O rei do saibro tem levado uma vida de peão. Acorda cedo, toma café e se manda para uma extenuante sessão de fisioterapia. Almoça, mais fisioterapia, e um pouco de preparação física. Entre uma atividade e outra, entra em quadra e bate bola o quanto dá: às vezes, 1h15min “direto”; às vezes, dois períodos de 45 minutos. Muito longe ainda do tempo mínimo de duas horas estipulado pelo próprio soberano. Muito longe também dos bons tempos.

Sim, houve bons tempos: três títulos em Roland Garros; um na Masters Cup, a “Copa do Mundo” do tênis; e cinco dos prestigiados Masters Series. São 20 títulos de simples ao todo, sendo que 14 deles ganhos no saibro, a terra batida e vermelha que lhe rendeu a coroa.

Mas o rei também já foi peão. Começou a jogar tênis aos seis anos. Perdeu o pai aos oito. Aos 13, passou a treinar com aquele que além de técnico se transformaria em seu tutor: Larri Passos. Estreou profissionalmente no esporte aos 18, em 1995. E dois anos depois seria campeão pela primeira vez do Grand Slam francês. Mais adiante, em 2000, se tornaria o número um do ranking mundial, posto que só deixou após 43 semanas de reinado absoluto.

O cetro começou a bambear em fevereiro de 2002, época da primeira cirurgia no quadril direito – resultado do impacto do jogo rápido e potente dos tempos modernos. Em setembro de 2004, nova cirurgia, e o quadril nunca mais seria o mesmo. Nem o cetro. Nem a coroa. Nem o técnico-tutor.

Gustavo Kuerten tem agora 30 anos (nasceu em 10 de setembro de 1976), idade em que os jogadores profissionais geralmente se aposentam. E assim como o cavaleiro medieval de O Sétimo Selo, clássico filme de Ingmar Bergman, joga xadrez contra a morte. No caso dele, não contra a morte física, é claro, mas contra o fim nas quadras – mesmo sabendo que quem já foi rei nunca perde a majestade.


» próxima foto

 

  // comente