Seu Zeca já se acostumou com o barulho do gerador de luz que vem da casa ao lado, conhecida pela comunidade do Lago Mamori como “o albergue do espanhol”, situado num fim de mundo a oito horas de Manaus. O povo da casa passa noites inteiras com o gerador ligado – hábito sofisticado numa área humilde, onde as famílias vivem da venda do peixe e do cultivo da mandioca. “Eles são gente boa. Ficam acordados, trabalhando”, aponta Seu Zeca, que costuma ir para a cama quando o gerador da pousada na qual trabalha avisa que são dez da noite.

O “albergue do espanhol” reúne gente de passaportes tão diversos quanto o filme de quase mesmo nome, O Albergue Espanhol, de Cédric Klapisch, que retrata jovens de várias nacionalidades descobrindo as alegrias e imbróglios da convivência sob o mesmo teto. No entanto, a pequena casa de madeira em meio à floresta amazônica não é um hotel juvenil. É a sede do Mamori Art Lab, uma espécie de tribo da criatividade no meio da selva. Ali, há dois verões (europeus), estudantes e profissionais da música, design, fotografia, arquitetura e cinema do mundo todo criam projetos inspirados pela exuberância do verde e pela placidez do lago – curiosamente descrito pelo caboclo amazonense como “um rio cercado de terra por todos os lados”. É para ouvir comentários como esse, “de raiz”, que o Mamori Art Lab foi criado. “Aqui, os alunos enriquecem seu campo de experiências, desintoxicam e renovam seu olhar”, explica o designer espanhol Nacho Martí, um dos criadores da escola.

Souvenir inteligente
Na casinha verde com teto de palha que se mimetiza com a mata, grupos de sete a 12 alunos dormem, comem e produzem composições com sons da selva, objetos com design inspirados na arquitetura da natureza e projetam abrigos e casas com materiais locais. Entre as décadas de 1960 e 1980, universitários brasileiros participaram do Projeto Rondon – plano criado pelo governo militar que levou centenas de voluntários a regiões carentes do país durante as férias. O Mamori Art Lab lembra essa jornada ao interior da Amazônia – mas é paga em euros (cerca de 650) e tem o objetivo de gerar produtos culturais. Sinal dos tempos. A iniciativa mais parece a Fabrica, escola criada pela Benetton no norte da Itália para estimular a criatividade de seus participantes. Ao contrário da experiência italiana, no entanto, o Mamori Art Lab não restringe a participação a estudantes de até 25 anos – algo fundamental, em se tratando de liberdade de criação. Entre os 36 participantes dos workshops estão desde jovens em curso universitário até um sessentão com vasta experiência na construção de telhados com a palha da área. E quem é a tribo de branquelos que trabalha durante a noite nos computadores da Apple e durante o dia coleta impressões e inspirações na selva? Uma delas é a designer Caterina Hering, que estuda na filial paulistana do IED (Istituto Europeo di Design). » continua