Qual a sua primeira lembrança da escola? Minhas primeiras lembranças são Brasília em obras, e se confundem com sessões de slides em casa. E também das histórias que as pessoas contam sobre a infância. O Herbert, mesmo com esse problema que tem agora de memória, continua tendo uma memória melhor que a minha desse passado. Mas lembro que fui apaixonado pela minha professora, a Áurea — uma experiência de educação sentimental. Vi a professora saindo da escola e o namorado dela esperando. Deram um beijo, e eu caí desmaiado. Um ataque fulminante de ciúme no pré-primário em Brasília [gargalha].

E o que você lembra dessa infância em Brasília? A gente vivia cercado de gente. Até praticamente 15 anos, já no Rio de Janeiro, todos os amigos eram filhos de militares, que tinham vida parecida com a nossa. Lembro de conhecer um amigo que tinha morado a vida inteira na mesma casa e estudado no mesmo colégio! Era um ET! Em Brasília meu pai foi piloto do presidente Geisel. A gente ia à Granja do Torto, me lembro de ver Figuei­redo, Hugo Abreu, Golbery num churrasco…

O fato de seu pai ser militar afetava sua vida? A gente se mudava de dois em dois anos. E tinha essa questão de ter que refazer a vida, amigos e escola. Muitas vezes a mudança era no meio do ano. Tenho muito a agradecer à minha mãe: ela ia à es­cola, pegava os cadernos, copiava pra gente o que já tinham aprendido para a gente ter o mesmo caderno que as outras crianças. Estudei muito em escola pública. Lembro que na escola de Guaratinguetá, onde moramos, tinha uma professora, a dona Manuelina, que dava estrelinhas para os bons alunos todo dia.

 

E você tinha muitas estrelinhas com a dona Manuelina? Tinha. Sempre fui bom aluno. Minha mãe deve ter as medalhas. Mas isso não tinha a ver com o estilo de vida CDF [risos]. Sempre convivi no fundo da sala. No cursinho, as turmas eram divididas pela nota da prova. Eu tinha nota pra estar na turma A, mas gostava da turma C, porque era um pessoal que gostava das mesmas bandas que eu ou que tinha uma formação contracultural mais parecida com as coisas que me interessavam no mundo.

E em casa a educação era rígida? Não, tinha um encaminhamento de que deveríamos ser engenheiros ou médicos, profissões consideradas nobres e de futuro. Eu queria ser cientista, fiz três anos de engenharia química. Larguei para fazer ciências sociais, minha segunda opção no vestibular. Até descobrir e ter certeza de que era isso que queria e ter coragem de dizer aos meus pais que ia abandonar a faculdade de engenharia... O Her­bert fazia arquitetura e largou pra montar uma banda. Meu outro irmão fazia agronomia, largou para trabalhar com os Paralamas. Minha mãe se perguntou: “O que fiz de errado?”. Pra eles era difícil. São de famílias po­bres, que valorizavam a educação como forma de vencer... mas depois entenderam.

E o que “deu errado” nos três? Não era uma família de intelectuais. Começou a degringolar quando eles deram de presente a coleção do Monteiro Lobato e a gente leu ainda criança. O Herbert chegou a ir à TV, num programa em Brasília, para responder sobre a obra de Monteiro Lobato.

E você estuda muito ainda? Acho que a melhor coisa do mundo é aprender coisas novas.

E como você vê a escola hoje? A tecnologia de transmissão de informação que a escola desenvolveu para ensinar conhecimentos básicos, que fazem falta se você não os tem, vai sempre existir. Não vejo perspectiva, mesmo a médio e longo prazo, de que se invente coisa mais eficiente que a escola. A gente vai conviver com esse método.

Mas os alunos não são outros? Participo ativamente da educação dos filhos do Herbert, levar pra escola, estudar junto. Quando mudei para a casa dele, o Lucas tinha 9 anos e se inte­ressava por Pokémon. É um exercício de memória fabuloso de­corar todos os nomes, poderes, como escolher o seu time... Tem esse prazer de decorar essas coisas, mas nenhum de decorar milhares de coisas que ensinam na escola. É questão de interesse. Esses meninos se interessam por game, então vou procurar o que é que existe de games educativos. Mas é batata! Eles percebem muito fácil que o game é educativo. Se não é prazer e desperdício de tempo, o que aparentemente é o game de brincar, ficam desconfiados e largam rapidinho [risos].


 
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