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Como foi sua relação com a análise? Não me dei bem com a psicanálise. Fiz três vezes e larguei as três. Uma acho que era junguiana, outra freudiana, nem lembro mais. Não gostei, não me dei bem. Antidepressivo nunca tomei. Remédio é só para dormir, em último caso. Evito me viciar nessas coisas. Tomo às vezes, quando preciso, um Dormonid. Mas se puder não tomo nenhum e bebo vinho. Com um vinho e mais uns placebos, umas besteirinhas, e mais umas idéias na cabeça eu consigo dormir. Mas é difícil. Eu prefiro evitar ficar dependente. Mas a seco não dá para dormir, simplesmente não dá, você deita e não consegue. Não sei como se faz para dormir.
Você já teve depressão? Depressão, depressão, não. Talvez eu não seja a pessoa mais feliz do mundo, sei o que é angústia, mas não sou uma pessoa deprimida e nem dada a depressões. Angústia criativa eu sei o que é. Nas três vezes em que entrei para a psicanálise foi um pouco por isso, assombrado por um período de infertilidade criativa. Não conseguia fazer nada, e aquilo foi me angustiando, e aí entrava na análise. Por algum motivo, alguma hora eu começava a fazer música, mas não acredito que isso se devia à análise. Quando eu começava a fazer uma música ou algo assim eu me dava alta. Hoje lido melhor com isso. A experiência ajuda, você se diz “paciência, isso é normal”. Você passa por períodos mais brilhantes e outros mais opacos.
Durante algum momento de sua vida já passou pela sua cabeça a idéia de se matar? Não, nunca. Gosto muito da vida, não quero morrer, não. Com tudo o que há, eu quero viver, viver bastante. E viver bem. No futebol eu já anunciei que eu iria pendurar as chuteiras em 2022. Anunciei no campo. Até vai ter uma festa, o pessoal quer fazer um churrasco. Mas isso já faz alguns anos, e agora estou achando que 2022 é cedo, vou estar com 78 anos. Estou com vontade de adiar um pouco [risos]. Você podendo fazer algumas coisas boas até mais adiante dá para viver.
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| Retratos em branco e preto: abraço em Bob Marley, antes de pelada no Rio, em março de 1980. Abaixo, caros amigos: Manuel Bandeira e os parceiros Tom Jobim e Vinicius de Moraes. E no exercício de dois hobbies, o futebol de botão e o bar |
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Qual é a música? A música se chama “Subúrbio”.
Você teve alguma obsessão durante a criação de Carioca, seu novo disco? É um trabalho obsessivo. E cada vez mais. Para você começar a escrever uma canção não precisa de um motivo forte. O motivo às vezes não é forte em si, mas acaba se tornando forte pela obsessão. “O que eu faço com isso? Tenho de fazer uma música.” Mas você não sabe por que aquilo apareceu na tua cabeça. E você não vai sossegar enquanto não transformar em canção, em verso. Eu lembro que a última música que fiz fiquei dois meses tocando, não vinha a letra, e era meio diferente, uma música meio espanhola. E acabou que não tem nada de espanhola. E ficava fazendo aquele desenho harmônico mil vezes por dia. Mudava uma coisinha no dia seguinte e regravava. É sempre uma coisa obsessiva. Trabalho obsessivamente.
E a música “Outros Sonhos”? Pois é, para você ver, tem coisas também que vêm lá de trás, e emergem. “Outros Sonhos” vem de um mote que meu pai cantava. A música acho que é chilena. Depois fui descobrir que os versos foram musicados por um autor chileno, mas também por um autor argentino. Tem um tango do Carlos Gardel que diz a mesma coisa. Enfim, estes versos são anônimos: “Soñe que el fuego helaba, soñe que la nieve ardia, y por soñar lo imposible, soñe que tu me querias”. Meu pai cantava muito isso [repete os versos cantando]. Cantava muito, só quando eu era garoto. Mas, de repente, volta. Volta e começa a ficar te perseguindo, e fica um “tenho de fazer esta música”.
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