uando o clima mudava no Píer de Ipanema e o mar crescia, eram poucos os surfistas que se atreviam a entrar na água. Ondas gigantescas se formavam a poucos metros dos tubulões e estacas que sustentavam o embarcadouro, armação de ferro e madeira instalada ali pelos militares em 1970 para a construção de um emissário submarino. Encarar a direita do Píer, próximo às estacas, não era para principiantes. Em dia de vento forte, os menos experientes corriam para o Arpoador e só os melhores surfistas do Rio entravam no mar. Durante todo o ano de 1970, Ricardo Bocão, Rico de Souza, Daniel Sabá, Otávio Pacheco e Betão reinaram soberanos. Em meados de 1971, um vento sudoeste fortíssimo afugentou até mesmo os maconheiros das dunas do barato, como ficara conhecido o Píer, depois que Jorge Mautner e o adolescente Cazuza esfumaçaram a praia. Era o batismo de fogo esperado havia meses pelo garoto de 14 anos, corpo franzino, cabelos longos, quase brancos de tão loiros. Pedro Paulo Guise Carneiro Lopes desceu as escadas do quarto andar de seu apartamento na rua Montenegro (hoje rua Vinícius de Moraes) e, cabelo ao vento, caminhou alguns metros até a temida ponta da praia de Ipanema, entre as ruas Farme de Amoedo e Teixeira de Melo.

mar não estava pra peixe. Entrar no Píer naquelas condições só mesmo direto pela ponte, já que era impossível passar a arrebentação. O garoto benzeu-se, segurou firme a prancha caseira, cheia de imperfeições, e lançou-se para as ondas com coragem e atrevimento jamais vistos na história de Ipanema. Ao ver o menino encarando tubos no chamado backdoor, com a ponta dos cabelos raspando as estacas, Bocão soltou uma exclamação que dali pra frente seria ouvida sempre que Pepê resolvesse superar seu próprio limite: “Esse cara é maluco!”.

Com uma aptidão incomum para qualquer esporte (foi bi­campeão carioca mirim de hipismo, aos 13 anos), Pepê virou símbolo maior da geração saúde do Rio de Janeiro. Boa-praça, amigo dos amigos, tornou-se também empresário bem-sucedido, o primeiro a montar uma barraca de comida natural na praia do Pepino, em São Conrado (mais tarde na Barra da Tijuca, no trecho da praia que leva o seu nome), e a abrir o restaurante Sushi Leblon, muito antes de a culinária nipônica se instalar na capital carioca. Tinha uma consciência ecológica inata, numa época em que pouco se falava sobre o assunto. Tricampeão brasileiro de surf, especialista em ondas grandes e tubos, era respeitado por lendas como Gerry Lopez e Rory Russel. 

 

Trocou o surf pelo vôo livre em 1979 e continuou sendo chamado de louco. Campeão mundial de asa-delta em 1981, só não conseguiu vencer os ventos de Wakayama, no Japão, onde morreu, no dia 4 de abril de 1991, aos 33 anos. Virou mito. “Ele era um cara iluminado, bom em tudo. Só no futebol não conseguiu ser melhor do que a gente. Aí seria demais”, brinca o cantor Evandro Mesquista, companheiro de Pepê nas peladas de fim de tarde em Ipanema.

O jornalista Pedro Bial, seu vizinho e amigo inseparável dos 4 aos 10 anos, em Ipanema, lembra dos traços marcantes da personalidade do Pepê, que o acompanhariam por toda a vida: o cuidado com o corpo e o amor pela natureza; o tino para os negócios; e o destemor diante dos desafios da vida. “Ele tinha um profundo amor pelos bichos. Seu passatempo preferido era brincar de veterinário, cuidando de pombas que ele encontrava agonizando nas areias de Ipanema”, conta Bial. “Era esperto, muito bom de papo. Com 8 anos montou uma banca de gibis em frente ao prédio dele e ganhou um dinheiro absurdo para alguém daquela idade. E, acima de tudo, era um sujeito desprovido de medo. Aos 5, pegava sua Planonda (prancha de isopor muito usada na época) e encarava as ondas. Dona Suzana, minha mãe, entrava em pânico toda vez que avistava aquela cabecinha loira no fundo do mar.” Os pais de Pepê, seu Dantão e dona Vera, jamais impuseram limites ao filho. Não precisavam. Ótimo aluno, craque em matemática e careta convicto – vomitara ao tragar uma bituca de cigarro mentolado oferecido por Bial –, Pedro Paulo, ao contrário da maioria dos jovens de sua geração, passou longe do desbunde que tomou conta de Ipanema no começo dos anos 70. 

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