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"A felicidade é sempre
individual, nunca é coletiva",
afirma Piva em sua casa |
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Roberto Piva não está nem aí. Nem aqui. Além - ali talvez esteja um dos maiores poetas vivos de São Paulo, que afirma: "Só é possível ser feliz quando se nada contra a corrente da mediocridade"
POR CASSIANO ELEK MACHADO E EMÍLIO FRAIA
"Em matéria de arrancar o homem de si mesmo, há o surrealismo e mais nada", escreveu Georges Bataille, em 1946. Junto com Rimbaud, os beats (em especial Ginsberg e Corso), Murilo Mendes e Nietzsche, é o surrealismo, e seus sapatos de abóbora, que guia Roberto Piva pelas calçadas onde crescem longos delírios. Não o surrealismo do nonsense pelo nonsense, em que a ausência de sentido é apenas uma regra estética, mas o surrealismo das imagens convulsivas, das aventuras e alucinações urbanas, que revela uma forma nova de se conectar ao mundo. Ícone da poesia paulistana dos anos 60, e da literatura brasileira de todos os tempos, Roberto Piva pagou sua busca ilimitada por liberdade com uma solidão sem volta. Sem dinheiro, cercado por livros em um empoeirado e minúsculo apartamento no bairro de Santa Cecília, em São Paulo, Piva diz que nunca foi infeliz - "minha poesia é carregada de alegria e futuro". É conhecida a proposição de Piva (que completa 70 anos em setembro e vê sua obra ser reeditada pela editora Globo) segundo a qual não existe poeta experimental sem "vida experimental". Essa é sua forma de conexão com o mundo.
No seu livro Paranóia (1963) você trata da falência do urbano, da cidade. Como você enxerga a São Paulo de hoje?
Eu não enxergo mais nada. O poeta lida com a face invisível do planeta, está preocupado com a dimensão cósmica. Paranóia é um poema urbano. Estou na cidade, mas não sou da cidade. Mas São Paulo mudou muito por causa da sociedade de massa, da criminalidade de massa. Antes a cidade mantinha um lado rural, hoje os garotos da periferia são pálidos criminalóides. Podem te dar um sorriso ou uma facada. Matam por causa de um tênis. Paranóia foi a forma que encontrei para exorcizar a cidade e o câncer urbano das pessoas.
Você acha que seria possível fazer um poema como o Paranóia hoje? Ou a cidade já não permite essa presença na cidade?
Ah! Não permite. É uma experiência única. Aqueles valores se perderam, se extraviaram. Eu nem ando mais por São Paulo, eu costumo viajar para fora da cidade. Eu e alguns amigos pegamos a estrada todo fim de semana e vamos para o infinito. Serra da Cantareira, São Roque, Jarinu, Ilha Comprida, esses lugares.
Você tem vontade de se mudar de São Paulo?
Eu gostaria de morar num sítio, mas não tenho grana.
São Paulo não serve mais de inspiração?
A inspiração está onde o poeta está. Mas, no caso, só tenho escrito poemas quando saio de São Paulo. Escrevo muito pouco, poesia escrevo muito pouco.
Como é seu contato com poetas e leitores mais jovens?
Eles me procuram muito, gostam da minha poesia. Mas é uma poesia não só para jovens. É para todos que tenham vontade de transcender a vida, a morte, o sonho, a realidade. O poeta está sempre preocupado com as realidades não humanas do planeta.
Você se considera jovem?
Não estou preocupado com isso. A poesia é muito vitalista. O Pasolini dizia: a poesia é uma desesperada vitalidade. É nesse sentido que ela aponta para um rejuvenescimento da esperiência da linguagem, da experiência humana. A poesia é a aurora dos povos. Os primeiros poetas eram xamãs, curandeiros, místicos, legisladores.
Como você se definiria para um jovem que não conhece muito o seu trabalho?
Um estrangeiro na legião.
Na década de 60 existiam muitos grupos literários, os concretistas, por exemplo. Você nunca se filiou a nenhum deles...
Eu sempre fui um franco-atirador. Por não ter me juntado a esse pessoal, à esquerda intelectual, eu fui boicotado durante anos. Porque eu não fazia parte da "tchurma". O intelecual brasileiro entra em partido político pra lavar chão, pra ser devoto, e não pra criticar, pra esculhambar.
Você tem acompanhado a recente crise do governo?
Trata-se de uma quadrilha leninista. A burguesia brasileira é a mais atrasada do planeta. Estamos passando pela experiência da queda do muro de Berlim com atraso de vinte anos. Chavões como "o povo está com fome" etc, ocupam espaço desnecessário na cabeça das pessoas. Os professores preparam a juventude brasileira para viver no século dezenove.
Você foi professor e sempre foi muito crítico da Universidade. Como seria a educação piviana? Como você acha que deveria ser a educação?
Devia ser como no Banquete de Platão: conhecer os corpos para depois conhecer as almas. A universidade, há décadas venho falando, deve ser substituída por terreiros de candomblé. Com isso estaríamos propiciando a entrada do dionísiaco no universo cristão. Essa é a única possibilidade humana de realização.
Você parou há quanto tempo de dar aula?
Parei em 1983. Dava aulas de Estudos Sociais, História. Eu, aliás, fiz universidade pra poder dar aula e sobreviver. Quando fui professor, dava pra pagar o aluguel e a luz.
Você teve uma experiência forte com o xamanismo, não?
Eu fui iniciado no xamanismo e nem sabia que aquilo se chamava xamanismo. Foi na fazenda do meu pai quando eu tinha doze anos por um mestiço de negro com índios que apontava para a fogueira e me fazia ver figuras. Ele interpretava as minhas visões. O xamanismo é uma religião de poesia, não de teologia. Assim como no candomblé, a tradição xamânica é oral. Não é escrita como na religião católica, por exemplo. Mas hoje eu não me ligo a nenhuma religião organizada.
Eu li numa entrevista que você também tem interesse em UFOs, OVNIs, é verdade?
Eu nunca vi discos voadores, mas eles existem e são muito importantes para podermos criticar a ciência. É importante fazermos a crítica da ciência. Esse reducionismo cartesiano emperra qualquer visão mais profunda da realidade.
Uma vez o Allen Ginsberg disse que a realidade é paranóica e não ele. Você concorda?
Assino embaixo. Quando você pensa que está extrapolando, a realidade extrapola mais.
Você é feliz?
Muito. Não sou infeliz nem um pouco. É possível ser feliz quando se está nadando contra a correnteza de mediocridade. Daí a realidade fica mais alegre, mais profunda, mais dionisíaca. O que me faz feliz é a leitura de um bom livro, o amor, sair de São Paulo para as matas, para as praias, para os campos, para as montanhas.
Mas Piva, você é um poeta símbolo de São Paulo...
Ai, que horror.
Qual o lugar do sagrado no mundo de hoje?
Isso é subjetivo, depende de cada um. Eu sou, como disse o Garcia Lorca, um pulso ferido que sonda as coisas no outro lado. Temos que profanizar o sagrado e sacralizar o profano. Não entendo o sagrado como devoção. O sagrado está na natureza, ele está disperso em tudo, basta sabermos aglutiná-lo. Estamos vivendo a falência das religiões monoteístas: do comunismo, do islamismo, do cristianismo, do judaísmo. É aquela coisa: em toda religião monoteísta o meu Deus é melhor que o seu. No candomblé, por exemplo, não. Todos os orixás se equivalem. Cada um tem a sua função, mas todos se equivalem. Iemanjá não é maior que Xangô. Xangô não é maior que Exu. É uma visão politeísta de mundo.
Você disse que ser feliz é ler um bom livro. O que você lê hoje em dia?
Estou relendo toda a obra do Pasolini. Ele era um poeta que acreditava no fim do mundo. E o fim do mundo tem um nome: explosão demográfica. Só intelectual de "uísquerda" que não entende. É tabu você falar nisso porque os intelectuais positivistas e esquerdistas brasileiros te acusam de neomalthusiano. Estão botando mais gente no mundo do que a capacidade de alimentá-los. Essa é a verdade. E esse Lula é um palhaço, um energúmeno que acredita nas idéias que o pessoal da PUC e da USP lançaram no ar há mais de 40 anos. No marxismo, a natureza não existe, ela é ilimitada nos seus recursos. Pode-se destruir trezentas florestas amazônicas e nada acontece. E nós sabemos que os recursos naturais são limitadíssimos. O marxismo é pra quem gosta de natureza morta.
Hoje em dia experiências como sexo, violência e consumo de drogas estão banalizadas. Um pensador francês chamado Michel Maffesoli acredita que a banalização e o aumento dessas experiências é um renascimento dionisíaco. Existem outras pessos que acreditam que o homem estão apenas mais solitários e hedonistas.
Eu acredito que o homem está mais solitário e hedonista, porque todas essas experiências foram cooptadas pela cultura de massa, pela televisão. E será queimado em praça pública todo aquele que não seguir o caminho da experiência codificada pela televisão.
Você assiste televisão, o que gosta de ver?
Assisto, sim. Animal Planet, Discovery Channel. Eu estudo xamanismo e isso tem uma ligação grande com a espiritualidade dos animais.
Com a violência banalizada do jeito que está você acha que a expressão "poeta marginal" perdeu o sentido?
Todo poeta verdadeiro é marginalizado. A poesia não tem existência no real.
Mas a poesia nasce do real, não?
Do real imaginário, da subjetividade do poeta.
Como é o seu processo de criação hoje?
Eu nem sei te explicar, não saberia te explicar. Escrevo muito pouco. Nunca reescrevo. Do jeito que veio fica. Não posso perder tempo escrevendo, a vida é maior.
É verdade que você foi um dos primeiros a tomar LSD em São Paulo?
Eu não sei, não fiz uma enquete sobre isso (risos). Tomei quando veio até mim, não procurei nem nada. Foi na Cantareira nos anos sessenta. Teve um papel importante na minha poesia. A revolução psicodélica talvez seja a única que tenha algo a dizer ainda hoje.
Você acha que a experiência com drogas é muito diferente hoje daquela que se tinha na década de sessenta?
Depende muito. Tem aquela pessoa que cheira cocaína e mata a família. É o que acontece quando se dá cocaína para a turma do milkshake. Com o índio boliviano não acontece isso. Ele mastiga e toma chá de folha de coca, e não mata ninguém. Agora, a turma do milkshake tem aquela subjetividade de esquina, de cheeseburguer. Eles cheiram e acabam com a vida do primeiro que aparecer.
Qual a importância da experiência para a poesia?
A importância é total. A geração atual é muito protegida, cheia de psicólogos, pedagogos, não pode quebrar a cara nunca. Está cada dia mais sem iniciativa, burrificada. A única doença que pega é a burrice. Tem também os anti-depressivos, que fazem parte de uma conspiração flagrada pelo Wilhelm Reich quando ele falava da indústria do câncer. Reich mostrou que a cura do câncer é quase impossível porque há uma indústria que lucra com a doença. Ninguém enfrenta uma máfia dessas, os médicos, a máfia de branco, impunemente. Por isso Reich foi parar na cadeia em 56. Estamos vivendo hoje a industrialização do medo.
O medo é a base do governo Bush...
Não só do governo Bush, mas de todos os governos.
Não é interessante que numa sociedade cada vez mais paranóica, maluca, as pessoas experimentem cada vez menos, tenham uma vida cada vez mais protegida? A metrópole maluca não deveria nos levar a experiências ainda mais malucas?
Esse "maluco" que você se refere não é dionísiaco, mas sim programático e programado.
Fica difícil ser feliz numa sociedade como essa?
A felicidade é sempre individual, nunca é coletiva. Mas é preciso desmarxizar o pensamento pra entender isso. O coletivo é uma grande cruzada unida para se ganhar dinheiro. Só.
Você acha que sua poesia faz mais sentido hoje do que na década de 60?
Muita gente acha que sim, que eu escrevi um livro profético, aquelas coisas.
Como é reler coisas que você escreveu há quarenta anos?
Tudo o que vocês chamam de história é o meu plano de fuga da civilização de vocês.
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