Você fala muito de Freud, algo meio estranho para um biólogo... Sou um neurofreudiano, digamos. Nunca fiz a tentativa explícita de corroborar Freud biologicamente, mas os resultados da minha pesquisa deságuam nele. Ele disse que parte dos sonhos são memórias do dia anterior, os “restos diurnos”. Estava certo!

Mas é possível comprovar a psicanálise com a neurociência? Não posso tomar como 100% verdade o que Freud e Jung produziram, mas é possível observar os mecanismos da repressão ativa de memórias desagradáveis, um conceito freudiano clássico. Dá para apontar áreas frontais do cérebro com atividade elétrica quando ocorre a repressão, e outras áreas quando o conteúdo reprimido
 

ressurge. A psicanálise se afastou da ciência e vice-versa — não creio que a importância de Freud seja a clínica. Era um grande neurocientista, sua contribuição é para o entendimento da psique. Pena que ele tenha ido à boca do cachorro nos anos 50... Se Freud tivesse acesso a uma máquina de ressonância magnética, hoje, não ia ter pra ninguém...

Há pessoas que se lembram de seus sonhos com exatidão e outras que mal se lembram da última vez que sonharam. Como se explica? Todos os adultos têm sono REM, e se você acordar alguém durante esse sono ele vai dizer o que estava sonhando. Lembrar-se do sonho é outra história. Sugiro que todos mantenham um diário de sonhos, o sonhário. Na primeira manhã, você não lembra, lembra só de uma frase. Se faz uma auto-sugestão antes de dormir, em duas semanas sai de uma frase para muitas páginas. Tem que criar condições para que a memória se forme, para reter a experiência.

E o sonho lúcido, realmente existe? É uma coisa que a ciência mal começou a estudar. Muita gente conhece, pouca gente controla. Durante o sono REM, as áreas frontais são desativadas, é como se o ego e o superego fossem desligados. O que se ativa são as áreas intermediárias do cérebro. Em geral, o sonho não é tão vívido quanto a realidade, não se age: as coisas acontecem com você. Já no sonho lúcido, você age — é um supersono REM em que o sonhador adquire controle efetivo do sonho. Trabalho com a hipótese de que o pré-frontal está ativado durante o sonho lúcido: você tem sudorese maior, o coração bate mais rápido, atinge um estado borderline — e, se ativar demais, acorda. O sonho lúcido acontece durante a soneca de meio de tarde ou de manhã cedo, quando o corpo descansou e você está próximo da vigília. Há aí um potencial cognitivo inexplorado, embrião de uma nova forma de consciência. Poderíamos aprender coisas incríveis nesse estado, como no filme Matrix — e mais legal do que um espaço virtual de computador é o que dá pra fazer com seu próprio corpo. É um trabalho inovador, e uma das linhas que quero pesquisar no Brasil.

Do sonho à realidade: você estava tão bem num laboratório de ponta nos EUA... por que voltar ao Brasil? É roubada mesmo! Há meses que faço coisas que não têm nada a ver com minha profissão. Dez anos lá e você pensa que tudo é fácil, já aqui a burocracia é gigante. Foi um risco calculado, porque não queria ficar lá só fazendo ciência e também não queria voltar ao Brasil pra dar aula em universidade. De que adianta ser capaz de ir à Lua
e moleques aqui terem 20 bichos-de-pé por pé?

Tem algum sonho para o Brasil? Acho que a gente só pode se salvar se virar uma superpotência. Senão, a gente vai simplesmente acabar. Podemos virar uma grande Bolívia ou tomar vergonha na cara agora. Temos um povo criativo e estamos comendo mosca. No Brasil reinventamos a roda, corremos atrás do que já foi feito — caso do Projeto Genoma. Tem que fazer o contrário, ser líder em campos virgens. Temos uma estrutura porreta nesse mapeamento genético, mas chega! Se a gente não investir em célula-tronco, nanotecnologia, interface cérebro-máquina, neurociência, se não tivermos programadores, não soubermos lançar satélite, não pesquisarmos o cérebro, estamos roubados. O Brasil precisa pensar em ser o melhor do mundo em algo muito específico. É melhor correr pensando em ser o primeiro do que correr para não ser o último.

Então só a ciência salva? Caminhamos para uma grande crise ecológica sem precedentes, e só daqui a 30 anos consertaremos o estrago. Se daqui a 50 anos não tiver água, teremos controle da Amazônia? As pessoas aqui não têm ambição, acham que têm que bater o ponto e ir pra casa. E a corrupção está no genoma do brasileiro. Tem que transformar a educação agora, para daqui a 20 anos mudar esse comportamento. A ciência pode revolucionar se construir para o avanço tecnológico, meritocrático e lúdico. Se for só l’argent, vai dar errado! Gente é para brilhar, mas aqui se acha que é só para sobreviver. Temos que trabalhar com as crianças. Elas devem sonhar, ter ambições altas. Se elas forem diferentes, vamos dar certo.

 
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