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Nesta edição a Trip debate a importância que uma boa relação com o lugar em que moramos e com a nossa cidade tem para a felicidade de cada um. Você estudou arquitetura na USP. Você acha que teria sido feliz como arquiteto? Eu sei que não seria um bom arquiteto. Às vezes fazia um trabalho de estagiário em escritório de arquitetura, e eu borrava tudo com nanquim, ficava uma porcaria. Eu não tinha gosto pela coisa técnica da arquitetura. Na verdade, não tinha talento para isso. Fui para a arquitetura por exclusão, não sabia para onde ir. Pensava “vou ser escritor”. Mas não adianta estudar letras, tinha de ter uma profissão. Nenhum escritor vivia de ser escritor. Meu pai era professor, os outros escritores tinham outra profissão. A exceção clássica era o Jorge Amado. Eu não ia ser advogado, nem médico, nem engenheiro, nem administrador, e fui para arquitetura, que tinha alguma coisa a ver com arte.
Teu último romance tem o nome de uma cidade e teu CD anterior se chama Cidades. De qual cidade você mais gosta e por quê? Eu gosto do Rio de Janeiro, cidade onde nasci e moro, mesmo, há 40 anos. Fui com dois anos para São Paulo, estive em Roma, mas com 21 anos voltei para o Rio para fazer um show e fiquei. É a cidade onde sei morar melhor. Cidade não é só gostar, tem de saber morar.
Você já disse que durante muito tempo resistiu à idéia de ser carioca. Eu sempre me senti carioca, o que acho meio chato é a coisa do bairrismo, de “ah, sou carioca”. Não me sinto um carioca da gema, do chopp em bar, até já fiz isso muito. Mas essa coisa do cariocão não tem muito a ver comigo, da mesma forma que acho paulistice chata, baianice chata, mineirice chata. |
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| “São Paulo é detestável, um desastre, a cidade que não deu certo. Estou falando da
arquitetura, do urbanismo...” |
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E São Paulo? É uma cidade onde não gostaria de morar. Mesmo porque a cidade hoje tem muito pouco a ver com a São Paulo da minha infância. Eu era criança e ia para o Rio todas as férias. E, além de ter a família, os primos, a praia, quando chegava no Rio tinha sempre a sensação de que estava chegando numa cidade grande. Quando chegava, geralmente um tio ia me buscar e eu vinha pela beira-mar vendo aqueles prédios todos, aqueles anúncios luminosos. Era uma coisa assim de estar chegando à capital, à metrópole. Quando voltava para São Paulo estava voltando para uma cidade de província, uma cidade quase de interior. A rua onde eu morava – que hoje é uma rua muito chique, cheia de lojas de grifes, a Taiarana, que virou a Vittorio Fasano [onde fica o hotel Fasano] – era uma rua de terra, a gente jogava futebol ali. Hoje vou para São Paulo e não conheço mais a cidade. Não sei andar em São Paulo. Se me derem um carro, não vou saber sair dirigindo.
É uma cidade que, hoje, você não aprecia? Eu tenho laços afetivos com São Paulo, amigos lá, mas a cidade é um desastre. Era uma cidade amável nos anos 50, se podia gostar dela. Hoje em dia acho impossível alguém gostar. Estou falando da cidade, da arquitetura, do urbanismo. Se vai falar da vida noturna, cultural, dos restaurantes, hotéis, médicos, aí é muito boa. Mas a cidade é detestável. É um desastre, é a cidade que não deu certo. Lá no Rio, às vezes dá no noticiário “temporal em São Paulo”, e aí vêm aquelas imagens da marginal. Não se pode viver assim, engarrafado.
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