Devotos vendem tudo
Piacentini voltou à Índia outras duas vezes até que, em 1981, Osho foi levado aos EUA com problemas de saúde — precisamente, dores na coluna. Há quem diga que não havia doença alguma: a farsa era uma maneira legal de montar um ashram — ainda mais luxuoso e funcional que o indiano — na América. Rajneesh e seus discípulos se instalaram em um terreno no deserto do Oregon. Em três anos, foi criada ali uma “cidade” de nome Rajneeshpuram. O lugar, até então árido, virou um oásis auto-suficiente habitado por 5 mil pessoas: dispunha de dois hotéis, aeroporto, universidade, escolas, centros médicos e tecnológicos. A instalação dessa comuna em terra americana, somado ao discurso libertário e revolucionário do Osho, desagradou ao governo americano — que passou a dar batidas policiais e a perseguir pessoas vestidas de roxo pelas cidades do país. Em meados de 1982, Mario Piacentini recebeu um convite para comparecer a um “congresso para redefinir o movimento rajneesh” nos EUA. Acompanhado por 50 devotos, tomou um avião. Ao chegar, não acreditou no que viu. “Quinze mil pessoas alojadas em barracas brancas e plastificadas... Na hora vi que era diferente do que acontecia na Índia”, descreve.
Na época, Osho estava em voto de silêncio: aparecia uma vez por dia sentado num trono enquanto à sua volta pessoas dançavam. Era conduzido em um Rolls Royce sobre o qual um avião jogava rosas vermelhas. “Ele perdeu a mão. Um grupo americano começou a tomar conta das coisas dele”, conta Piacentini, referindo-se ao Osho International Foundation, até hoje administradora do ashram em Puna e dos direitos autorais do guru. No festival, Piacentini foi comunicado que iria se encontrar com o guru. A casa de Osho ficava num lugar magnífico: ao redor de seu aposento, 14 pavões brancos serviam de decoração viva. Depois de algum tempo, Osho entrou, dizendo que responderia apenas a uma pergunta. “Quis saber sobre uma história de que as pessoas venderiam tudo o que tinham para dar o dinheiro para eles construírem uma cidade subterrânea”, conta o brasileiro. O mundo, segundo Osho, iria acabar. “Ele estava drogado. Seus olhos não paravam. Não era mais o mesmo Bhagwan Rajneesh que eu conhecia: não havia mais vida no olhar”, lembra o diretor. Assim Osho descreveu o Apocalipse, segundo Piacentini: “Começaria em 1992, acabaria em 1997 e a gente deveria vender tudo e doar a grana para eles. Na hora, falei: ‘Tchau, tô fora’.” Concluindo que o tal congresso era armação, Piacentini voltou ao Brasil e mudou o nome de sua comunidade. Enfurecido com o comportamento libertário dos jovens e
incomodado com a comunidade que o indiano instalou nos EUA, o governo decretou seu fim em 1984. A gota d’água foi o primeiro atentado bioterrorista da história norte-americana: para influir nas eleições locais, os rajneesh borrifaram água infectada com a bactéria salmonela na comida de restaurantes de um pequeno condado no Oregon — 700 pessoas ficaram doentes e não puderam votar. Tendo respondido por 35 acusações diferentes, acusado de sonegar impostos e de incentivar a imigração ilegal, Osho foi afinal preso e expulso do país. Extraditado, passou um mês pulando de aeroporto em aeroporto, em um de seus aviões particulares, sem ser aceito em país algum. “Os Estados Unidos o transformaram num bin Laden”, lembra Setu, devoto até hoje. “Ameaçaram cortar relações com qualquer país que o recebesse”, diz.
Expulso de 21 nações, entre elas Grécia, Espanha, Alemanha, Irlanda e Uruguai, o indiano acabou aceito por seu país natal. Tentou retomar a antiga rotina de seu ashram, mas tudo já funcionava de acordo com a administração da Osho International Foundation. Em 1990, chegou ao fim sua passagem por esse planeta graças a um ataque cardíaco. Muitos de seus discípulos defendem a teoria de que a morte de Osho teria sido conseqüência de um envenenamento por tálio radioativo, provocado durante os dias em que ficou preso nos Estados Unidos, em 1985.
Irreverente, o pensamento de Osho circula até hoje. Como fez questão de grifar em seu epitáfio, não passou batido por esse planeta. Relatos de discípulos que estavam com ele na hora do suspiro final dizem que estava feliz por se libertar das amarras do corpo. Antes de ir, falou, mais uma vez, que, além da morte, só havia uma maneira de se libertar: meditando. “A meditação serve para levá-lo de volta à sua infância... quando você não era respeitável, quando podia fazer coisas malucas, quando era inocente, quando não era corrompido pela sociedade; quando não tinha aprendido os truques do mundo, quando pertencia a outro mundo, quando não era mundano. Serve para que volte a esse ponto e comece outra vez.” Por essas, outras e mais algumas é que Osho tenha sido talvez o homem mais perigoso desde Jesus Cristo. Existe algo mais ameaçador do que pessoas livres?
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