Esse desejo de voltar tem a ver com o fato de você não querer deixar o circuito “por baixo” (Guga estava em 568º no ranking até o fechamento desta edição)? Acho que estou preparado, sim [para deixar as quadras]. Sempre fui um cara ponderado porque sabia que cada coisa tinha seu momento. Não imaginava que iria passar por essas cirurgias, tudo isso, mas sabia que ia ter momentos mais difíceis, outros melhores, tal. Sei bem o que acabei conquistando, o que representou essa oportunidade para o Brasil. Mas a gente acabou também desperdiçando uma das maiores oportunidades que surgiram nos últimos 20, 30 anos, de ter realmente uma evolução maior para o tênis e fazer com que essa pequena ajuda se tornasse uma coisa mais abrangente.

Por quê? Pô, é frustrante você ver que o tênis [brasileiro] em si não evoluiu, sabe? Se eu parar de jogar amanhã o esporte vai estar mais ou menos na mesma situação, sem mudanças, sem projetos. Foi um oba-oba ali do momento. De repente, daqui a cinco anos vai para o esquecimento. Acho que a principal culpa é do próprio atleta, que acaba parando no meio.

Falta dedicação aos atletas brasileiros? Eu acho que a forma de se tornar, aqui no Brasil, um jogador competitivo seria a partir de três pilares: muita vontade do cara, uma pessoa que saiba orientá-lo – que por mais que ele tenha vontade vai dar os deslizes, vai querer escapar porque tem a hora dos 18, 19 anos, que tu olha para o lado e está saindo todo dia, daí a vaca vai para o brejo. E precisa de uma quadra. O tênis que, entre aspas, é um esporte de elite, precisa de seis bolinhas e uma quadra com uma rede ali, decente, para tu poder jogar. O próprio Nadal, por que ele está aí? Porque ele quis muito mais que qualquer outro. Soma toda a vontade do circuito não dá a vontade que tem o Nadal, eu acho. O brasileiro, em poucas palavras, se acomoda. Eu ia lá de manhã, acordava sete e meia, tomava café, ia para a quadra e “pum, pum, pum...”. Sabia o que eu queria.

Vamos supor que você volte 100%, esteja jogando bem e, mesmo assim, não chegue entre os 50 do ranking. Você desistiria? Eu acho que isso não ia acontecer [gargalhadas]. Se meus golpes estivessem entrando, não teria nenhuma chance. Não estarei num torneio se não estiver bem. Se daqui a um ano eu estiver nessa mesma situação e você vier me entrevistar e eu ainda estiver fazendo fisioterapia, eu não vou mais fazer fisioterapia, vou estar lá em Floripa fazendo outras coisas. Acho que agüentaria pelo menos mais uns bons nove meses.

» veja a galeria de fotos

TRIP + A íntegra da longa entrevista com Guga, falando de assuntos como o ex-técnico Larri Passos, a morte do pai, drogas no circuito profissional, entre outros, você encontra na versão impressa da Trip, nas bancas.
Colaboraram Camila Leite e Filipe Marcel Assistente de Foto Andreas Schoyerer Estilo Babi Khadur Agradecimento Lenat (11) 3082-5062


 

  // comente