Você alguma vez foi censurado, ou em colunas ou em televisão? Não, nunca. É óbvio que não sou maluco. Em certos temas, certas situações muitos delicadas, eu mostro pro editor por uma questão de bom senso. Até agora eu tive só duas ou três vezes algumas aporrinhações, alguns processos, incluindo vários processos contra mim. Só do Garotinho tem dois processos. Eu tenho orgulho de ser processado por esses populistas de vigésima. Não, a única vez que tive problema foi quando esculhambei um bispo reacionário que excomungou um juiz que tinha dado autorização pra uma mulher fazer um aborto porque estava com um filho descerebrado no ventre. O Sarney reclamou algumas vezes também porque ele era repetidor da Globo e o esculhambava. Mas a Globo me dá plena liberdade.
Quando você vê seus filmes antigos você gosta ou se envergonha? Gosto de quase todos, muito. De dois deles gosto menos. Pindorama, que realmente é um filme muito ruim, que eu não tinha capacidade de fazer. Foi meu primeiro filme de ficção. Eu tinha 27 anos de idade, não tinha cultura cinematográfica e também era uma superprodução com uns 500 figurantes. Virou um filme incompreensível, mas tem momentos muito bonitos e uma qualidade técnica extraordinária pra época. Outro filme que me incomoda um pouco hoje é O Casamento.
No DVD do Toda Nudez Será Castigada tem um extra incrível com um depoimento do Nelson Rodrigues... [interrompendo, com voz de Nelson Rodrigues] “Nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais. As neuróticas reagem”. Ele fala isso.
Em todas as tuas entrevistas te perguntam se você não vai voltar a filmar. Para não fugir à regra... Você não vai voltar a filmar? Às vezes me dá vontade. Tenho umas idéias de um filme, uma espécie de um Amarcord brasileiro. Só que não tenho mais saco pra arranjar dinheiro, pra ficar atrás de distribuidor. Se o cara me arranjar e tiver só de filmar e montar eu acho legal, aí eu faço.
De quais filmes brasileiros recentes você gostou? Cidade de Deus é um puta filme. Adorei Carandiru. Adorei o Madame Satã, o Cidade Baixa. Um filme que eu adorei também, que pouca gente viu, é Contra Todos, de um cara chamado Roberto Moreira. E teve O Invasor, Cinema, Aspirinas e Urubus, Auto da Compadecida, muito filmes bons e novos.
As revistas e os programas de TV falam sobre mudanças nos relacionamentos amorosos, mas não se fala quase nunca das mudanças nas relações de amizade. Você não acha que elas estão mudando? Acho que não. É difícil generalizar isso, mas é verdade que eu valorizo mais hoje em dia os amigos do que os casos amorosos. Acho que a amizade é mais comprometida um pouco, ela não tem tantos interesses.
Você concorda que o celular mudou o jeito de as pessoas se relacionarem? Ah sim, eu acho que a gente não sabe nem avaliar ainda a importância dessa mudança, mas acho que é imensa. Essa comunicação horizontal, instantânea da internet e da eletrônica, com esses orkuts da vida, é uma das maiores mudanças da história da humanidade.
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