02 // Páginas Negras
   

Como é que você entrou nesse negócio de comida? Entrei sem querer, cara. Entrei porque eu era um punk maluco e queria morar fora do Brasil. Fui para a Bélgica em 1989, precisava ganhar uma grana, fui pintar parede. Pintando parede, descobri a cozinha e comecei a ganhar uma grana cozinhando. Ou seja, atirei no que vi e acertei no que não vi.

Por que você resolveu ir justamente para a Bélgica? De onda, cara . Eu era do punk rock, sempre gostei daquelas músicas . Eu sou do subúrbio , nasci na Mooca, em São Paulo, e cresci no ABC paulista, em São Bernardo. Fui um moleque branquelo e ruivo , não via gente igual a mim . Eu via gente morena ou de cabelo pixaim . O dia em que descobri o punk rock, me vi na atitude . E disse: "É isso que eu quero ser , é gente igual a mim ". E fui [o celular toca. É seu Milad Atala, pai de Alex, cumprimentando o filho pelo D.O.M. ter sido escolhido pela revista inglesa Restaurant Magazine um dos 50 melhores restaurantes do mundo].


" Já recusei um grande trabalho porque o cara queria que eu mudasse minha postura , que trabalhasse de manga comprida . Mandei tomar no cu, bicho "



Você
está então entre os 50 melhores? Ainda não tive acesso à lista, mas parece que o único latino-americano, do México para baixo, é o D.O.M.

Você terminou o colegial e foi viajar? Terminei o colegial no supletivo, depois de ter voltado dessa viagem. Não sei se você sabe, eu fui estagiário da Trip. Trabalhei um mês na revista.

Ah é? Entre uma ida e outra para a Europa, eu estagiei na Trip. É que comecei a cozinhar numa época em que isso era coisa de analfabeto, nordestino ou veado. Então, não me via cozinhando pro resto da vida, queria me encontrar, eu não tinha outra coisa. Aliás, tinha: talvez o meu maior capital já estivesse lá, que era conhecer pessoas. Conhecia muita gente. O Paulo Lima me chamou: "Porra, por que você não vai lá pra Trip? Eu gosto de você, você é um cara batalhador. A gente precisa desse sangue". Já tinha o Arthur Veríssimo, que é meu companheiro de maluquices desde moleque, e me dava bem com o Dandão [o jornalista Fernando Costa Netto], que estava na revista. Achei bacana e disse: "Esse é um mundo de gente legal, quero participar dele". Mas não nasci pra ser...

Jornalista? Eu nasci um cara errado [risos]. Dei certo sem querer.

Escuta, o que você comia antes de começar a cozinhar? Qualquer coisa.

Junk food? Mas até hoje eu sou assim. Não tem essa frescura, as pessoas me vêem e pensam que sou...

... super-refinado? Olha, eu nasci do jeito que nasci e vou morrer do jeito que eu sou, cara, não vou mudar. Já recusei um grande trabalho na vida porque o cara veio me falar que eu tinha de mudar minha postura, tinha de trabalhar com manga comprida. Eu mandei tomar no cu, bicho! Porque eu não vou deixar de ser o que sou pra ganhar uma grana a mais. Não vou, não vou.

O sujeito queria um chef mais enquadrado, é isso? É, é. Porque o cara me achava talentoso, mas me achava um escroto, vamos falar assim [risos]. Ele queria que eu tivesse uma atitude mais francófila. Que até dentro da França, hoje em dia, anda decadente, graças a Deus.

E você recusou... É, eu recusei e estou muito feliz por ter recusado, acho que valeu a pena ter peitado a briga. Eu não sei o quanto eu sou punk [risos]. Realmente tenho dúvidas. Sei que não sou um cara da sociedade, não estou a fim de "ver e ser visto". Quero fazer a minha vida, do meu canto. Me deixem em paz, por favor.

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