O telefone tocou passava da meia-noite. Do outro lado da linha, a inconfundível voz de um dos maiores nomes da música popular brasileira exclamou: “Descobri! É ‘gestatório’!”. Era a palavra que faltara em meio à entrevista realizada na véspera para se referir à liteira que serve para transportar o papa em ocasiões solenes: “Cadeira gestatória”. Chico Buarque é um escritor e compositor obcecado pelas palavras. Uma obsessão que o persegue durante seu processo criativo.

Avesso a religiões e outras crenças, suas bíblias são os volumes de dicionários; as orações, suas canções e romances. “Gestatório” tem, como primeira definição, “relativo a gestação”; e “gestar”, no sentido figurado, é “trazer e levar palavras”. O verbete tem tudo a ver com o inquieto personagem, que confessa sentir uma “sensação desagradável” quando está “parado”, seja na música ou na literatura. Três anos após o lançamento do best-seller Budapeste e oito anos passados desde o lançamento de seu último CD, Cidades (1998), o ex-estudante de arquitetura volta ao “urbanismo cultural” e põe na praça um disco chamado Carioca.
 
Muito próximo de chegar aos 62 anos (no próximo 19 de junho), Chico também tem dificuldade em ficar fisicamente parado. Além de jogar peladas três vezes por semana no seu campo no Rio, defendendo as cores de seu time, o Polytheama, ele é um veterano caminhante. Em suas andanças pelo calçadão do Leblon e de Ipanema ou como um aplicado flâneur nas ruas de Paris, assobia novas melodias, cria versos e imagina o desenrolar das histórias de seus romances. Uma das dificuldades que enfrenta é quando o interrompem no meio do caminho: “Não posso dizer que estou trabalhando, porque ninguém vai acreditar. Então digo que estou me exercitando, que meu personal trainer está vindo atrás e não me deixa parar”, diz, rindo.

Na tarde de uma quarta-feira da primavera européia, no entanto, Chico Buarque permaneceu sentado numa cadeira da sala de seu apartamento em Paris por exatas duas horas e meia (com pausas para buscar água na cozinha ou ir ao banheiro) para falar ao gravador da Trip. A conversa, entre momentos mais graves e outros bem-humorados, discorreu sobre criação, música, literatura, política, futebol, mídia, arquitetura, psicanálise, sexo, drogas e hip hop.

 
home // 01// 02 // 03 // 04 // 05// 06// 07// galeria de fotos
  // comente