Quais
os seus defeitos? É meio hipócrita falar de defeitos, né, porque a gente no fundo se perdoa. Mas eu sou muito ansioso, eu acho que eu poderia ser menos. Joguei muita coisa fora por ansiedade. Eu fui muito mais egoísta do que eu pensava. Eu tive uma história de vida que me isolou muito dos outros, às vezes. Desprezei mais gente do que eu deveria ter feito. Eu joguei fora experiências muito bonitas. Eu amei mulheres maravilhosas que eu poderia ter amado melhor, ou comido melhor, ou curtido melhor. Eu fui muitas vezes quantitativo e não qualitativo. Mas nunca fiz mal a ninguém, no sentido de prejudicar deliberadamente.

Você tem inimigos? Ah, sim. Tem muita gente não que me odeia, mas que tem inveja de mim. Com esse contato que tive com a população, com meus trabalhos em TV e jornal, vi que a cabeça das pessoas é muito variada. Esse negócio de achar que tem três ou quatro tipos não vale nada. Tem cada loucura sofisticada pra cacete por aí! Tem cada maneira de ser doido extraordinária. Uma coisa que me impressiona muito é que 90 e tantos por cento das pessoas são egoístas, mesquinhas, incapazes de ver fora de si mesmas, do seu interesse pessoal. A psicopatia generalizada é a doença do século 21.

Você costuma dizer que aprendeu a ser ateu com o seu pai, não... Na verdade aprendi a ser ateu com os jesuítas. Eles me traumatizaram tanto que falei “não é possível que essa gente tenha razão”. Nunca acreditei em Deus.

Você nunca sentiu falta de espiritualidade? Acho que a espiritualidade está muito mais dentro de nós do que no céu. Acho muito mais misterioso o universo sem Deus do que com Deus.

E você nunca se relacionou com nenhum tipo de religião? Não. Minha única religião é a psicanálise. Meu Deus é Freud. Se eu fosse religioso talvez seria budista, no máximo. O resto é uma tragédia. O Cristianismo é um horror. E o Islamismo é um perigo. Exclui toda a possibilidade do outro de ter razão.

Você já teve depressão? Orra! [Risos] Se eu tive? Mais fácil te dizer quando eu não tive depressão. A depressão é uma constante. A gente luta contra ela dia a dia. Tem um amigo meu que diz que a depressão é melhor do que a ansiedade, porque na depressão você fica deitado e descansa...

Mas você se considera feliz? Sou, sou feliz. É importante deprimir, senão você vira um idiota. Mas eu sou um homem feliz, sou um privilegiado, pô. Estou com saúde, tenho três filhos do caralho, consegui fazer vários trabalhos direito, tenho um reconhecimento das pessoas no meu trabalho que me faz muito bem. Então tenho que agradecer mesmo ao universo.

Você teme a velhice? Claro. É horrível ficar mais velho. Fazer 60 anos é uma merda.

Você pensa bastante nisso assim, não? Não é que eu pense, mas tem que levar em conta, né, porque, na sua idade, ninguém acha que vai morrer, mesmo sabendo que vai. Depois de certa idade você fala “opa, peraí...”. E começa a perder pais, tios. Mulheres que eu namorei morreram. Amigos meus morreram. Morrer é uma merda. Mas o que pode se fazer, né?

   
 
 
 
 

Nas páginas impressas da Trip # 147, Arnaldo Jabor fala de Lula X Fernando Henrique Cardoso, Viagra, vícios, pais, filhos, infância, amigos, relacionamentos modernos, Orkut, Bin Laden e sexo