Eu devo ter cruzado o Arthur mais de uma vez bem antes de tê-lo conhecido. Eu era do Campo Belo, ele do Brooklin, e esses bairros são emendados — não se sabe direito onde este acaba, onde o outro começa, especialmente quando somos crianças. Eu devo ter visto esse cara de óculos num dos Carnavais do clube Banespa, ou ele pulando da plataforma na piscina olímpica, algo assim. Sem dúvida, eu devo ter reparado naquele magrelo barbudo, discípulo de Rajneesh, descendo a Joaquim Nabuco ou atravessando a Santo Amaro vestido de vermelho. A verdade é que, apesar de tantas chances, só bem mais tarde, e em outros bairros, a gente se conheceu mesmo e ficou amigo.

A Trip ainda não existia, nem o Arthur era repórter, quando Paulo Lima apareceu me falando do cara, um DJ incomum, muito louco e bem informado, que zanzava no programa Surf Report, ainda lá na 97 FM de Santo André. Aí, sim, não demorou para que fôssemos apresentados. Ou melhor, quase. Era um som ao ar livre no alto de uma montanha em Campos do Jordão, um babado com música e fogueira pra embalar a passagem do cometa Halley. Sonia Abreu trouxe ele pelo braço: “Este aqui é o Arthur”. Mas ele estava tão doidão que mal conseguimos conversar. Conforme os discos começavam a rolar, ele entrava em êxtase e pulava sobre o capim que guarnecia os barrancos. Trocava-se a música e o surto se repetia. Eu nunca tinha visto nada igual.

Trabalhando na redação da Trip lá no comecinho, eu fui, por assim dizer, a primeira grande vítima do repórter Arthur Veríssimo. É de imaginar como chegavam os textos. Primeiro ele batia à máquina – era assim que se falava. Depois, com uma caneta, praticamente reescrevia tudo nas entrelinhas, a pretexto de corrigir duas ou três coisinhas. Mas recorro a essas lembranças só pra fazer chiste, fortalecer o mito. Porque, no fundo, ter conhecido o Arthur foi uma das coisas boas desta vida.
 
O cara que hoje roda o mundo atrás de pessoas inacreditáveis sempre foi, ele mesmo, alguém pra lá de improvável. Não há assunto sobre o qual não possa discorrer por um bom tempo, sempre com conhecimento de causa, mas principalmente usando palavras e frases estranhas, que ele vai inventando na hora. Seu conhecimento musical, então, transcende as coisas terrenas, arrepia a ordem das coisas — quem, no meio dos anos 1980, faria um programa de rádio chamado Conexão Afro-Dub?

Mas foi viajando junto pra Visconde de Mauá que comecei a descobrir o verdadeiro Arthur. Por trás do véu, seus muitos personagens revelaram-se apenas um arremedo, o expediente de uma alma inquieta mas comprometida com a evolução possível. Sua natureza atípica não o distanciou do caminho — pelo contrário, ele segue cada vez mais firme na ioga e nos estudos do orientalismo. Talvez por isso, mesmo depois de seus dois casamentos, pai de João (13 anos) e Vitória (dois anos e dez meses), o Arthur ainda parece o menino de óculos que eu devo ter visto nas ruas do Brooklin. Ele continua chamando a atenção
 
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