Ah, eu lembro das suas laudas, Arthur, como eu lembro... [Sorri] Eu não tinha técnica, não sabia como fazer. Foi a mesma coisa na televisão. Agora eu tenho meu método mesmo, que é mais ou menos em cima da física quântica.

Por favor, explica isso. É baseado em quatro alicerces. Primeiro eu me aprofundo, estudo o tema, leio, vou na Internet, faço como uma anaconda que engoliu um boi: deixo fermentando dentro do corpo. Daí me ligam os editores: “Qualé? Já fez o texto?”. Respondo: “Está a caminho”. Tudo dentro do prazo! Daí num momento vem a idéia de como eu tenho de fazer a abertura, como vem a seqüência. Está dado o start. Eu vou pra frente do computador, que é a quarta etapa, e aí vem, vem com tudo, um fluxo natural. É uma coisa orgânica. Não tenho dificuldade para escrever texto nenhum.

De onde vem essa fama de que você nunca entrega no prazo? O pessoal da Trip uma vez colocou um detetive na sua cola. Sim, mas esse detetive apareceu tardiamente. Se tivessem feito isso há oito anos, eu até concordava. Mas hoje, putz, eu entrego mais rápido que qualquer jornalista da Folha ou do Estado. Aliás, eu escrevo para jornais diários, tenho uma coluna no Jornal do Brasil. Então, isso de atraso é só folclore, é nhénhénhém,
intriguinha, coisinha de quem quer me incomodar. A idéia do detetive foi incrível, mas o cara era um pastel, um mosca-morta, porque eu acordo às 5h, 5h30, vou pra ioga, daí volto! No dia em que o cara me pegou, eu fui pra padaria tomar um café com leite, um sanduíche de queijo branco, e o cara me fotografou. Isso era umas nove e meia da manhã, bem depois da ioga. E o cara falando que eu tinha acordado àquela hora...


Você chegou a se afastar da Trip durante um tempo. Eu estava com alguns problemas na Trip, me distanciei ali por volta de 1992, 93. Minha mãe tinha falecido, uma tristeza danada, eu me sentia num buraco. O Dandão estava fazendo a revista Boom e me chamou: “Ô, cara, você não fala tanto da Índia? Por que não viaja pra lá?”. Eu falei: “Como? Você tá maluco? Sozinho?”. E ele: “Vai lá! Pega uma caneta, um gravador e uma máquina fotográfica”. Porra! O Dandão foi uma voz da sabedoria na minha vida. Fui pra Índia e meu diário de viagem foi publicado na Boom, 18 páginas. Aí voltei ao mercado, o Paulo me abraçou novamente, mandamos ver e eu comecei a formar este Arthur.

O gonzo? É, o gonzo. Foi com uma matéria sobre o edifício Demoiselle, o Treme-treme, na rua Paim. O título: “Balança, mas não cai”. O fotógrafo era o Shin Shikuma, fizemos uma puta reportagem. Foi um mês e meio vivendo num lugar que tinha travesti, bandido, famílias, pessoas decentes, tudo. Aí eu percebi: “Cacete! Eu sou bom no negócio”.

Um clássico da Trip: você é feliz? Eu sou este esbanjar de felicidade. Eu sou vida, cara, sou digno de mim mesmo! Poxa, estou no caminho ióguico, no caminho do meio. Minha história é pura ioga. Tenho uma responsabilidade nesta vida, tenho de deixar um legado, não só para meus filhos. Sou um ser humano que, a princípio, serve de exemplo de como a gente pode renascer, de ser uma fênix, de estar aí bem na vida sem deixar de ser autêntico. Eu faço as coisas que realmente gosto de fazer. Pô, eu não sou dirigido por ninguém, não faço novelinha. Eu faço a vida, certo? Eu faço documentário, faço minhas matérias e estou lá com os sujeitos que são autênticos. Não é fake, não é maquiagem.

 
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