a bateria de qualquer jeito. Tem aquele texto do Sartre sobre Questão de Método, em que ele fala: “Se não houvesse Lênin, haveria revolução russa?”. É claro que a história é produzida por um monte de encontros produzidos por acaso, mas o Marlboro estava buscando aquilo que contribuiu pra essa música nova na cidade do Rio, que alegra a vida de tanta gente [risos].

Falando em coincidências... você acredita em Deus? Acho que é tudo acaso. Tem a ver com a tese do meu orientador, Gilberto Velho, sobre a sociedade complexa... Ele criou o conceito do “campo de possibilidades”. Tem muitas coisas da sua vida, do seu grupo social, daquilo a que foi submetido pelo sistema educacional, o que vai lendo etc., e o fato de você ser essa pessoa proporciona um tipo de encontro — e outros encontros são impossíveis. Há uma produção de ordens, sempre precárias, nesse acaso. Mas a Terra ter esse tipo de estrutura geológica, biológica, clima, que torna possível a existência da vida e da evolução etc. É acaso. Mas gosto de ambientes religiosos. No templo taoísta, vou ali, boto incenso. Acho bacana ter uma boa energia, quando tem um monte de gente, ali, tentando, de maneiras às vezes desastrosas, produzir bondade. Entendo a busca de sentido religioso. É difícil viver sem sentido. Mas eu não preciso. Não preciso da idéia de uma vida depois da morte. Acabou, acabou. Isso aqui já é mais que suficiente.

Mas religião não é só isso... não tem uma sensação de que as coisas não se explicam simplesmente por coincidências? Tenho uma sensação clara, o contrário da paranóia, de que o universo conspira a nosso favor. Mas isso também pode ser explicado pelo acaso, por uma conjuntura atual do universo. É caos, né? E produção de ordem a partir do caos o tempo inteiro. O que gosto na religião é que muitas gostam de festa, e eu gosto de festa [risos]. Aliás, acho que esse é o maior talento do Brasil: fazer festa. As pessoas não têm mais motivo pra festa, e inventam! Outro dia eu peguei um DVD de Peabiru, interior do Paraná, da Festa do Carneiro ao Vinho [risos].

Festa do Carneiro ao Vinho é ótimo. Tem a Festa do Peixe Ornamental e o Piabódromo, em Barcelos, a Festa do Cupuaçu [risos] e o Tribódromo [risos], em São Gabriel da Cachoeira... A experiência mais fascinante da minha vida foi participar da excursão do Música do Brasil, em que a gente saiu, durante um ano, da Festa do Divino em Macapá ao Carnaval em Cuiabá, praticamente vivendo na es­trada, indo a festas todo dia. Tinha uma hora que a gente estava cansado e aí vinha aquele bando bêbado tocando tambor, e aí a gente animava e ia atrás. Já conversei sobre isso com o economista Carlos Lessa, que foi presidente do BNDES, ele também fala muito sobre a economia da festa. O Brasil poderia se especializar, esse é um talento nosso tão evidente... Já pensou, que coisa boa pro mundo, um país especialista em festas? Eles vêm aqui, ficam doidões, sambam, voltam alegres pra casa...

Devia ter uma faculdade de festa. A alegria é a prova dos nove, dizia o Oswald de Andrade. Agora, tem essa coisa da sustentabilidade, né? Festa é desperdício, você faz comida pra milhares de pessoas, gasta o que não tem. Talvez a gente encontre um caminho... Essa é minha utopia de Brasil.

Pula Carnaval, fica bêbado, louco? É... Não muito. E nem dou festa. Mas em algumas festas, sim... Me lembro daqueles Carnavais na Bahia de 86, 87... Quando o Olodum apareceu, os dois Carnavais coordenados pelo Waly Salomão. Ali senti “essa festa é minha”. Passei um ano indo a baile funk, todo fim de semana, por causa do meu trabalho de campo. Eu não sei dançar, então fico um pouco de fora. Mas em algumas festas o espírito coletivo baixa em você, você acaba possuído por algo maior, dissolve seu ego na matéria em movimento.

E hoje tem alguma festa com esse frescor dos Carnavais de 86, 87? A festa de aparelhagem em Belém do Pará. Apesar de existir há muito tempo, é tão inovadora, um culto tão intenso com a novidade tecnológica, que sempre que vou fico impressionado.

 
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