Lívia recebe o repórter com um sorriso enorme e um tanto tenso. Em seu amplo apartamento, em Higienópolis, apresenta-o à babá, dama de companhia e mucama, Mary – que permanece na sala durante a conversa –, e já acendendo um Marlboro enrola-se num mantô rosa. Tiritando, reclama do frio paulistano. “Parece que nunca me acostumo com isso”, suspira a moça de 22 anos, habitando a Paulicéia há cinco. Ainda trêmula, conta que, no primeiro perfil que publicaram dela em certa revista, usaram uma citação sua com escândalo: “Perdi minha virgindade aos 17 anos”. O pai fechou o tempo? “Sim... mas gostou das fotos”, sorri, marota. E agora? Não teme que os adversários da família usem politicamente seu ensaio? “Usar como? Tudo bem que tem gente que veja maldade em tudo, mas... o que pode ter de mais?” Beleza demais pode incomodar. Não é o que incomoda Lívia, que segue nervosa, e pede: “Você vai deixar eu ler a entrevista antes de sair, não é?”. Como se fosse fazer revelações que derrubassem a República... Excesso de zelo de uma garota que, desde o berço em Sobral (CE), não sabe exatamente a distinção entre vida pública e privada – e por isso olha com cuidado onde pisa.
“Ai... já me preparei toda pra responder coisas do tipo ‘como você é entre quatro paredes’, et cetera...” E como você é? “Oxe menino, não conto não!”, ri. Logo se vê que o programa de governo da beldade de olhos índios foi bem planejado. Ela fala o que quer, e como quer: sabe o que é ser desde o berçário vigiada por parentes, colegas, amigos, vizinhos e correligionários.
Tirar a roupa pode ser um ato político? “Claro que não! Sempre gostei de fotografar, até brinquei de modelo, dos 12 aos 20 anos. Mas não sou vaidosa, não deixo as unhas crescerem... olha minha sobrancelha de ogro! É que ser fotografada pelo Duran é o sonho de toda mulher”, justifica-se a esguia morena de 1,67 metro, pouco afeita a esporte ou academia – “gosto é de brigar, já treinei boxe e caratê”. E vestir-se tem a ver com política? “Aí, sim”, afirma a estudante de moda na faculdade Santa Marcelina, que vive ganhando livros de moda da madrasta, Patrícia Pillar – com quem, “apesar do que dizem”, tem ótimas relações. O sonho de Lívia é criar a própria grife, LSG, que planeja lançar em 2007 – em desfile com música do também cearense Cidadão Instigado, “O pobre dos dentes de ouro”. Ela não se pretende estilista, porém. “Nunca pensei em entrar para a política porque a moda vai ser o meu jeito de mudar o mundo. No Brasil, não temos nem mesmo um bureau de estilo – um livro com as tendências ditadas pelo nosso povo. Tudo vem da Europa! Deveríamos criar algo para nós mesmos. Quero fazer isso: modelagens da gente, tecido da gente, com a cara da gente”, teoriza Lívia, admiradora do national chic de Ronaldo Fraga e Lino Villaventura.
QUERIDO POVO
“Prefiro mais ir à bagunça da multidão num comício do que ir a um show. Sabe o que é? Às vezes você está na balada, chega um dizendo que tem um Audi, um Jeep, me convida pra ir à mesa dele tomar um champagne... olha, pra mim, carro é tudo Gol ou Corolla! Me canso disso, vou ali na cozinha, dar minhas risadas. Nem gosto de champagne: beber, só vodca com Red Bull”, conta. Nunca passou disso? “Quando organizava raves no Ceará quis estudar todo tipo de coisa pra ver como funciona no cérebro. Mas não passei da teoria!”, jura Lívia, que é contra a legalização das drogas e crê que mesmo para a descriminalização das mais leves “o Brasil não está preparado”.
Ela se irrita quando o assunto é a típica subserviência brasuca para com o poder. “Olha, não é demagogia, mas às vezes estou num bar e quando vejo que falam de mim, sinto olhares, comentários, não fico à vontade, prefiro ir na cozinha, falar com o chef, o garçom, o porteiro... as massas são muito mais interessantes!”, afirma a ex-presidente da Juventude Popular Socialista cearense, hoje não filiada a partido algum.
Na eleição passada, votou em Lula. Decepcionou-se? “Sim, não foi limpa toda a sujeira. Acho que Lula não fez tudo o que devia, fez o que pôde. Mas... para falar a verdade, essas histórias de caixa 2 eu cansei de ver... Sempre foi assim!”, resigna-se.
Quanto a seus votos na área sentimental, Lívia não esconde: está apaixonada. O eleito, Rafael Francisco, estudante de direito em Fortaleza que conquistou seu sufrágio há dois meses. Antes dele, a escorpiana com ascendente em Escorpião teve namoros longos, interrompidos várias vezes, e um breve período de experiências... porém, não, não adianta: durona pero sin perder la ternura jamás, mais ela não mostra.
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Agradecimento Rafic Farah |