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Chico Buarque diz que a seco não dá, simplesmente não dá. Não sabe como se faz para dormir. Nem ele nem cerca de 54 milhões de brasileiros que ficam de olhos bem abertos vendo a banda passar enquanto o sono não chega. Isso mesmo. Estima-se que cerca de 30% da população brasileira brigue constantemente com o travesseiro antes de conseguir dormir. Pior: cerca de 9% dela (16 milhões de brasileiros) não prega os olhos de jeito nenhum. São os insones crônicos.
Essa falta de consideração de Hipnos (o deus do sono na mitologia grega), no entanto, não acontece apenas conosco. O mundo todo dorme menos do que há 100 anos. Em 1910, a maioria das pessoas dormia nove horas por noite. Atualmente, os adultos dormem, em geral, menos de sete horas – um deficit de mais de uma hora em relação à média ideal de oito horas que resulta num bando de trabalhadores-zumbis. Nós. Prova disso é um estudo conduzido nos Estados Unidos que revelou que um terço dos maiores de 18 anos afirma sentir uma sonolência tão pesada ao longo do dia a ponto de comprometer o trabalho e a rotina social.
“A luz elétrica e as pressões sociais interferem e podem dificultar uma boa noite de sono”, afirma o neurologista Flávio Alóe, do Centro de Sono do Hospital das Clínicas de São Paulo. Tudo culpa de Thomas Edison, que inventou a lâmpada elétrica nos idos de 1880? Claro que não. Mas a evolução da eletricidade permitiu uma revolução nos costumes. Quem imaginaria lá no século 19 que o 21 seria o século “on demand” e “on line” sem espaço para o botãozinho “off”, de desligar? Um planeta cafeinado que não descansa nunca.
SOCIEDADE ACESA
Para entender por que uma sociedade tão iluminada por computadores, televisores, videogames, celulares, iPods e supermercados, postos de gasolina, entre outros estabelecimentos que não fecham nunca mudou tanto o padrão de sono do Homo sapiens é preciso voltar à escuridão, ao tempo das cavernas. Desde os neandertais e os primórdios do homem moderno e inteligente, há 150 mil anos, a rotina era determinada pela luz do dia. Pela manhã, com o nascer do sol, era hora de acordar e se mandar atrás de rinocerontes e mamutes para garantir a sobrevivência. Ao escurecer, depois do poente, momento de descansar. E assim vivia-se dia após dia obedecendo-se apenas ao relógio biológico, uma estrutura localizada no hipotálamo (região do cérebro) guiada pela luminosidade e responsável pelo compasso de nossos ponteiros internos.
Todo dia ele faz tudo sempre igual. Quando escurece, esse relógio dispara a produção de melatonina, um hormônio secretado pelo cérebro. Por volta das sete da noite ele começa a circular no organismo e te deixa sonolento. Ao redor das 11, atinge seu pico e o sono chega (ou deveria chegar) acachapante. Lá pelas sete da matina, o nível dele está baixo e o cortisol, outro hormônio, entra em ação para fazer o oposto da melatonina e te deixar alerta para enfrentar o dia. Hora de levantar.
O problema é que de tão “avançados” que somos preferimos ou nos vemos obrigados a obedecer ao relógio de pulso, do celular, do carro em vez do relógio biológico. Time is money e é preciso cada vez mais ficar muito “time” acordado para conseguir algum “money”. Mas não é somente o trabalho que causa olheiras. A sociedade non stop inclui também muita diversão 24 horas – tudo te afastando do sono necessário de cada dia. “O excesso de estímulos tanto profissionais como de lazer desregulam o relógio natural do organismo”, diz Dalva Poyares, neurologista do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
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