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Antes de ser um intelectual, Hermano Vianna é um sorriso. Sempre um
sorriso espreitando o rosto limpo de pêlos, que orna com a cabeça
raspada, dando-lhe assim, sorriso e careca, um ar de monge chinês. Uma
careca monástica que guarda um cérebro alérgico a idéias
fixas e preconceitos, que preza a disciplina e o estudo. Monge que não
se casa e não namora — por opção. Lê muito
e medita muito sobre a beleza da dissolução coletiva do ego.
Porém, enquanto seus hábitos o fazem monge, Hermano é refém
da curiosidade que mantém sua alma mundana e planos nada humildes para
um asceta.
Normalmente, quando citado na imprensa, seu nome vem precedido de “antropólogo”.
Fato: ele é doutor em antropologia e lida, basicamente, com o ser humano
na labuta. Mas o título não explica bem seu ofício, que
só pode ser entendido com exemplos ou com a definição
que ele mesmo oferece nesta entrevista: “Botar coisas e pessoas juntas
e ver o que dá”.
Nasceu em João Pessoa em 1960, 2 de abril, também Dia do Propagandista.
Assumindo a vocação da data, Hermano começou cedo.
De passagem pela rádio Fluminense, no Rio, aproveitou para largar na
mão do DJ uma fita cassete da banda de seu irmão Herbert — os
Paralamas do Sucesso. Dessas ele faz o tempo todo... |
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Forneceu a primeira bateria eletrônica do DJ Marlboro, o bumbo pancadão
que refez a música carioca. Levou Regina Casé no baile funk
para fundar o Programa Legal e colocar a alegria periférica em horário
nobre. Deu idéias, fontes e o livro que fez a cabeça do ministro
Gilberto Gil e seus Pontos de Cultura. Pauta o Fantástico, o Canal Futura,
a Folha de S.Paulo. Junta no mesmo discurso Gilberto Freyre e a Banda Calypso,
Andy Warhol e popozudas, leva Malcom McLaren à festa do Paulinho da
Viola, escala bandas para o Tim Festival. Correu o Brasil em um ônibus
gravando e filmando música e festas para o histórico Música
do Brasil. Escreveu dois livros, O Mistério do Samba, sobre a pouco
pensada relação entre a intelectualidade brasileira do começo
do século 20 e os sambistas primordiais, e o Mundo do Funk Carioca,
primeira pesquisa abrangente sobre o ainda incipiente fenômeno dos bailes.
Hermano não é de se gabar — nem inteligente admite ser.
Só culpa a curiosidade pelo talento de juntar pessoas em nome de uma
causa maior: extirpar o bom gostismo, a pose e o complexo de vira-latas da
cultura pop brasileira. E suas táticas, nada monásticas, são
bem chinesas — sem meio-termo, o caminho é um pé em cada
extremo. Entrou na internet em 1991, mas nunca teve celular. Dedica a
vida às festas — mas nunca como anfitrião; nem sequer
gosta de dançar. Trabalha para a avassaladora Rede Globo, porém
ganhou o prêmio Golden Nica no prestigioso Prix Ars Electronica com o
site que mapeia a cultura de todos os cantos do Brasil, o Overmundo, que criou
e coordena.
Você pode não saber qual é a cara dele — até porque
não é muito chegado em mostrá-la. No entanto, sua cabeça
abarrotada de informação está por trás
de muita coisa
que você vê, ouve, dança ou sabe. E por trás de muita
coisa que ainda vai ver, ouvir, dançar e saber. Então erguei-vos,
caros leitores, e queimai suas pulseirinhas VIP. Dai
o play no CD pirata do Calypso, lembrai de Sex Pistols e Olodum. E saudemos
todos juntos o sorriso beato de nosso guia, o grande Hermano, antes de ler
suas palavras de desordem.
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