Aluna da oficina de design, Caterina chegou ao Mamori com a tarefa dada pelo professor espanhol Curro Claret de criar um “souvenir inteligente” – isto é, uma lembrança menos estereotipada do que a maioria que se costuma encontrar no mercado. Pela manhã, ela teve aulas teóricas, escutou sobre a história do artesanato, viu filmes que tinham uma linguagem lúdica... e temperou as atividades intelectuais com ba-nhos de rio e partidas de futebol na comunidade de Terras Altas. Ao final de cada um dos sete dias, o grupo de alunos se reúne para trocar percepções e discutir como as impressões da mata poderiam repercutir em seus produtos. Depois de conviver com uma família por três dias, Caterina apresentou sua bola feita de palha de açaí. “Este é um lugar em que a criatividade flui: a falta de interferência faz com que você entre em comunicação com o entorno”, analisa Caterina.
Milene Nelson criou um chapéu multissensorial inspirado na artista plástica Lygia Clark. A peça de alumínio tem espelhos retrovisores para dar visão total a seu usuário e conchas acústicas para ampliar os barulhos da mata. A estilista Stephanie Lipovacci desenhou uma calça jeans com providenciais botas acopladas numa estampa de cobra. A artista plástica colombiana Laura Ardilla criou comprimidos de Malarex, supostamente para curar a malária. Parecem apenas produtos engraçadinhos? Mas a turma do Mamori quer se envolver cada vez mais na vida da comunidade local. Já visitou a escola da região e deixou lá um abrigo feito por um revestimento natural. Em setembro último, os participantes do workshop de cinema organizaram sessões de filmes para a comunidade de Terras Altas, nas margens do lago, com imagens projetadas de um barco.

Comprou lote pela web
O Mamori Art Lab foi criado “meio que por acaso”. Ao menos, é assim que gostam de contar dois de seus criadores – Martí e o fotógrafo Asier Gogortza, também espanhol. Um amigo deles, Marco Ruiz, procurava na Internet uma garagem e acabou navegando por um site que oferecia terrenos na Amazônia. Entusiasmado, comprou um lote. Sem saber se o terreno de fato existia, embarcou com os amigos Asier, Nacho e Jorge Llorella para o Admirável Novo Mundo. Chegaram a Manaus, tomaram um barco rápido até a outra margem do rio Negro, viajaram 40 quilômetros numa Kombi e pegaram uma canoa até as margens do Mamori, onde ficava o lote. O terreno não só existia como rendeu idéias aos quatro amigos – que voltaram para casa com o projeto de criar uma escola. 
Um ano depois, o elétrico trio organizou o primeiro workshop com alunos europeus. “Nossa maior dificuldade foi combater os mitos da Amazônia: as piranhas e as anacondas”, ironiza Nacho, professor de design da Elisava, escola superior de desenho de Barcelona, sobre os temores de seus alunos em deixar a Catalunha em direção ao trópico. Nacho e seus colegas, criadores do Mamori, foram chamados de “esnobes” por alguns compatriotas. Estes perguntavam se era preciso ir até a Amazônia para criar. “Não dá para ir aos Pireneus, que é mais perto?”, alfinetaram. Porém, a iniciativa deu certo – e o programa foi até mesmo chancelado pelo governo da Catalunha, seu patrocinador. “A experiência criativa no Amazonas é muito diferente da que os participantes poderiam ter em suas cidades de origem: na mata, os diferentes estímulos ainda não estão decodificados. Isso permite um olhar mais livre... menos comprometido com o entorno”, reflete Nacho. E ele nem falou da paisagem.

Mamori Art Lab 
Chegar ao lago Mamori não é fácil. Está a cinco horas de Manaus numa gaiola (barco típico da região). Os organizadores do Mamori Art Lab optaram por um caminho mais curto: viajam com os estudantes de avião a Manaus e de lá pegam uma voadora, uma Kombi e uma canoa motorizada para chegar até a sede da escola – o que leva umas três horas. O custo dos workshops nas áreas de fotografia, arquitetura, som e design é de 650 euros para estudantes. Aí se incluem hospedagem e refeições durante os 10 dias dos cursos. A passagem aérea a Manaus fica por conta dos alunos. As oficinas acontecem em julho, agosto e setembro; inscrições podem ser feitas pelo site www.malab.net.