Alex Atala escreve sobre a sua relação com a caça
Minha consciência me diz que não existe nenhuma boa razão para tirar a vida. Esta é uma certeza da minha racionalidade. Porém, não sou alguém 100% racional. Sou emocional, animal. Minha constituição física é onívora. Então, fica claro que existe um duelo interno entre matar e o obter o prazer de comer. Gosto de pescar; melhor ainda, gosto de caça submarina; melhor ainda, adoro a caça propriamente dita. Nesse momento, me sinto o último dos seres humanos; vejo parte de mim que quase me enoja. Só não me enoja porque não sou só isso. Também não sou santo. A história da minha vida está repleta de erros e arrisco dizer que me orgulho da maioria deles.
Essa é uma questão filosófica que aprendi a aceitar e sei que não vou “dissolver”. Vamos pensar na mesma questão de outra maneira: comer e reproduzir são atividades vitais. Nós, que gozamos de inteligência, transformamos essas atividades em prazer. E há quem prefira comer...
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| Alex “killer machine” Atala, com algumas de suas presas, em suas andanças por lugares tão diferentes como o Amapá e o Canadá |
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Os animais têm na alimentação a restauração de uma longa jornada, o reabastecimento até a próxima refeição ou até o próximo ciclo reprodutivo. Restauração é, aliás, uma palavra interessante: vem daí a palavra “restaurante”, que, por obra do acaso, faz parte do meu mundo.
Sou de uma família de pescadores e caçadores e, como eles, adoro caçar e pescar. Explico esse meu bom “gosto” como muitas pessoas explicam hábitos esdrúxulos. Há alguns anos, uma universidade italiana fez uma pesquisa mundial sobre alimentação e chegou a duas simples conclusões: nada parece estranho a alguém desde que seja introduzido durante a infância; e em qualquer momento da vida, o que quer que se prove será “classificado” como “incrível” ou “horrível”a partir de uma memória gustativa que remete à infância.
Pois é, venho de uma família de pescadores. Arrumei esse motivo para explicar meu lado animalesco.
Vou usar o exemplo da caça submarina, coluna do meio dos meus defeitos: nem tão lúdica quanto a pesca, nem tão violenta como a caça. Sair pela manhã, pegar o barco e encarar o mar, conseguir pegar um peixe (que parece - mas não é - tarefa simples); limpá-lo, levá-lo para casa, prepará-lo e comê-lo restaura não só o esforço que fiz durante a longa jornada: restaura minha alma, porque me põe em harmonia com a natureza; restaura meu papel masculino de prover alimento. Pode ser mais um defeito, mas me orgulho dele.
A primeira coisa que tenho a dizer é que, a partir do manejo sustentável dos nossos recursos naturais é possível, sim, caçar, pescar e, até, extrair árvores de forma racional e respeitosa. Digo mais: as nossas florestas tão violentadas só terão o respeito devido no dia em que valerem mais em pé do que deitadas. Então, a caça, a pesca e a extração podem, sim, ser ótimas ferramentas de conservação. Não imagino que o Deus que fez a floresta, os pássaros, os peixes e as árvores seja um Deus diferente daquele que fez o frango, o boi, o milho, a soja. A fome é um problema mundial; o homem não produz o suficiente para a alimentação humana e muitos métodos de produção de alimento são infinitamente mais nocivos do que caçar e pescar. É engraçado imaginar que a gastronomia é parte da alimentação em que a preocupação é a exponenciação do sabor e a sublimação do prazer de uma atividade fundamental. Que a alimentação é um dos maiores prismas culturais. Sim, pois ela é trilha de estudo da Filosofia, Sociologia, Antropologia e muitas outras ciências humanas. Talvez a gastronomia seja o mais alto degrau da nossa cultura. É num prato, numa refeição e em torno de uma mesa que encontramos a maior intersecção da natureza e da cultura.
Me parece incrível que grandes ícones gastronômicos como o caviar e as famosas trufas brancas de Alba estejam intimamente ligadas à natureza: o homem ainda tem que matar um esturjão, ainda tem que sair à caça das trufas. “Somos o que comemos”. Esta é uma lição que aprendi em um livro, “Fisiologia do Gosto”, de Brillat-Savarin. Aí me meto a pensar: alguém que está de regime mas come copiosamente, bebe copiosamente e, no final, toma um cafezinho com aspartame está fazendo uma refeição com hipocrisil.
Um falso atleta, que malha, só come verduras orgânicas, não bebe nem fuma, corre alguns quilômetros todos os dias, tem, obviamente, preocupação com o corpo, com a mente e com o meio ambiente. Até aí, tudo perfeito, lindo e correto. Vamos olhar a alimentação desse atleta um pouco mais de perto: ele levantou de manhã, tomou seu suplemento, correu algumas horas e ingeriu uma barrinha de cereal, nadou mais algumas horas, fartou-se de saladas e legumes crus e um peitinho de frango com maionese light, foi para o trabalho, teve um dia excepcional de labor, pegou seu carrão, a namorada, foi a um sushi bar e comeu atum e salmão. Uau! Que garoto-prodígio, que ser humano especial! Começou o dia se entupindo de químicos (mas sua vaidade e seu belo corpo justificam isso). À dura digestão de legumes e verduras crus, seu estômago agradeceu; turbinou seu fígado, que já penava com seu suplementento matinal. Ingeriu uma carga absurda de hormônio de um franguinho que só viveu 45 dias, sob 24 horas de luz acesa para que comesse bastante, andasse pouquinho e ficasse gordinho. A gordura mais nociva aos seres humanos é a do franguinho, branquinho, de olhinho vermelho, quase igual ao coelhinho da Páscoa. Trabalhou, e o trabalho enobrece. E, na terceira refeição do seu dia, comeu um peixe que ficou laranjinha pela ração carregada de betacaroteno. Um peixinho que também foi privado de gozar a vida em liberdade, igual ao passarinho que ele tem na gaiola da sua casa. Na mesma casa em que vive um cachorrinho que já esqueceu que é um cachorrinho e que pensa que é seu filhinho e recebe um tratamento melhor do que muitas pessoas que chegam a se prostituir e a roubar por serem vítimas de uma sociedade consumista e, antes de mais nada, egoísta.
Mas a refeição dele ainda não acabou: ele também comeu toro, a parte mais nobre do atum - espécie em extinção, pescada comercialmente com métodos indubitavelemente cruéis, abatidos antes da idade de maturação sexual e, por isso, em declínio populacional. E o atum e só um exemplo entre os milhões de exemplos de espécies que sofrem da pesca comercial predatória. O mar não é um recurso inesgotável.
Este moço ainda foi pra balada sintética, que turbina outros problemas sociais, como o tráfico de drogas. Este moço, eu e você fazemos parte de uma raça que domina o planeta. Que deixa rastro por onde passa; que é, sem dúvida, o animal mais temido da terra. Até os predadores do topo da cadeia alimentar nos temem. Somos, talvez, a raça mais odiosa. Parte de nós,humanos, acredita que matar é a melhor maneira de ensinar que matar não é correto. Somos, sem dúvida, uma espécie pensante, contraditória, voraz. Porém simpática, amável e, até mesmo, generosa. Alimentação, mais uma vez, mostra-se um prisma cultural, e pode, também, nos confrontar com nosso lado mais terrível, que, por sua vez, nos leva aos maiores prazeres da vida.
A todos peço desculpas pelo tom de revolta, por, talvez, abrir uma ferida que não é agradável de se olhar. Porém, assim somos e assim seremos. Este discurso tinha a única intenção de nos fazer refletir. Muitas do que “exagerei” aqui faz parte de um universo utópico, mítico. Vale a pena lembrar que um mito não aconteceu, mas reflete o inconsciente humano, e é nele que, acredito, resida a solução desse problema. Todos os seres querem continuar vivos. Todos querem desfrutar da natureza. E vamos combinar que viver corretamente de ve ser muito chato.
Assistente de foto Luis D‚ambrosio / Agradecimentos: Claumar www.claumar.com.br e Body Piercing Clinic – André Meyer tel.: (11) 3088-1022 www.piercing.art.br
| Na Trip # 143 Atala também fala sobre: paredes, mídia, coxinha, trabalho, pastel, grana, pizza, Fasano, natureza e trufas de 4000 dólares |
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