E você era do Brooklin, hein? Eu nasci no Rio e, com cinco anos, fui morar em São Paulo, no Brooklin. Você sabe, não é como o Brooklyn de Nova York, mas é o bairro de diversas bandas de rock. Rogério Duprat circulava por lá. E quem era nosso guru? Raul Seixas! Ele ficava ali, perto do córrego, numa cadeira de colonizador, redonda, com os discípulos ao redor, contando sobre os shows, as mentiras e causos. A gente ia lá levar oferendas para o Raul.

Seus pais eram de onde? Meu pai era de Recife. Meu avô foi prefeito da cidade e meu pai foi aluno de Gilberto Freyre. Então, tenho esses laços com a história do Brasil, com Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Câmara Cascudo, Mário de Andrade... E mamãe era de Xapuri, no Acre. Eles se conheceram no Rio de Janeiro: a acreana e o pernambucano. Meu pai então era ator da TV Rio, um galã. E mamãe era uma garota de Copacabana, do Posto 6.

Seu universo era futebol, bicicleta? Ou você ficava lendo? Eu freqüentava o clube Banespa. Minha mãe era professora de ginástica lá, tinha mais de 500 alunas. E meu pai, além das obrigações políticas como assessor do Adhemar de Barros [ex-governador, prefeito e deputado paulista], era diretor social do clube, organizava os Carnavais, essas coisas. Eu fiz ginástica olímpica, salto ornamental, joguei vôlei, basquete — eu era um terror. Fui vice-campeão brasileiro de esgrima! Já era espada desde moleque.

E a música? Na minha área tinha os maloqueiros, mas do outro lado da avenida moravam os estrangeiros, muito americano, alemão, sueco. Eu era amigo do filho do cônsul da Dinamarca, por exemplo. E de dois irmãos filhos de um aviador, que apareciam com os lançamentos do Gentle Giant, Van Der Graf Generator... A gente tinha acesso a sons que era difícil achar. Então, desde pequeno já escutava Jimi Hendrix, Genesis, Jethro Tull, essas bandas. E Led Zeppelin — todo mundo queria ser Robert Plant. Eu me lembro da primeira vez que escutei Stooges, com Iggy Pop, eu com 12 anos, baita de uma precocidade. É inacreditável, mas as sementes que se planta reverberam na vida lá na frente. Por isso que, nos anos 1980, fui um dos DJs pioneiros no Brasil. Eu tinha uma base musical profunda, não ouvia apenas bicho-grilismo brasileiro.

E sua entrada no Rajneesh? Aconteceu nas estepes do Brooklin. Vi duas obras dele numa livraria, e uma era Tantra: A Suprema Compreensão. Pra mim, foi o advento, modificou minha vida. Abriu. Fui descobrir o que era zen, os fundamentos do orientalismo, quem era Mahatma Gandhi, Blavatsky, Aurobindo, todos esses nomes. Então, com 17 anos, subo num muro pra espiar e vejo um monte de mulher bonita chacoalhando o corpo, fazendo kundalini, meninas lindas, de todas as idades... Eu falei: “É aqui que eu fico”. Amarrei meu jegue ali por mais de dez anos, curtindo, aprendendo essas coisas. Na comunidade eu viajava pra Trindade, pra Trancoso. Conviver com essas pessoas especiais foi minha grande universidade de vida.

E um dia você vai parar nos Estados Unidos. Trabalhei um ano na Vasp para descolar um bilhete pra Califórnia. Fui morar numa comunidade Rajneesh no deserto do Mojave. Fiquei lá quatro meses, mas pareciam quatro anos. Conheci terapeutas incríveis, mulheres maravilhosas. No começo, fui pra fazer terapia de grupo, mas então me convidaram pra ficar lá sendo monitorado. Mas eu era novinho, estava de olho nas moças que estavam entrando e nas que estavam lá se separando.

Faculdade, nem pensar? Não dava certo pra mim. Eu aprendia com os livros e com as pessoas que encontrava na vida. Aliás, foi nessas idas e vindas que acabei conhecendo o Andrez Castilho, em Trancoso. Ele estava fundando o Carbono 14, em São Paulo, e ficamos amicíssimos, feito liga. E eu, desse mundo de alegria e meditação, entrei no mundo da morte. Comecei a freqüentar o Carbono, fui pra Amsterdã, pra Espanha, conheci um grande DJ chamado Aloísio Lacerda, o Eddy the Monster, e me transformei no Doktor Ezoterik – nessa época os DJs tinham nomes sonoros.

 
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