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ressurge. A psicanálise se afastou da ciência e vice-versa — não creio que a importância de Freud seja a clínica. Era um grande neurocientista, sua contribuição é para o entendimento da psique. Pena que ele tenha ido à boca do cachorro nos anos 50... Se Freud tivesse acesso a uma máquina de ressonância magnética, hoje, não ia ter pra ninguém...
Há pessoas que se lembram de seus sonhos com exatidão e outras que mal se lembram da última vez que sonharam. Como se explica? Todos os adultos têm sono REM, e se você acordar alguém durante esse sono ele vai dizer o que estava sonhando. Lembrar-se do sonho é outra história. Sugiro que todos mantenham um diário de sonhos, o sonhário. Na primeira manhã, você não lembra, lembra só de uma frase. Se faz uma auto-sugestão antes de dormir, em duas semanas sai de uma frase para muitas páginas. Tem que criar condições para que a memória se forme, para reter a experiência.
E o sonho lúcido, realmente existe? É uma coisa que a ciência mal começou a estudar. Muita gente conhece, pouca gente controla. Durante o sono REM, as áreas frontais são desativadas, é como se o ego e o superego fossem desligados. O que se ativa são as áreas intermediárias do cérebro. Em geral, o sonho não é tão vívido quanto a realidade, não se age: as coisas acontecem com você. Já no sonho lúcido, você age — é um supersono REM em que o sonhador adquire controle efetivo do sonho. Trabalho com a hipótese de que o pré-frontal está ativado durante o sonho lúcido: você tem sudorese maior, o coração bate mais rápido, atinge um estado borderline — e, se ativar demais, acorda. O sonho lúcido acontece durante a soneca de meio de tarde ou de manhã cedo, quando o corpo descansou e você está próximo da vigília. Há aí um potencial cognitivo inexplorado, embrião de uma nova forma de consciência. Poderíamos aprender coisas incríveis nesse estado, como no filme Matrix — e mais legal do que um espaço virtual de computador é o que dá pra fazer com seu próprio corpo. É um trabalho inovador, e uma das linhas que quero pesquisar no Brasil.
Do sonho à realidade: você estava tão bem num laboratório de ponta nos EUA... por que voltar ao Brasil? É roubada mesmo! Há meses que faço coisas que não têm nada a ver com minha profissão. Dez anos lá e você pensa que tudo é fácil, já aqui a burocracia é gigante. Foi um risco calculado, porque não queria ficar lá só fazendo ciência e também não queria voltar ao Brasil pra dar aula em universidade. De que adianta ser capaz de ir à Lua
e moleques aqui terem 20 bichos-de-pé por pé?
Tem algum sonho para o Brasil? Acho que a gente só pode se salvar se virar uma superpotência. Senão, a gente vai simplesmente acabar. Podemos virar uma grande Bolívia ou tomar vergonha na cara agora. Temos um povo criativo e estamos comendo mosca. No Brasil reinventamos a roda, corremos atrás do que já foi feito — caso do Projeto Genoma. Tem que fazer o contrário, ser líder em campos virgens. Temos uma estrutura porreta nesse mapeamento genético, mas chega! Se a gente não investir em célula-tronco, nanotecnologia, interface cérebro-máquina, neurociência, se não tivermos programadores, não soubermos lançar satélite, não pesquisarmos o cérebro, estamos roubados. O Brasil precisa pensar em ser o melhor do mundo em algo muito específico. É melhor correr pensando em ser o primeiro do que correr para não ser o último.
Então só a ciência salva? Caminhamos para uma grande crise ecológica sem precedentes, e só daqui a 30 anos consertaremos o estrago. Se daqui a 50 anos não tiver água, teremos controle da Amazônia? As pessoas aqui não têm ambição, acham que têm que bater o ponto e ir pra casa. E a corrupção está no genoma do brasileiro. Tem que transformar a educação agora, para daqui a 20 anos mudar esse comportamento. A ciência pode revolucionar se construir para o avanço tecnológico, meritocrático e
lúdico. Se for só l’argent, vai dar errado! Gente é para brilhar, mas aqui se acha que é só para sobreviver. Temos que trabalhar com as crianças. Elas devem sonhar, ter ambições altas. Se elas forem diferentes, vamos dar certo. |