Nessa contenda, Pavel quase foi à lona: teve seus bens paralisados por ordem judicial de 1993 a 1999 — e, um belo dia, para surpresa do cientista, um juiz emitiu uma ordem de custos de 1,8 milhão de libras, para cobrir os custos legais da Sony — que, aliás, fritou oito milhões de dólares para levar a melhor. “Nessa altura”, Pavel lembra, “eu não tinha outra atividade além de administrar, a contragosto, uma série de processos em vários países. Uma vez o Haroldo de Campos me disse que a complexa atividade da batalha contra uma grande multinacional tinha o fascínio estético de um jogo de xadrez... Apesar dos muitos reveses, não fiquei deprimido. Achava — e ainda acho — que o milagre de viver era 99% do show. Nunca considerei a Sony inimiga: era só uma grande máquina que funcionava com sua lógica própria”, conta Pavel, que, à época, massageava os ouvidos com Scarlatti, Boulez, Messiaen, Miles Davis e Jackson do Pandeiro.

Afinal, Pavel conseguiu fazer valer seus direitos. Recentemente firmou acordo com a multinacional — que lhe confere inclusive direitos pela produção de celulares, iPods e outros leitores digitais de MP3. Afinal, o stereobelt é o primeiro legítimo aparelho portátil da nova tecnologia. “Foi o primeiro protótipo de estereofonia pessoal e portanto móvel, o primeiro nome do que depois viria a se chamar walkman e hoje iPod”, embala a criança Pavel. “Por duas vezes, esse conceito mágico – transformar o cotidiano em ficção – alavancou de forma inesperada uma multinacional que já era famosa [Sony, depois Apple]”, conta. “O primeiro brinquedo eletrônico de bolso da humanidade, que todo mundo tinha, foi substituído por outro, o celular, em torno do qual outras funções agora se agregam, inclusive o leitor de estereofonia pessoal [personal stereo player]”, reflete ele, espantado com a evolução da estereofonia pessoal que diz ser uma característica da evolução geral/global: “Primeiro o conteúdo de um disco [na fita cassete], depois a minha discoteca inteira [no iPod], depois o acesso à discoteca universal [de tudo que é trocado e acessado na Internet: pelo celular]”, exemplifica.
“A tecnologia é por definição meio, não fim; portanto, o seu vício só pode estar no prazer infantil de apertar botões e ter um resultado imediato”
  Pavel e seu iPod Nano relaxa em meio à reforma de sua casa
  vivendo o sonho alucinado de macluhan
Sobre o acordo com a Sony, Pavel não revela detalhes. Nem está preocupado em ser reconhecido oficialmente como “inventor do walkman”. Morando em Milão, mas sempre flutuando por aqui, entre São Paulo e Rio, onde preside o Instituto Memória Musical Brasileira (www.jornalmusical.com.br), o filósofo-designer está orgulhoso por trabalhar diretamente na recuperação da obra de Altamiro Carrilho, “maior instrumentista vivo da MPB”, conforme aponta. “Ele é o último grande mestre da nossa tradição mais antiga — o choro — e um dos maiores flautistas de todos os tempos”, afirma Pavel, responsável pela produção e direção de um DVD duplo de seis horas em homenagem ao músico, que deve sair ainda este ano.

Como é sua relação atual com a tecnologia? “Entre impaciente e divertida, mas vivendo o sonho alucinado de McLuhan”, diz Pavel, que não se considera um viciado em tecnologia — “Ela é por definição meio, não fim; portanto, o vício com a tecnologia em si só pode estar no prazer infantil de apertar botões e ter um resultado imediato. Como dizia Skinner, ‘a gratificação reforça o comportamento no sentido de aumentar as instâncias do seu aparecimento’”, cita o professor, que, evidente, tem iPod, computador e celular. Acha que as pessoas usam pouco ou demais a tecnologia? “Os jovens demais, os velhos de menos.” Mas o que é usar demais? “É dar pouco espaço à beleza do céu, da natureza, das cidades, das pessoas, aos sons e imagens que chegam a nós a cada momento, sem nenhuma mediação — sem mídia, melhor dizendo.” Então, caro leitor, fica o convite: arranque já esses fones brancos dos ouvidos e vá já para a rua.

Assim caminha a humanidade. Ouvindo música. Pelo menos é assim desde que o alemão Andréas Pavel inventou o walkman. De lá para cá, muita coisa evoluiu nesse sentido, especialmente na equação quantidade de música/tamanho do aparelho. Mas a boa sensação de embalar o caminhar com boa música é eterna. O que muda é o processo e formato do som. A prova disso é a resposta destes consumidores vorazes de músicapara a pergunta – na verdade uma paródia a uma pergunta cada vez mais freqüente na era moderna: “O que ‘tem’ no seu walkman?”.

Daniel Ganjaman, músico, produtor e um dos cabeças do coletivo Instituto: “Walkman sempre foi uma obsessão na minha vida. Passei por todos os estágios, do ‘tijolão’ de fita cassete ao discman, e hoje não saio de casa sem meu iPod. Lembro-me que quando ia viajar, ou só mesmo sair de casa, o peso que tinha que carregar de fitas cassetes ou CDs era absurdo. Portanto considero o iPod uma invenção realmente revolucionária para viciados em música como eu. 
O fato é que a minha lista da época do cassete se mantém até hoje, salvo alguns lançamentos. Aqui vai uma geral, sem ordem de importância, com momentos que rolavam no cassete e que rolam no iPod”. 

Bad Brains – Bad Brains
Lee Perry and the Upsetters – The Super Ape
The Wailers – Catch a Fire
Reminder – Continuum
Michael Jackson – Thriller
Public Enemy – It Take a Nation of Millions to Hold us Back
Jorge Ben – Tábua de Esmeralda
Baden Powell e Vinícius – AfroSambas
Funkadelic – Maggot Brain
Stevie Wonder – Talking Book

Wander Wildner, cantor, compositor e ex-vocalista dos Replicantes: “Eu não uso iPod nem walkman. Usei walkman no passado porque não tinha dinheiro para comprar os discos, então copiava dos amigos. Agora que tenho dinheiro, comprei todos os discos que gravei na época, porém em vinil. Sim, eu escuto vinil. Abaixo segue a lista das dez mais (uma de cada vinil) que eu mais escuto hoje e que, por incrível que pareça, são as mesmas que copiava dos amigos e escutava no passado”.

Martinho da Vila – “Canta Canta Minha Gente”
Zé Ramalho – “Avôhai”
Rita Lee & Tutti Frutti – “Ovelha Negra”
Secos & Molhados – “Sangue Latino”
Ednardo – “Clareou”
Rick Wakeman – “The Journey”
Bob Dylan –“Like a Rolling Stone”
Novos Baianos – “Preta Pretinha”
Raul Seixas – “Tu És o MDC da minha Vida”
Sex Pistols – “God Save the Queen”

Maurício Takara, multiinstrumentista, produtor e baterista da banda Hurtmold: “Usei muito o walkman minha vida toda. É um aparelho que realmente teve grande participação na minha formação musical. Tinha aquela cultura muito forte de trocar e gravar fitas com os amigos pra ficar ouvindo na rua, no ônibus etc. Nunca cheguei a ter um discman e há pouco tempo peguei um MP3 player, mas ainda uso o walkman às vezes, especialmente para ouvir uns discos de vinil que passo pra fita cassete. As fitas que mais tocam no meu walkman são”:

John Coltrane – Live at the Birdland
Black Star – Mos Def and Talib Kweli
New York Art Quartet
Pharoah Sanders – Thembi
Belchior – 1974
Luiz Gonzaga – São João do Araripe
A Tribe Called Quest – Beats, Rhymes and Life
Krafwerk – The Men-Machine
The Wire – Chairs Missing
Gang of Four – Enterteinment

Parte Um, rapper e produtor musical: “Acho que, da última vez que ouvi meu walkman, estava ouvindo uma mixtape do Cutmaster Cee, ou alguma outra de blends do Ron Gee, coisa do meio dos anos 90. Tinha uma outra fitinha que eu escutava sempre com o primeiro disco do Del, I Wish My Brother George Was Here, de um lado, e o Type Thing, do Big Drill Car, do outro. Desde que peguei meu iPod tijolão, as coisas mudaram muito. Cada dia eu saio para a rua ouvindo um playlist novo, sem ter de carregar meus CDs e fitas por aí. Eu ripei grande parte da minha coleção nesses últimos três anos. Aqui vai o playlist de hoje”:

Nas – “Hip Hop Is Dead”, do álbum Hip Hop Is Dead
Jay-Z – “Kingdom Come”, do Kingdom Come
Tim Maia – “Rational Culture (Parteum Remix)”, do Tim Maia Racional Vol. 1 Remixado
Jorge Ben – “O Rei Chegou, Viva o Rei”, do Solta o Pavão
Lupe Fiasco – “Kick, Push”, do Food & Liquor
Death In Vegas – “Help Yourself”, do Scorpio Rising
J Dilla – “Won't Do”, do The Shining
Candeia – “Regresso”, do Filosofia do Samba
Dabrye & Wajeed – “Jorgy”, do Two/Three
Clipse – “Keys Open Doors”, do Hell Hath No Fury

Tatá Aeroplano, músico e vocalista, entre outras bandas, da Jumbo Eletro:
“Eu uso um gravador de fita cassete desde os idos de 96, não uso fone, sempre deixo o gravador colado na orelha esquerda... Uso ele para cima e para baixo, levo ele comigo até na hora de dormir para escutar as canções que ando compondo. Aliás, eu uso o gravador principalmente com essa finalidade, de escutar as paradas que crio, assim vou arrendando a canção e a letras nas minhas idas ao cinema. Também escuto fitas cassetes que ‘roubo’ na casa do meu pai, um aficionado por canções dos anos 60, que tem centenas de fitas gravadas de rádio... eu tenho algumas dezenas delas aqui em casa”.

Roberto Villar – “Profissional Papudinho”
T-Rex – “Dreamy Lady”
Bob Dylan – “If Not For You”
Jefferson Airplane – “It's No Secret”
Darkel – “At the End of Sky”
Cidadão Instigado – “Te Encontra Logo”
Pulp – “Commom People”
Fischerspooner – “The 15 Th”
Love – “Old Man”

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