Em seu celebrado artigo na PloS Biology, você afirma que o sono está para a memória como a digestão para o alimento. Quem dorme mais aprende mais? Sem dúvida. Quanto melhor a qualidade do sono, melhor a memória. Temos três grandes estados
de consciência: a vigília, o sono profundo, que é o sono de ondas lentas, e o sono REM [de “rapid eye movement”, estágio do sono em que ocorrem os sonhos]. Quem tem problema de apnéia noturna, por exemplo, tem problemas de memorização, pois dificilmente alcança o sono REM. Sonho é um processo ativo. Durante o sono surgem idéias importantes do dia-a-dia. Minha pesquisa acontece na confluência entre sonho, sono, memória e aprendizagem. A gente perdeu na cultura ocidental a tecnologia para o próprio corpo: o corpo é estranho no Ocidente. Entre os integrantes da tribo Senoi, na Malásia, havia o costume de todo dia as crianças relatarem seus sonhos para os pais. Os pais lhes davam conselhos, pois o controle do sonho seria muito importante para a pessoa e a coletividade. Essa psicanálise matutina era seguida pelos adultos, que faziam simulações
de futuros possíveis para toda a tribo.
Borges escreveu que o sonho é a primeira ficção do homem. O que veio primeiro, o sonho ou a memória? O sonho é uma simulação do futuro. Isso não é evidente no dia-a-dia, quando as coisas são imprevisíveis, mas quando você tem grandes problemas isso se evidencia nos sonhos. Aí cabe Freud, a pulsão de satisfazer os desejos. Qualquer animal sonha com locais onde tem comida, fêmeas, ou machos... Essa é a função primordial do sonho. No mundo cão, você tem que predar, acasalar e não morrer. Gente que está na guerra sonha que está na guerra. Sonhos e pesadelos são coisas concretas quando os problemas são concretos. Se temos sonhos abstratos é porque não temos problemas sérios, e sim mil problemas mais ou menos sérios. Os pequenos problemas do cotidiano irão ressurgir nos sonhos, que servem para processar memória.
Como se prova que o sonho consolida a memória? A função original do sono, desde os répteis, é de time-out. Aprendeu, desliga, não tem mais interferência sensorial. A memória é como um tanque de areia onde a água traça caminhos por erosão. O cérebro de uma criança é a caixa de areia intacta; o cérebro do velho é um Grand Canyon. O sono permite que as coisas mais importantes sejam fixadas, fazendo com que a memória reverbere no cérebro por horas. Os processos moleculares que acontecem durante a vigília se repetem durante o sono. Parte do meu
trabalho é desvendar o sono de ondas lentas, que é o sono
profundo, quando não se sonha, quando os genes não são
ligados, mas durante o qual as memórias ficam ecoando.
Isso durante o sono de ondas lentas... E durante o sono REM, o que acontece? Nesse sono, os genes são ligados e desligados. Essa ativação gênica é muito rápida, é como se fosse “a hora da verdade” para aquelas memórias em processo de sedimentação. Isso acontece em poucos segundos. Já no resto do sono REM, que dura muitos minutos, nossa impressão é que — note que isso ainda está sendo pesquisado —, depois que o sono de ondas lentas bate o martelo para decidir quais memórias serão estocadas no disco rígido, ocorre um processo de reverberação com algum grau de caos, de desorganização. Algumas coisas se aprendem por repetição, outras por insight, isto é, por reestruturação de idéias preexistentes. Não há idéias novas, e sim recombinações. Minha pesquisa sugere que durante a fase do sono REM as idéias se misturam, você “viaja” para gerar insights. Essas fragmentações e condensações, como Freud disse, devem servir para chacoalhar idéias velhas e transformá-las em novas.
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