Você vai fazer um aquecimento para a turnê num show em Berlim, como parte dos eventos culturais da Copa do Mundo, e vai aproveitar para assistir a dois jogos da seleção brasileira. Qual você acha que deve ser a composição do “quadrado mágico” do técnico Parreira? Eu não entendo nada de futebol, nada de tática. Eu quero ver os melhores jogadores ali, todos juntos. Mas tem o Ronaldo e o Ronaldinho. Kaká está muito bem. Adriano não está muito bem, mas pode entrar. O Robinho acho ótimo. Acho que o Juninho Pernambucano também pode jogar. O Edmílson devia jogar também, porque avança. Eu gosto de jogadores que vão para frente. A defesa fica cheia de buracos, mas aí é problema do técnico. Eu não sei, não entendo mesmo, gosto de jogar e de ver. De ver jogadas criativas, ver gol, os passes, os dribles. Gosto menos de ver defesas brilhantes, beques que atrapalham as jogadas do ataque. Para mim eles atrapalham o espetáculo.

O fato de ser um dos compositores mais importantes da música brasileira influenciou na sua maneira de produzir? A responsabilidade atrapalha? Não, porque na hora de produzir você sai do zero. Não sai do trampolim, do pódio. Você não está de salto alto. Você tem de estar descalço. As pessoas imaginam que o artista pensa nele o tempo todo. Que fica se olhando no espelho, se achando o máximo. E você age como uma pessoa normal, porque você se sente uma pessoa normal. E aí as pessoas dizem “tá lá o artista fingindo que é uma pessoa normal”. Quando vou escrever, não sou nada.

Você escuta rap? Eu até ouço às vezes. E até ouvi, por dever de ofício, quando pensei no rap para “Ode aos Ratos” [do musical Cambaio, em parceria com EduLobo, e gravada no novo disco]. Depois desisti de fazer um rap, pensei “não, essa coisa já está um pouco vulgarizada, já está todo mundo fazendo, vejo até em anúncio de TV, não vou fazer rap, não”. Mas aí fiz essa embolada, que é um pouco um rap, um pouco falada. Uma coisa já antiga, nordestina, mas que tem a ver com a divisão do rap.

E a música eletrônica, o que acha dela? dançou ao som de um DJ? Não sou muito bom de dançar. Aliás, uma vez eu dancei, mas foi num lugar em que não era preciso dançar muito. Não sei o que era. A pessoa que estava comigo reclamou que não era tecno, que era house, ou que era house e não era tecno. Eu não entendia nada daquilo. Isso foi aqui em Paris. Mas as luzes piscavam e você não precisava dançar. Meio que mexia assim [faz o gesto], e você olhando de fora via algo como robôs dançando. Se é assim, então tá bom, você não precisa ser um Fred Astaire para brilhar na pista. Aí entrei, dei meus passos e tudo bem.


Você
tem iPod? Não, nem sei direito o que é isso. Eu ouço falar, mas não sou bom nisso. Não sei lidar muito bem com informática. Só sei o básico. Até hoje não consegui entender como se faz para gravar um CD. Tenho tudo lá em casa, mas aí quando fui fazer as músicas e tive de mandar para o Luiz Cláudio Ramos, que é o arranjador, tentei e não consegui. E aí recorri ao velho gravador cassete. Foi à moda antiga.

telefone celular você usa pouco e de forma utilitária, mas a Internet se tornou parte de sua vida. Aqui em Paris e quando viaja eu sei que você freqüenta cibercafés. Como é isso? Freqüento para saber notícias do Brasil, e sempre tem essa coisa de correspondência. Eu comecei a ter só por necessidade imperiosa, para troca de e-mails com os tradutores, quando começaram as traduções de Budapeste. Quando fiz Budapeste usava o computador como uma máquina de escrever, com o Word. Não tinha Internet. E aí passei a ter para isso, para o contato imediato. Antigamente, isso era feito por telefone, por fax, era complicado, e o e-mail facilita muito a vida. Mas também você perde um pouco de tempo ali. Antes, ficava jogando paciência, que era uma espécie de aquecimento dos dedos para começar a escrever. Durante todo o tempo em que fiz meu livro tinha esse ritual. E agora, em vez da paciência, tem o Google, sei lá, para fazer uma pesquisa, ver uma sacanagem.

E o que você acha do sampler no trabalho de criação musical? Você está achando que vai me pegar, que eu não sei o que é sampler, né? [Risos.] Mas eu sampleei uma vez, também não sou tão bobo assim, não. Foi numa música chamada “Tempo e Artista” [1993], em que eu queria um serrote. Tentaram localizar um cara que tocava serrote em São Paulo, mas parece que já tinha morrido. E a referência que tenho do serrote é a introdução de “Ne me quitte pas”, do Jacques Brel. E aí o que nós fizemos? Sampleamos a introdução de “Ne me quitte pas”. Nessa você não me pegou.

passou pela sua cabeça trabalhar com outras pessoas para se aventurar em outros caminhos musicais? Eu tenho impressão de que não faço tudo sempre igual [risos]. São 12 músicas, 12 canções bem diferentes. Com tratamento orquestral diferente para cada uma. Cada uma é uma história à parte, com exceção de duas músicas que são bem coladas, porque a temática é a mesma. Uma é a continuação da outra. “As Atrizes” e “Ela Faz Cinema”. Mas assim mesmo são diferentes. Uma é um choro-canção, outra é uma bossa nova.

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