“O sonho é uma simulação do futuro. Sempre que tenho uma situação de pressão, presto atenção aos sonhos e tenho boas respostas.” O parágrafo saiu da boca de um dos mais importantes neurocientistas do mundo. Bem — não seria mesmo um dos melhores se fosse um cara comum. A começar pelo nome, tirado do clássico de Herman Hesse. O romance que conta a trajetória de um inquieto brâmane, xará de Sidarta Gautama, o Buda, em busca da iluminação, era um dos favoritos dos pais, um casal de taquígrafos que transcrevia discursos políticos no Congresso, em Brasília. Quando se descobre que a principal diversão de Sidarta Tollendal Gomes Ribeiro, 35, é a capoeira, aí é que ele não se encaixa mesmo como um cientista padrão.

“Capoeira é filosofia de vida: saber cair, ser mandigueiro”, descreve. O candango chegou aos EUA depois do mestrado em biofísica, no Rio de Janeiro, para estudar neurociência na Universidade Rockefeller, em NY. Pouco depois, lançou um livro de contos, Entendendo as Coisas (L&PM, 1998), e levou suas mandingas para a Carolina do Norte, em Durham, onde fica a Universidade Duke. Atraiu-o o famoso laboratório dirigido pelo paulistano Miguel Nicolelis, outro cérebro abençoado e expatriado. “Achava que era megalomaníaco até conhecer o Miguel. Ele é o Pelé da ciência brasileira”, elogia. Após publicar vários trabalhos ao lado do camisa 10 — no mais célebre, provaram que a memória é consolidada durante o sono profundo —, Sidarta notou que seguiam direções diversas. Ao amostrar simultaneamente sinais elétricos de centenas de neurônios de ratos, e com os sinais controlar movimentos de braços robóticos, Nicolelis atingiu a pole position da neuroprotética. Já o interesse de nosso capoeirista reside no processo de formação do sonho e da memória, foco do doutorado com o também brasileiro Claudio Mello, da Universidade do Oregon. Para impulsionar as pesquisas, o trio de exilados, figurinhas carimbadas em respeitadas revistas científicas como Nature, Science e PloS Biology, teve a onírica idéia de criar um instituto de neurobiologia... no Brasil. Assim nasceu o ambicioso Instituto Internacional de Neurociência de Natal. Orçado em 20 milhões de dólares, o dobro do custo da patriotada espacial e inútil que levou nosso primeiro astronauta ao espaço — mas com perspectivas muito superiores. Exemplo: saber como funciona o cérebro durante o sonho lúcido. Construir interfaces cérebro-máquina capazes até de controlar funções do corpo pela Internet. Ou, ainda, simplesmente, desvendar a língua falada por macacos.

Interessado em envolver os locais no NatalNeuro — que deverá abrigar escola para 250 crianças e clínica de saúde mental —, o neurobiólogo caçou alunos numa favela para descobrir que ensinar algo para crianças carentes é muito mais complexo. “Resolvi dar aula de capoeira, mas vi que antes tinha de ensiná-los a não xingar... Mas estou certo de que da capoeira vão aos computadores”, acredita o entusiasmado Sidarta, que teve seu sonho postergado por atrasos nos investimentos e em sucessivos entraves burocráticos. Mas fique frio: agnóstico, ele detesta papo cabeça. E adora dormir — religiosamente, oito horas por dia.

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