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“Osho é o homem mais perigoso desde Jesus Cristo.” Assim o escritor e jornalista Tom Robbins (Até as Vaqueiras Ficam Tristes) definiu um dos gurus mais controversos do século 20, o indiano Osho Rajneesh, morto em 1990 aos 59 anos. “Ele disse coisas que ninguém mais teve coragem. Teve todos os tipos de idéias que, por terem ressonância de verdade, assustavam os monstros do controle”, afirmava Robbins. Idolatrado nos anos 1960 e 1970 e adorado por milhões até hoje, Osho foi um dos líderes espirituais dos tempos modernos que mais falou sobre liberdade. Justamente por isso, foi transformado, em meados dos 1980, em inimigo no 1 dos Estados Unidos. Ensinava que a liberdade psicológica só seria possível quando não se ensinar mais às crianças nenhum tipo de credo e der a elas todo o incentivo para que busquem suas próprias verdades.
Se você tem mais de 40 anos, é provável que tenha conhecido algum sannyasin — como eram chamados os discípulos de Bhagwan Shree Rajneesh, seu nome antes de batizar-se Osho (“Oceano”), em 1986. Nos anos 1970, auge do movimento rajneesh, eles estavam em todas as partes do planeta. No Brasil, o movimento começou depois que o diretor de teatro Mario Piacentini, 62, fundou o primeiro centro de Osho, em 1976, no bairro paulistano do Brooklin. Nosso repórter Arthur Veríssimo era freqüentador.
Barbudo, olhos negros e profundos, Osho ficou famoso por proferir palestras diariamente — primeiro em seu centro em Puna, sul da Índia, depois na cidade que construiu no deserto do Oregon, nos EUA — nas quais contrariava os estereótipos de um guru ou homem santo. Falava de liberdade, sexo e dinheiro de modo tão despojado que incomodava os adeptos das tradicionais filosofias hindus e de toda e qualquer ortodoxia religiosa. Andava de Rolls Royce (chegou a ter 93 modelos) e vivia cercado de mulheres das mais variadas etnias. Automóveis à parte, fato é que Osho olhava o mundo por um ângulo bem diferente da maioria dos seres comuns. Defendia a idéia de que ninguém seria livre se tivesse qualquer tipo de repressão sexual. “O sexo é o instinto mais poderoso no ser humano. Os políticos e os sacerdotes entenderam isso desde o princípio. Ao permitir total liberdade no sexo, não haverá possibilidade de dominação.”
Devido a pensamentos como esse, até hoje, 16 anos depois de sua morte, tem milhares de seguidores. No Brasil há mais de 30 centros com seu nome. Nos EUA, país que o perseguiu e o expulsou nos anos 1980, outros 50. Seus livros ocupam lugar de destaque no Parlamento indiano, ao lado dos de Mahatma Gandhi. Para ele, o ser humano só vislumbraria a liberdade mergulhando no mais profundo silêncio, só possível pela meditação. “Meditar é voltar para casa e descansar um pouco lá dentro. Não é o canto de um mantra, nem mesmo uma prece; é simplesmente voltar para casa e descansar um pouco”, ensinava. Osho criou terapias e “meditações ativas”, em que os adeptos gritam, pulam, dançam: hiperventilar o cérebro, extravasar toda a raiva para, assim, esvaziar a mente. O Osho Meditation Resort, em Puna, atrai milhares de pessoas [leia box], dispostas a pagar caro para assistir a palestras do guru em vídeo, meditar sobre sua sepultura ou até trabalhar em tarefas bem humildes. Na tumba do guru está escrito, a seu pedido: “Osho — nunca nasceu, nunca morreu. Apenas visitou este planeta Terra entre 11 de dezembro de 1931 e 19 de janeiro de 1990”.
No entanto, Osho nasceu, sim, em uma aldeiazinha chamada Kuchwada, no estado indiano de Madhya Pradesh, numa família bastante pobre. Foi criado pelos avós até os sete anos e, na época, já desafiava o guru de seu avô com perguntas que assustavam a família. Em sua Autobiografia de um Místico Espiritualmente Incorreto (Cultrix), conta que passou sete anos em silêncio. “Ninguém tentou corromper minha inocência (...). Meus avós estavam mais interessados em me deixar o mais natural possível, em especial minha avó, daí meu profundo respeito pelo sexo feminino.” Desde cedo o guru rejeitou a vida convencional — trabalho, casamento, família. Aos 18, declarou aos pais que um emprego das nove às seis não o seduzia: “Serei um vagabundo por toda vida. Mas um vagabundo instruído”, lançou. E decidiu estudar filosofia. Leu tudo o que encontrou: dos Sutras sagrados a Reich e Jung. Graduou-se na Universidade de Sagar, lecionou por cinco anos na Universidade de Jabalpur e saiu pelo país dando palestras, ficando célebre por desafiar líderes religiosos em debates públicos.
Em fins dos 1960, Osho desenvolveu técnicas de “meditação ativa”. Com a hiperventilação causada pela alteração da respiração ou movimentos como a dança, as pessoas chegavam a estados alterados de consciência. Também inventou terapias baseadas tanto em estudos ingleses e norte-americanos como em tradicionais técnicas hindus, o que atraía os ocidentais — entre seus discípulos, indianos foram sempre minoria. Promoveu campos de meditação em toda a Índia, até que em 1974 estabeleceu, em Puna, um centro terapêutico. “Pessoas de todo o mundo falavam do tal do Rajneesh”, conta Sergio Jacowitz, o paulistano de 52 anos que desde a década de 70 trabalha como terapeuta usando as técnicas de Osho — ele foi até Puna ver de perto meditações inventadas pelo guru. |