Falta uma nova didática? Urgente. E as escolas não acham que está tudo bem. Todos sabem que existe crise, uma procura de novas possibilidades, mas... as pessoas têm resistência enorme com games, por exemplo, é preciso não ter preconceito e tentar aproveitar isso, porque os garotos estão aprendendo milhares de coisas nesse mundo. As professoras estão na lista de contatos dos meus sobrinhos tanto no Orkut quanto no MSN, ali eles aprendem muito. Além disso, tem a relação deles com música. Nunca compraram um CD! Eles não vão na discoteca do Herbert ver o que é que tem: descobrem as mesmas coisas antigas na internet — Marley, Hendrix... Mas a troca de informação é entre eles: um dá a dica, o outro dá pro outro, vão criando a própria educação.

E o seu interesse por música, como começou? Desde cedo. Meu pai tinha gravador de rolo, fitas com discos gravados. Também a Maria, nossa babá, que trazia jovem guarda, bolero... esse chacundum que hoje é do Chimbinha vem dessa fusão. A partir daí vi festivais de jazz, que eram televisionados... Hermeto tocando com Chick Corea e John McLaughlin, coisas de que a gente gostava já com 14 anos. Lembro do festival em que Walter Franco cantou “Cabeça”, sabe? Ou Jards Macalé comendo rosas. Esse tipo de coisa extrema que no Brasil era o mainstream da cultura popular. O tropicalismo nem se fala.

Você exalta as coisas que fazem sucesso, principalmente os populares. Sucesso é sinal de qualidade? De forma alguma. Tantas porcarias fazem sucesso! Mas acho que fazer sucesso é revelador de alguma tendência, algum desejo... Mesmo as porcarias. O Gil dizia: “Porcaria também é cultura”. Tendo a comba­ter as hierarquizações que determinados grupos criam, coi­sas que passam a valer como verdade, preconceitos, exclusões, negando muita coisa que acontece. Como se houvesse um critério absoluto para definir o que é importante. Muita gente me diz: “Você gosta dessas coisas por interesse antropológico”. Não. Muitas vezes são interesses estéticos! Acho que o funk carioca, em termos de inovações, criou coisas mais interessantes do que a maior parte do hip hop brasileiro, considerado por muitos intelectuais como música de maior valor. Acho que não. Em grande parte do hip hop existe a repetição de um padrão já inventado, que pra mim deu o que tinha pra dar. Claro que, no Brasil, teve uma coisa importante de inclusão de temas da periferia no dialeto da MPB.

 

Mas o funk, hoje, também tá se padronizando. Também. Mas acho que é muito novo... A invenção do Tamborzão, que virou mú­sica carioca com o sucesso do MC Leozinho, que botou ­aquele violãozinho no início. Me lembro do Lulu Santos escutando pela primeira vez na pista de dança. “ O que é que é isso?” Aí eu disse: “É seu filho. É seu pop”. Me lembro de como falaram mal do Lulu. Hoje tem uma consciência de que aquilo é pop de qualidade. Mas a crítica toda era destrutiva.

A crítica tem esse poder todo? Às vezes acho que ela fala pras paredes, porque as pessoas continuam escutando funk, Calypso... E hoje muito mais do que antes. As músicas mais populares do Brasil não dependem da mídia, da indústria fonográfica, de nada disso.

A mídia de massa já foi mais elitista. Sim, mas tem uma vergonha ainda. O Chimbinha do Calypso fala que a pirataria o ajuda, mas a imprensa prefere destacar a polêmica do que é brega ou não. Esse é o grande problema da cultura brasileira, sabe? A TV é o grande canal de distribuição de informação e entretenimento, tanto que está em 99% dos lares. As pessoas compram TV antes da geladeira. Mas existe uma falta de pensamento com relação ao que é produzido ali. De um lado tem a fofoca, quem come quem... Do outro uma coisa totalmente Escola de Frankfurt, contra a TV.

Essa cisão emburrece? É como ator de novela, que chega e diz que o filho não vê TV. Parece que a TV existe pra você ganhar dinheiro, pra poder fazer a peça de teatro — que isso sim é arte. Minha visão, a do meu grupo, é que gostamos de TV! Achamos que é uma missão estar na TV, trazer coisas que estão na pe­riferia da TV para dentro da TV. E não é que a gente dê voz pra coisa nenhuma. Essas pessoas já têm voz. Quero criar debate. Essas coisas fora da mídia, que são as coisas mais populares: o que isso significa pro Brasil? Meu encontro com a Regina Casé e o Guel Arraes no piloto do Programa Legal sobre baile funk tem conseqüências até hoje no nosso trabalho. Queremos fazer a TV gostar de ser TV. Porque a TV tem esse problema, de querer ficar chique. Aí é a perdição [risos].

 
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