Animado com o êxtase dos circunstantes, me atirei de câmera em punho no epicentro da romaria. Música explodia nos alto-falantes, mantras eram entoados. Ligadas aos anzóis e ganchos perfurados nas costas dos médiuns, longas cordas de nylon de variadas cores. Um grupo de guerreiros imensos sobe a escadaria empurrando quem está de bobeira. Chego junto, ligo a câmera, e, sem querer, o flash dispara. Uma das maiores cagadas da minha vida, com o perdão do meu português ruim. Devido ao flash, um minotauro gigante é desconcentrado de seu transe. O fiel me fita sequioso de ira santa, e, em meio à algazarra, dispara bufando no meu cangote. Como um bólido guiado por Rubinho, me lanço
desgovernado no meio do mato. Tremendo feito vara verde, fico moitando ali um tempão, na encolha. Roubadaça, hermano.
Só meia hora depois é que voltei à celebração. Estava exausto, desesperado de fome. Porém, em meu âmago, transformado. Afinal, minha primeira impressão à vista do sofrimento humano aqui era repleta de preconceito e babaquice. No grand finale, assistindo a todos zanzarem na felicidade mais absoluta após purgar pecados e promessas, com a sincronicidade reverberando por todo o ambiente sinto que me conecto aos fiéis por uma estreita faixa espiritual. A lua cheia, a caverna, o rio, a montanha e a multidão complementam meu quebra-cabeça... tudo faz sentido, agora. O que destoa desse quadro – e ainda me persegue em sonhos até hoje – é o gigante bigodudo na cola do meu esqueleto. Socooorrooo. O cara está na minha cola.
| Confira a íntegra da egotrip mística de Arthur “Espetinho” Veríssimo na Trip #149 |
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