“Não tínhamos
a intenção, eu e meu amigo finlandês,
de fazer uma viagem exclusivamente sexual. Fomos
a Dubai com a idéia de conhecer uma nação árabe
e, ao mesmo tempo, visitar quatro amigos europeus
que trabalham no sistema financeiro do país.
Cheguei aos Emirados um pouco apreensivo com
a questão comportamental que envolve os
gays. Há um clima ocidental nas ruas,
misturado a um tradicionalismo milenar oriental. É como
se os comportamentos em público pudessem
chegar somente a um determinado limite. Meu temor
era não saber qual era o limite.
Já no primeiro dia, fomos para nossa surpreendente
e mais excitante noite em Dubai. Um amigo sueco,
que nos hospedou, disse que conhecia um mundo totalmente
oculto para a maioria dos habitantes daquela cidade.
Segundo ele, o medo da prisão, ou de alguma
outra repreensão por parte da polícia,
faz com que o universo gay exista num submundo
ainda mais sombrio que qualquer cidade ocidental
possa experimentar.
Jantamos em um restaurante local e depois fomos
a uma festa oferecida por um banqueiro árabe
local, em sua cobertura. Sírios, jordanianos
e libaneses se misturavam aos ocidentais
na festa, que no princípio parecia algo
normal, beirando até a caretice. A primeira
sensação estranha que pude perceber
foi quando procurei por uma bebida alcoólica.
As cervejas e os whiskies ficavam escondidos atrás
de um armário e custavam uma fortuna – eram
pagos pelos convidados, mesmo a festa sendo aberta.
Soube que o consumo de álcool sofre restrição
em Dubai. Logo, toda aquela bebida era ilegal.
Provavelmente fora clandestinamente trazida do
free shop do aeroporto internacional. Conseguir
uma cerveja na festa tinha a mesma conotação
de conseguir cocaína em uma festa brasileira.
Após a meia-noite, o som nos ambientes diminuiu.
A luz mudou o tom dos tecidos avermelhados com
motivos orientais que estofavam a mobília,
dourada e prateada. Então, o sério
anfitrião, banqueiro, casado, membro da
nobreza e muito conhecido em Dubai, saiu de um
dos cômodos com uma roupa sadomasoquista
e um chicote nas mãos. Ao som de música árabe,
fez um strip tease, lento e completo, para o delírio
de todos os presentes.
Rebolava, se roçava em outros homens, gemia
alto, se chicoteava. Era quente como a maioria
dos homens árabes, que não negam
a fama que têm no universo gay ocidental.
Passava a mão no peito de outros homens,
balbuciava palavras nos ouvidos. Muitas vezes apalpar
as calças era como perguntar: “Está gostando?”.
Tive uma sensação estranha: apesar
de ser gay, não havia reparado até o
momento que absolutamente todos os convidados daquela
festa também eram. Havia uma discrição,
acho que um medo, até que a certeza de que
só havia gays naquele apartamento autorizasse
a grande performance sexual que se seguiu. A noite
começava a mostrar sua cara – mas
os homens presentes começavam a mostrar
interesse mútuo de forma muito discreta.
Foi assim comigo também. Mantive um papo
longo com um garoto sírio, que eu sabia
que estava me dando mole, mas depois daquele strip
tease me senti mais à vontade para avançar
um pouco o sinal. Num procedimento comum quando
dois gays querem mais privacidade, perguntei se
ele não queria ir ao banheiro.
Pegamos uma pequena fila e ninguém se incomodou
de entrarmos em dois. Apesar de novo, o garoto
tinha fogo. Foi logo me beijando, passando a mão
entre minhas pernas e em pouco tempo fazia sexo
oral em mim.
Por volta das duas horas da manhã a festa
começou a esfriar. Conversávamos
na sala, em um grupo de dez pessoas, quando Robert,
um sul-africano residente nos Emirados, propôs
que fôssemos todos esticar em seu apartamento.
Para bom entendedor, um sinal claro de que uma
orgia estava para ser armada.
Verdadeiro proibidão
Aos pisarmos para fora da festa, senti que
a descontração que tomava conta
do grupo cessou. O assunto homossexualismo
não poderia jamais ser mencionado
fora do apartamento de alguém. No
trajeto, cometi uma grande gafe. Em uma loja
de conveniência, paramos todos para
comprar sucos e refrigerantes para serem
misturados à vodka. Fiz então
uma piada não muito discreta, em bom-tom,
daquelas que se faz entre gays que se identificam.
Disse “I want some horny sex tonight” – de
uma forma jocosa, como faço normalmente.
O clima pesou na hora e Fahad, um garoto árabe
de olhar triste que estava conosco, sugeriu
que partíssemos imediatamente antes
que o vendedor nos identificasse.
Ainda no carro, a caminho do apartamento, passamos
por uma região de deserto. Fahad, que
estava ao meu lado, explicou que muitos garotos
de famílias tradicionais costumam escapar
de suas mulheres e levar outros garotos para
fazer sexo dentro do carro, no meio daquele
deserto. Mas, quando a polícia aparece,
a humilhação social e a prisão
tornam-se inevitáveis.
Já no apartamento de Robert, o que era
esperado se concretizou. Havia muita bebida,
que ele dava um jeito de trazer aos poucos
de viagens e com a colaboração
de amigos. O anfitrião não demorou
a colocar um quente filme pornô gay no
DVD da sala, que logo tomou a atenção
de todos.
Ao meu lado, meu amigo finlandês começou
a beijar um turco e Fahad ao mesmo tempo. Eles
se emaranhavam em braços e pernas, tiravam
parte da roupa. Eu fiquei excitado e quis participar
também; rapidamente fomos para um dos
quartos do amplo apartamento. O finlandês
se satisfez logo, então ficamos um bom
tempo em três. Enquanto isso, na sala,
o restante da festa se deliciava em outro sexo
grupal.
Já era quase manhã quando
Fahad e eu conversávamos à espera
de nossa carona de volta ao centro de Dubai.
Foi aí que o doce garoto, com o olhar
profundo e marejado, me disse que, quando sua
família descobriu sua homossexualidade,
o manteve encarcerado por quase um ano em seu
quarto, na esperança de que se “redimisse” de
sua condição sexual. A tristeza
e aparente timidez de Fahad estavam explicadas
para mim. Seu maior sonho, completou, era mudar
para um país mais tolerante com os gays.
Outro banqueiro, esse casado com mais de uma
mulher, nos levou de volta à cidade.
Entre assuntos variados, elogiava a política
e a economia daquele país. Mas, a exemplo
de Fahad e de outros árabes que conheci,
não escondia a tristeza no rosto quando
o papo era sobre seus direitos civis. “Engano
minha família aqui seis dias por semana.
Em Dubai, só posso ser gay uma vez por
semana”, lamentou pra mim. Aquele instante,
com três gays fingindo ser o que não
são, em um carro caríssimo no
meio do deserto, numa atmosfera de melancolia
e ostentação, foi, pra mim, a
imagem mais significativa de Dubai. Com a diferença
de que eu era o único turista, prestes
a voltar pra casa.”
*Por questões de segurança, o
personagem da matéria preferiu o anonimato.
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