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| Seu Cláudio César Dias Baptista, o CCDB, em seu escritório/quarto/laboratório. O soundystem que ele mesmo fez em 1972, até hoje sem pedir manutenção, lendários equipamentos e sua musa e esposa, Dalgiza, em momento Trip Girl |
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Por Bruno Torturra Nogueira
Sossego. Nosso Sossego. Aliás, Jardim Nosso Sossego, onde, no alto de um morro baixo, descansa sossegado um sobrado branco, quadrado, sem telhado. Apenas uma laje-terraço, de onde acena ao longe uma figura espigada, vestida de branco, de cabelos grisalhos. É ele, só pode ser, esperando a reportagem chegar; seu Cláudio, como é conhecido no sossego daqueles lotes em Rio das Ostras, a quase três horas de carro ao norte do Rio de Janeiro. Ou CCDB, como assina em seu site, e-mails e equipamentos eletrônicos. Ou Cláudio César Dias Baptista, como a história há de grafar quando o reconhecer como o autor da maior obra já escrita. Géa: 13 tomos, 1.400 personagens.
Cláudio é um gênio desde cedo, bem antes de entender o que um gênio é, quando cantava coisinhas em latim no colo dos pais. Com o tempo, o jovem gênio de Cláudio resolveu gostar de equipamentos de som. Na casa dos pais, no bairro da Pompéia, nos anos 60, desmontava parafernálias valvuladas. Depois remontava, alterava, arriscava e logo, logo projetava circuitos que seus irmãos cuidaram de abastecer com o mais original rock que o Brasil havia escutado. Seus irmãos são Arnaldo Baptista e Sérgio Dias - Os Mutantes. É de Cláudio a autoria das guitarras Régulus (que Sérgio ainda usa), amplificadores, efeitos e filtros que derreteram e remodelaram o pop brasileiro.
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Além de cavoucar circuitos, Cláudio também gostava de cavoucar sua alma. Lia muito sobre a transcendência e, a anos-luz de seus colegas adolescentes, dissecava a consciência em busca de um sentimento cósmico, místico, maior que tempo e espaço, algo indizível que desse sentido à sua existência. Com 18 anos, o irmão mais velho de Arnaldo e Sérgio decidiu cavar fundo - e rápido: "Já tinha minha própria filosofia, meu conceito de cosmo, mas não uma experiência mística. Tomei LSD, que no meu caso deu certo. Tive a felicidade de ver Deus, de maneira alegórica. Se alguém me pergunta se acredito em Deus digo que não - que conheço Deus".
Clara e didaticamente, continua: "Mas ninguém mais que eu pode contra-indicar uma experiência com LSD. Tenho um irmão que se atirou de uma janela de hospital tentando suicídio - a causa foi o ácido e problemas emocionais". Cláudio só tomou ácido essa única vez - ao contrário de seus irmãos, que, depois dele, viraram fãs da fórmula do dr. Albert Hoffman.
Desde então sem drogas, flutuando em circuitos e filosofias complexas, CCDB tinha nova busca. "Vivenciei no mundo da emoção o que já sabia na razão. Mas dei um salto para aquele lugar que muita gente passa a vida procurando e não alcança. E fiquei sem conhecer o caminho... E quis muito conhecer essa montanha toda." Passou 30 anos em soldas e desenhos de equipamentos pioneiros no Brasil: o primeiro analisador de freqüências, o primeiro wah-wah, o primeiro vocoder, a menor mesa de 12 canais já feita, amplificadores, equalizadores, caixas, woofers... Passou 30 anos casado, descasado, abrindo mão de tudo o que tinha, casado novamente, começando do zero. Trinta anos pensando fundo no sentido da vida. Gênio, certo dia, descobriu. "Existe mais quem se relaciona mais. O que cada ser busca, desde a menor das partículas, um organismo unicelular ou um super-homem, é relacionar-se mais para existir mais. É o que todo ser quer. Quando você se sente feliz é porque estabeleceu uma relação nova. Quando fica infeliz é porque desfez uma relação." Em Géa, essa idéia é chamada de biorrelatividade. E são muitas as idéias de Cláudio em sua obra monumental. Desafia Darwin, Newton e Einstein. Para desenvolvê-las no papel, Cláudio largou a eletrônica. O motivo foi uma revelação - a segunda grande experiência mística que teve, em meados dos anos 90.
Em uma cerimônia, conta Cláudio, "fui projetado ao redor de uma fogueira, acompanhado de uma roda de pessoas. De repente à minha direita surge uma luz muito forte: era uma entidade sem corpo. Algo que nunca teve corpo ou que já teve e sobreviveu ao que chamamos de morte. Ela tocou um a um. Quando me tocou, senti uma imensa bondade, uma vontade enorme de ajudar. Era quase uma ordem para fazer alguma coisa". Em seguida, CCDB se justifica ao olhar perplexo da reportagem. "Senti tudo aquilo de forma muito verdadeira. Não garanto que seja real... Mas garanto que seja verdade." Tão verdadeiro que Cláudio largou os dotes de autodidata em eletrônica para se dedicar a escrever Géa e destrinchar em aventuras, em naves espaciais e nas muitas centenas de personagens do planeta homônimo as explicações do funcionamento do universo. "É uma missão", resume, "e foi bom tomar essa iniciativa porque tempos depois tive contraturas nos pés e nas mãos. E nos olhos tive hemorragias em decorrência do diabetes, o que me impede de enxergar de perto os circuitos eletrônicos. Se não tivesse parado antes, seria forçado a parar de qualquer forma", conta, exibindo a mão esquerda meio torcida e, literalmente, sorrindo. E Cláudio, quando sorri, fica a cara dos irmãos. Hoje, vive com pouco dinheiro. A única fonte de renda são três aluguéis das quitinetes que possui no bairro de Laranjeiras no Rio. Coisa de R$ 1.000. E só. Já chegou a passar fome um tempo. Diz que seria justo ganhar parte dos direitos autorais dos Mutantes, "o equipamento, o som, no caso deles, tem tanta importância quanto a música". Não briga por isso. Fala com os irmãos, raramente porém, mas com freqüência escuta a banda deles - ainda gosta muito.
Quarto mundo
Levantou a casa quadrada no alto do morro em mutirão com a família da mulher. Ajuda Dalgiza a deixar o jardim dos fundos bonito como é. Quando rega as plantas, delira de novas idéias. Géa ele terminou. Não tem medo de afirmar, com voz e olhar humildes, que sua obra é realmente fabulosa: 12 livros com toda a saga mais um dicionário vasto e elaborado com o léxico do planeta por ele inventado. Também tem pronto para lançar o livro Que, um tomo só, "um livro fantástico, com potencial de best-seller". Cláudio sugere que todos os livros da obra inédita Géa devam ser publicados juntos - são um livro só. E deve haver um prazo para a publicação: as idéias fortes de Géa podem facilmente ser abafadas por editores mal-intencionados. E os direitos da obra são cedidos apenas para o papel. E-books, HQs e cinema, sobretudo cinema, ficam por conta de CCDB decidir como e quando fazer. Seus olhos ainda infantis crescem quando fala de cinema. No quarto onde dorme e trabalha, o segundo andar inteiro da casa, há uma estante metálica branca abarrotada de fitas VHS com filmes gravados da TV, devidamente etiquetados. Cláudio passa muito tempo de seus calmos e regulares dias nesse segundo andar. Uma espécie de cenário decadente de Stanley Kubrick, com cimento aparente e móveis antigos todos brancos, lindas cadeiras de couro branco rasgado, lupas e aparelhos eletrônicos de botões generosos, todos feitos por ele, que ostentam a marca CCDB. Tudo velho, tudo funcionando perfeitamente, quase tudo branco. Ou quase branco.
O colchão de casal onde dorme com Dalgiza, sua mulher, fica no chão. Ele tem duas mesas. Em uma, está seu computador de monitor adaptado. Seria cômico, não fosse sábio: uma espécie de cone de papelão envolve a tela e acaba em uma boca menor, onde cabem os olhos e os grandes óculos de CCDB. Isola a luz externa, descansa a vista, melhora a nitidez da tela e requer muito menos energia. É com o rosto apoiado naquele chapéu de bruxo deitado onde trabalha oito horas por dia. Escreve fácil 40 páginas por dia. Na outra mesa está seu som. Speakers gigantes embutidos em madeira branca, amplificadores e toda a tralha eletrônica ligados. Uma etiqueta plástica anuncia com orgulho: "Funcionando 16 horas por dia desde 1972 sem assistência a partes fixas".
Há mais estantes brancas com dezenas de álbuns de fotos, cadernos, revistas. E uma escada quase perpendicular que dá para o terraço com vista de 360º, para a montanha e para o mar gelado de Rio das Ostras. A escada é um dos raros plágios que CCDB fez na vida: é um projeto de Santos Dumont. Cláudio tem um plano descrito em Géa - ele crê que funciona - de um disco voador. Explica o princípio enquanto Dalgiza faz um refresco de laranja e seus dois gatos, personagens de Géa também, fazem manha no chão, pedindo comida. A noite cai com cheiro de goiabas. Mas o céu da cidade não é mais o mesmo de dez anos atrás: as luzes das cidades apagam as estrelas. Cláudio aponta para cima e lembra da felicidade que sentiu quando chegou ali e realizou o sonho de ter um céu só seu. E lembra da noite em que um amigo, brincando, perguntou onde ficava Géa. O "acaso" providenciou um blecaute total na cidade e o céu salpicou. "Ali", apontou Cláudio. Perplexo, o amigo enxergou. No que baixou o dedo, as luzes voltaram e o céu apagou. Não era real? Que importa? Era verdade. CCDB nem se abalou, como nada parece abalar Cláudio César Dias Baptista - cujas preocupações são o cosmo, o sentido da vida, a mulher querida, o filho e os gatos. O carro vai embora enquanto seu Cláudio e Dalgiza acenam a despedida até sumirem na curva, e a estrada cheia acabar com Nosso Sossego.
Leia, entenda Géa e fale com CCDB: www.ccdb.gea.nom.br |
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