E você é bom de tiro ao prato? Atiro razoavelmente bem. Já cheguei a acertar séries consecutivas de 25 pratos. Agora, acertar e errar são inerentes ao exercício do hobby, da profissão, da vida. Saber aceitar o erro é o primeiro fundamento, talvez a maior lição que eu tenho da pesca, da caça e do tiro esportivo. É bom saber que a gente erra, erra muito — e não se doer por isso, cara.
Você atira para relaxar? Não sou um atleta do tiro. Sou um praticante do esporte da maneira mais despretensiosa. Trabalho de segunda a sexta, das nove da manhã às duas da madrugada, no mínimo. Aos sábados tenho o dia livre, mas às oito da noite já estou no restaurante, e aí também vou até as duas da manhã...
... e, quando chega o domingo, você quer mais é quebrar pratos. Domingo é o dia que tenho para mim. Aproveito para ficar com meus filhos e reservo duas ou três horas para ir ao Clube Paulistano de Tiro, encontrar meus amigos de pesca, de caça e de tiro, sabe?
Então vamos voltar pro começo: com quem você aprendeu a gostar disso tudo? Com meu pai e meu avô. Desde bem pequeno acompanhava os dois na pescaria. Meu pai tinha casa em Caraguatatuba [litoralnortepaulista] e a gente ia muito para a praia Dura, em Ubatuba, pescar no costão. Só que para chegar lá era a maior mão-de-obra, tinha que caminhar pela trilha e tal. Um dia, vi um cara saindo d’água, de arpão na mão, carregado de peixe, e falei: “Pô, esse meu pai e meu avô não sabem nada. Tem um jeito mais fácil de pegar peixe que é enfiar a cara n’água” [rindo].
Que idade você tinha? Uns 7, 8 anos no máximo. Na época, meu pai, que sempre mexeu com produtos de borracha, trabalhava numa empresa chamada Filex, e eles estavam com uns protótipos de equipamento de mergulho. Aí me deram esse equipamentinho básico e foi a primeira vez que enfiei a cara embaixo d’água.
E caçar? A mesma coisa. Muito menino, eu já caçava passarinho de estilingue, depois de espingardinha de chumbo, aí com espingarda de verdade. Comecei acompanhando meu avô na Serra do Mar. Depois, meu pai vendeu a casa de Caraguatatuba e comprou uma fazendo em Marzagão, Goiás. E tinha muito perdiz, codorninha, pomba. Com 12 anos, ganhei uma espingarda Beretta calibre 28.
Como você fazia para se manter? Eu trabalhei anos na Claumar.
Uma das principais lojas de caça submarina e mergulho de São Paulo. Pois é, foi meu primeiro emprego. E aprendi muito com o Claudião Guardabassi, o dono da Claumar. Me ensinou não só a pescar melhor. Foi a primeira referência externa que mostrou que a base que meu avô e meu pai haviam me dado estava certa.
Como assim? Para mim, ele foi um mestre. A admiração que tenho por ele vai muito além da caça submarina. Guardabassi é um cara com uma puta postura ecológica, grande pescador e um puta bom caráter. Me ensinou como é ser homem. Por alguma coincidência da vida, meu modelo de ética pessoal sempre esteve relacionado a caçadores e pescadores.
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