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Para emoldurar seu diploma de artes plásticas, como todo aluno, Adriana teve que apresentar uma obra ao fim do quarto ano. Algo que pudesse convencer a banca de professores de que havia sentido no que ela entendia por arte. Não teve como... Deixou as salas de exposição de lado e usou a quadra da Faap. Ela projetou e montou uma armação de ferro, com dez círculos dispostos em fileiras, pendurou a geringonça parecida com um cacho a alguns metros do chão, deu play na tri­lha do francês Yan Tiersen e passou dez minutos se torcendo e deslizando com força e graça entre as argolas — os favos de sua Colméia, o nome da obra. Nota 10. Passou. De fato, para a moça, arte e corpo não são coisas diferentes.
Hoje ela vive disso — de arte e corpo. É que, há dez anos, Adriana faz parte do circo. Logo, parte de seu ofício é cuidar muito bem da carapaça. Espia o treino:
Academia. Malha, faz musculação, abdominal... treino clássico. Pelo menos três vezes por semana.
Yashi, treino específico para ginástica olímpica, coisas assim, onde fortalece músculos específicos, como os do pé, pescoço; ioga, para manter a flexibilidade em dia. Três por semana.
Natação — faz bem, você sabe. Sempre que dá.
Aulas esporádicas de dança — é que cir­co demanda uns passinhos vez ou outra.
E, evidente, o treino do circo em si. Sua especialidade é a lira. Espécie de trapézio solitário em que a moça se pendura, se contorce, estaca e faz seu número.

Plantão fisioterápico
Os cuidados não acabam aí. Vai regularmente ao ortopedista, regula a alimentação com um nutricionista. Fisioterapia, oficialmente, três vezes por semana, para manter em dia suas articulações (principalmente as do ombro) e evitar o desgaste dos treinos puxados. Mas pode-se dizer que vive em plantão fisioterápico... é que sua mamãe, com quem vive, é fisiote­rapeuta, e desde sempre trata bem das juntas e afins da filha.
A moça passou o último semestre em cartaz em São Paulo, com o espetáculo Stapafurdyo, produção conjunta da trupe dos Parlapatões e do grupo de Pia Fraus. Circo mesmo, debaixo da lona, mas com “roupagem moderna”, afirma. Luz de teatro, trilha de André Abujamra, coisas assim. Agora, por conta do patrocínio da CCR (Companhia de Concessões Ro­doviárias), roda pelas cidades que beiram a Dutra desde o fim de janeiro. Este fevereiro vai dar seus vôos em Guarulhos, sob a direção de Hugo Possolo, palhaço e mestre do circo brasileiro contemporâneo. Esforço nenhum pra ela, até porque o namorado, com quem está há cinco anos, vai ficar por perto — é da trupe também.

Vivendo no ar
Não sente preguiça, Adriana? “Ah, to­do mundo sente. De manhã tenho pre­guiça de levantar.” E não se cansa? “Na verdade é um trabalho de mente, de disciplina. E sempre vale a pena depois. Sinto preguiça, mas depois que faço é um alívio. Você se sente bem, a consciência fica tranqüila.” E tranqüilidade é tudo para que seus números não acabem em queda. Mente e corpo, mente e corpo... essa é a rotina da garota que entre centenas de abdominais e flexões de toda espécie adora o chanson jazz de Madeleine Peyroux, vê pouca TV e lê “menos do que gostaria”.
Se não há exatamente um plano de carreira no circo, há ambição, sim. “No futuro, próximo de preferência, quero abrir uma escola de circo. Já tenho o terreno”, revela. É na escola que ela pretende “sossegar” — do jeito incansável dela — e ensinar inclusive a deficientes físicos as artes do picadeiro. “Usar os exercícios de circo em vez de fisioterapia tem resultados muito me­lhores do que os tradicionais. Porque a pessoa tem desafios mais gostosos, e faz alguma coisa com aquilo.”
Aos 29 anos, ainda mora com os pais. “Quer dizer, não exatamente. Moro no mesmo terreno, só que em uma casinha separada.” E está bem assim. Dá pra viver de circo? “Ah, dá. Tem seus altos e baixos, claro. Um mês pinta trabalho, outro mês não acontece nada.” E assim vai. Se abre mão de uma renda estável e do conforto sedentário dos empregos comuns, não abre mão do sonho de viver no ar. Com os pés bem no chão...

Assistente de fotografia: Paulo Ferreira  Coordenação de produção Jadi Stipp  Produção Alex Missaka  Estilo Lydia Bassi  Make/Hair Omar Bergea Créditos Moda Salsa  (11) 5182-6262 Verve (11) 3083-7431 Blue Man (11) 3181-2247 Thais Gusmão (11) 5189-4944 Cia Marítima (11) 4512-8000 Rosa Preguiçosa (11) 3814-7609 Accessorize (11) 3812-6110 Cantão (21) 3294-9161 Nature Market (11) 3082-5342