Voando alto
Em 1979, Pepê abandou o surf-competição e decidiu aventurar-se no esporte mais perigoso do mundo, líder das estatísticas de fatalidade: o vôo livre. Passou a freqüentar todos os dias a praia do Pepino, em São Conrado, principal point do esporte no Rio. Em 1987, Pepê viajou a Brasília para saltar do Vale do Paraná, a rampa de vôo livre mais perigosa do país, com um alto índice de acidentes, apelidada pelos pilotos de “Tamburello” – uma referência à temida curva do circuito de San Marino, em Ímola, na Itália, que vitimou Ayrton Senna, em 1994. No dia da prova, o vento noroeste chegou a 60 km/h, obrigando os organizadores a cancelar a etapa. “Ninguém topou voar.

O vento estava tão forte, tão irregular, que a gente jogava uma pedra no abismo e ela voltava. Seria suicídio”, conta Alex Silveira, um dos grandes nomes do vôo livre brasileiro. “Quando o Pepê chegou na rampa e soube que todo mundo havia desistido, deu um berro: ‘Ninguém vai voar? Que história é essa?’. Conclusão: seis pessoas, por causa do forte vento, tiveram de ajudar Pepê a montar a asa. Todo mundo ali ajudando, xingando-o de louco, de pirado, e ele debochando: ‘Vocês é que são malucos de voltarem para Brasília de carro. Eu vou voando, é mais rápido. E foi. E ainda tirou sarro pelo rádio: ‘Vocês não sabem o que estão perdendo!’.”

Desafio no limite
Em abril de 1991, Pepê partiu para o seu maior desafio no vôo livre: voar 100 quilômetros entre Wakayama e Kushimoto, no Japão, num percurso que desrespeitava todas as normas de segurança do esporte. “Era como cruzar uma península inteira, com ventos fortíssimos e muita turbulência, sem praticamente um só local de pouso”, explica o piloto Phil Haegler, companheiro inseparável de Pepê, que também participou da prova. A maioria dos pilotos estava de olho no prêmio de 100 mil dólares pela vitória. Pepê não. Havia começado a competição em sétimo e, faltando duas provas, já havia subido para segundo, atrás do australiano Steve Blenkinsop. “Ele, que sempre teve um sentido de competição muito forte, queria vencer a prova a qualquer custo”, lembra Haegler.

No último dia de competição, os ventos em Wakayama tornaram os vôos impraticáveis. A organização, porém, recusou-se a cancelar a prova. Blenkinsop, o líder, queria desistir, mas Pepê, o segundo, nem pensou na hipótese. Os dois partiram então para o vôo da morte, seguido por um japonês, terceiro da prova. Em duas horas, voaram apenas 17 quilômetros – em condições normais, teriam voado 200. Os três perderam altura, mas Pepê não deu sorte: chocou-se contra as rochas e durante duas horas e meia, com oito costelas quebradas e hemorragias internas, agonizou de dor. Conseguiu apenas gritar pela mulher, Ana Carolina, e pelos filhos, Bianca, de 3 anos, e João Pedro, de 1. Um helicóptero chegou, mas já era tarde. O Brasil perdia Pepê.

No dia seguinte, sem nada planejado, um formigueiro alado e humano tomou conta dos céus da praia de São Conrado para homenagear o mais corajoso esportista da história do Rio de Janeiro.

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Coordenação de Produção Jadi Stipp Produção Alex Missaka Assistentes de Produção Ana Cabral / Samantha Reis