A questão hormonal explica boa parte desse desajuste. O restante fica por conta do excesso de estímulos a que eles também são submetidos. Televisão, computador, som, videogame, celular, DVD e, às vezes, até um frigobar próprio – tudo instalado no quarto – são altamente estimulantes e atrapalham o sono deveras. Segundo a mesma pesquisa, adolescentes com quatro ou mais itens eletrônicos no quarto tendem a dormir menos do que os seus pares e têm o dobro de chance de cochilar nas aulas ou enquanto fazem lição de casa. “Muitos têm um playground tecnológico em seus quartos, coisa que os deixa estimulados e atrasa o sono”, diz a americana Mary Carskadon, especialista em sono que coordenou o trabalho. “Desacelerar o ritmo com um banho quente seguido de um bom livro são alternativas bem melhores para a transição até a cama.”
Essas recomendações, aliás, valem para todo mortal em qualquer fase da vida. Conseguir estabelecer uma rotina do sono (dormir e acordar quase sempre nos mesmos horários) e desligar das preocupações e obrigações profissionais um par de horas antes de se deitar é altamente benéfico. Evitar cafeína, nicotina e álcool em doses elevadas ajuda. Praticar esportes durante o dia também. Já comer muito e fazer exercícios pouco tempo antes de ir para a cama atrapalha – assim como umidade, claridade, calor e barulho em demasia.

A influência do ruído varia de indivíduo para indivíduo – uns são mais suscetíveis do que outros. “Em geral, a poluição sonora fragmenta o sono”, afirma Dalva Poyares. Mas ela conta que com o tempo é possível acostumar-se ao barulho e ele se torna algo chamado de “ruído branco”, deixando de interferir na qualidade do sono. Esse costume de dormir com uma trilha sonora urbana de fundo explica também porque muitos não conseguem se acomodar no travesseiro quando desfrutam de um silêncio absoluto. “A ausência de barulho acaba incomodando”, diz a especialista.

Fatores emocionais como stress em excesso, perda de um parente ou do emprego, briga com a namorada, bomba na faculdade, catástrofes em geral entram no pacote “olheiras” e podem te deixar sem dormir por um certo período da vida. Um estudo feito em 2001 pela National Sleep Foundation, nos EUA, dá uma dimensão dessa relação. A fundação entrevistou quase mil adultos logo após o 11 de setembro e constatou que praticamente metade deles passou por um período de insônia temporária nas noites subseqüentes ao ataque. Mais graves, porém, podem ser diversas doenças (depressão, transtornos de ansiedade, disfunções hormonais etc.) e os chamados distúrbios do sono (insônia, ronco, apnéia, narcolepsia etc.). Ambos podem interferir no sono de maneira crônica. “Em geral, pessoas felizes tendem a dormir bem”, atesta Dalva. O problema é que o inverso não é verdadeiro: nem sempre quem dorme bem é feliz...

DORMIR POR QUÊ?

Mas, afinal de contas, o que é dormir bem e por que exatamente o ser humano dorme? A primeira resposta é bem mais simples: “Dormir bem é dormir relativamente rápido, não acordar durante a noite, despertar bem-disposto e não sentir sonolência ao longo do dia”, afirma Flávio Alóe. Quanto ao porquê de dormirmos, tanto Flávio quanto Dalva são categóricos: “Quem descobrir por que dormimos leva o Prêmio Nobel”. Traduzindo: a ciência já desvendou alguns mecanismos envolvidos no sono, descobriu o que a falta dele pode causar, mas ainda não chegou a um consenso sobre a razão de dormirmos – uma das hipóteses seria a conservação de energia; outra, de que dormimos para manter
a homeostase (equilíbrio) do organismo.

Sabe-se, por exemplo, que dormir não é sinônimo de descanso. Ou melhor, o sono não corresponde apenas a um terço de nossa vida que atravessamos passivamente – nosso corpo, e principalmente o cérebro, realiza importantes tarefas durante o período em que passamos na cama. Os batimentos cardíacos, a pressão arterial e a temperatura corporal diminuem. Fora isso, vários outros processos do nosso metabolismo – mais complexos e difíceis de serem medidos – são ativados.

O sono é dividido em cinco fases. As duas primeiras são leves. Na terceira e na quarta, o sono é profundo e, na quinta, ocorre a maior parte dos sonhos. Essa última é conhecida por sono REM (sigla inglesa para movimentos oculares rápidos, “rapid eye movements”) e a atividade cerebral é intensa, os olhos movem-se rapidamente e em várias direções, a respiração torna-se mais rápida e irregular e os batimentos cardíacos aumentam. Braços e pernas, no entanto, permanecem paralisados evitando que você “interprete” os sonhos e saia andando por aí – ao menos na maioria dos casos. As quatro fases anteriores fazem parte do sono não-REM e caracterizam-se por ondas mentais mais lentas, redução na pressão arterial e alguns movimentos corporais. O ciclo todo se repete quatro ou cinco vezes por noite.

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