Detalhes do stereobelt, verdadeira pochete sonora que deu origem a todos os aparelhos portáteis que vemos hoje por aí
Parem as máquinas. Andreas Pavel acaba de inventar o beijo rotativo, “um método para beijar uma pessoa nas bochechas e ao mesmo tempo ser beijado por ela na maior velocidade possível sem perder o contato”. É prudente não duvidar da utilidade dos inventos desse filósofo alemão de 61 anos, brasileiro por devoção. Mais de 30 anos atrás, ele também não foi levado muito a sério quando criou um brinquedinho que permitia ouvir, com alta qualidade, música num aparelho de som portátil, ligado a dois fones de ouvido. Sim, Pavel inventou o walkman. Ou melhor: o stereobelt, concebido numa madrugada de 1972, durante uma reunião de amigos em sua casa no bairro de Cidade Jardim, em São Paulo.

Hoje, depois de uma longa e penosa disputa judicial, o fã de João Gilberto e Stockhausen conseguiu impor um acordo à maior fabricante de produtos eletrônicos, a Sony, e cobrir os primeiros anos de venda do iPod em alguns países (ainda aguarda a próxima concessão de uma patente nos Estados Unidos, que cobrirá celulares dotados de MP3 – combinação que ele já antecipou na sua primeira patente, depositada em 1977). Colhendo os louros do sucesso, Pavel segue se comportando como um jovem estudante de filosofia da USP. Não pára de ter delírios criativos. “Acabei de registrar um pedido de patente que vai inovar a maneira de usar o celular”, dispara, ao receber a reportagem da Trip na velha casa da família em São Paulo. Sobre isso, ele faz mistério. Por enquanto, só revela os segredos do tal beijo rotativo – invento que fez questão de testar, sem a menor cerimônia, nas bochechas rosadas da sua namorada, a italiana Anna Sutor. Parece haver muito pouco de alemão em Andreas Pavel. Nascido em Berlim e criado em Hamburgo, chegou ao Brasil aos seis anos de idade, em 1951, depois que o pai, o economista Herbert Pavel, recebeu uma proposta para trabalhar nas empresas do grupo Matarazzo, na época o maior complexo industrial do país. “A viagem de navio para o Brasil durava duas semanas. Era mágico chegar ao mundo tropical após tanto tempo em mar aberto: receptivo, colorido e com aquela lentidão agradável que só o calor consegue produzir. Me impressionei com a beleza de São Paulo, o canto dos bem-te-vis e dos sabiás”, lembra. A família fixou residência no Jardim Europa, e, anos depois, em Cidade Jardim. Foi ali, numa casa idealizada pela mãe, Ninca Bordano, mulher de espírito liberal e apaixonada por artes e literatura, e projetada por Ronaldo Duschenes, da escola do arquiteto Vilanova Artigas, que Pavel concebeu a idéia do “brinquedo” que mudaria para sempre a forma de ouvir música.

A arrojada casa de dona Ninca aproveitava a acústica da construção – uma abóbada de concreto aparente onde se desenvolvia um avançado sistema de audição musical. Era freqüentada por amigos que Andreas Pavel cultivou nas aulas de filosofia e em sua passagem pela TV Cultura e Abril Cultural: Bolivar Lamounier, Drauzio Varella, Francisco Achcar, Antonio Medina Rodrigues, Thomas Farkas, Otaviano de Fiore, Fernando Pacheco Jordão, José Gaiarsa, Augusto de Campos, Boris Fausto e muitos outros.

O maior inventor é o acaso
“Eram tempos de ditadura militar e de contracultura. Ficávamos horas, madrugada adentro, conversando sobre filosofia, política, literatura, estética”, lembra o anfitrião. Os encontros, claro, eram regados por boa música. De Bach a Janis Joplin, de Hermeto Pascoal a Noel Rosa — até flautas dos templos japoneses e coros pigmeus eram ouvidos na abóbada de Cidade Jardim... Em meados de 1972, Pavel partiu com a namorada para uma viagem de um mês pela Europa. Ali deu-se o estalo da criação. “Cria-se, em todos os campos, por variação e seleção, mas o maior inventor de todos é sem dúvida o acaso. Não há esforço deliberado que possa substituir as maravilhas que o acaso pode produzir”, filosofa. O raciocínio do inventor foi simples: “Estava viciado em música. Não suportava a idéia de ficar 30 dias sem ouvir absolutamente nada. Não posso carregar uma vitrola comigo, mas posso levar um aparelho de fita cassete. Mas como ouvir?”.

Até então, os fones de ouvido eram usados só para controlar a qualidade de uma gravação ou para ouvir música em casa, individualmente. Ninguém havia pensado no óbvio, nem mesmo os engenheiros da Sony, da Philips, da Panasonic, as gigantes do ramo eletrônico: plugar os fones de ouvido num aparelho de bolso dotado de saída estereofônica e, com isso, transportar a música para onde quisesse, “adicionar”, segundo o inventor, “trilha sonora à vida real”. Pavel resolveu colocar em prática a idéia. Depois de rodar a Europa e testar vários tipos de fones, conseguiu montar o primeiro protótipo que acabaria sendo registrado como “pequeno equipamento de fixação corpórea para reprodução de eventos auditivos em alta qualidade”, ou simplesmente — já que era para ser usado na cintura — “stereobelt”. Pavel testou pela primeira vez sua invenção em fevereiro de 1972, ao lado da sua namorada, nos bosques suíços de Saint Moritz. O efeito surpresa, ele conta, foi “acachapante”.
“Começamos a ouvir ‘Push Push’ [uma parceria do flautista de jazz Herbie Mann com o guitarrista de rock Duane Allman] e ficamos imersos num teatro invisível aos outros. Eu não esperava que uma caixinha tão pequena pudesse colocar você num teatro com orquestra sinfônica. É a vida transformada em cinema”, poetiza Pavel, que a partir daí passou a usar seu novo brinquedo: “Demorei anos para sacar que aquilo era uma invenção preciosa”, conta. “Viajava sempre com o aparelho; os amigos achavam genial, mas nunca passou pela cabeça que o stereobelt fosse invenção minha. Parecia tão simples —¤ todo técnico de áudio poderia bolar —, que tinha certeza de que a qualquer hora algum fabricante iria lançar”, lembra.

O tempo passou e nada. A indústria continuou despejando no mercado milhares de aparelhos de fita cassete todos os anos, um mais moderno que o outro, mas nenhum próximo do invento de Andreas Pavel, que decidiu colocar a mão na massa. Ainda antes de registrar a patente, o filósofo-inventor procurou representantes da Sony e da Philips numa feira de som. Sem revelar a idéia, Pavel sugeriu o efeito da invenção aos engenheiros. “Lia um texto que descrevia a sensação: ‘imagine você andando na rua, sem peso, sem bagagem, num belo dia de céu azul. De repente, aperta um botão e começa a ouvir violinos, pianos, um grupo de jazz, uma orquestra’”, recorda. O inventor só teve a certeza de que a indústria penaria para descobrir o que a ele parecia óbvio quando o representante da Sony, espantado, perguntou: “Mas como o senhor faz? Carrega alto-falantes nos ombros?”.

“Curioso é que, há anos, a própria Sony detinha a tecnologia para produzir o walkman. Era só converter o convencional gravador monofônico de voz num leitor estereofônico de música com amplificador de fones. Mas eles não sacaram: na Sony o cara é contratado para projetar gravadores e faz isso a vida toda. Outro é contratado para desenvolver fones. Eram departamentos separados. Faltava alguém para subverter as regras — que é o princípio criativo”, reflete Pavel.

No dia 5 de outubro de 1978, o pedido de patente de Pavel foi publicado. Em menos de duas semanas, surgia nos laboratórios da Sony o primeiro protótipo do aparelho, lançado no Japão em julho de 1979. “Estava em Milão quando encontrei meu amigo Antônio Peticov [artista plástico], que havia acabado de voltar de Tóquio. Ele me alertou: “Vi uns japoneses andando pela rua com fones de ouvido...”. Meses depois, no dia 1º de abril de 1980, saiu um anúncio na Playboy americana, de página inteira, mostrando um par de jovens voando pelo céu, com fones de ouvido. “Adotaram até minha metáfora!”, indigna-se. Assim iniciava uma longa batalha judicial entre o inventor da estereofonia de bolso e a gigante da indústria eletrônica. Akio Morita, gênio do marketing e presidente da Sony, levou fama de criador do walkman – e deitou numa cama recheada de verdinhas. Pavel teve de arranjar milhões de dólares para pagar advogados: “Fiz empréstimos e financiamentos com bancos, amigos, familiares, peguei resto de herança, abri dívidas... Estimo os custos da batalha em 3,5 milhões de dólares”, contabiliza.

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