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Cedo, bem cedo, Adilar
esvazia o corpo de um boi. Vísceras,
couro, cascos, cabeça. Coloca
o cadáver na caçamba
do furgão e acelera. O destino é o
Connection, sofisticado nightclub na
zona leste de São Paulo. São
dez horas da manhã. O Adilar
chega, estaciona e descarrega o bicho.
Num terraço afastado do bar
e da pista de dança, ao lado
da sauna mista, borrifa um tempero
secreto e mete (fundo) quatro hastes
de metal nos 309 quilos de carne. O
corpulento nelore sobe majestoso em
dois cavaletes com engrenagens (o inequívoco
ROLETE), e, depois de 18 horas em fogo
brando, voilà: a farra bovina
vai começar.
A carne do chef Adilar é coisa
fina. Tenra, macia. Gostosa mesmo.
Mas está longe de ser a única
no recinto. “Aqui nós
temos um boi e 114 vacas pra comer”,
calcula um dos sócios da boate.
As garotas vem e vão, de biquínis,
lingeries, maminhas à mostra.
No balcão, a poucos metros de
onde o boi gira sobre as brasas, um
grupo de homens bebe doses de scotch
a 35 reais. Um deles, Antônio,
vamos chamá-lo assim, é casado.
Está ali só pra fechar
um negócio. Mas logo rumina
outro apetite: “Depois do boi,
se os negócios derem certo,
vou atrás de uma bezerra”.
O Adilar, que trabalha com churrasco
há cinco anos, fatia a carne
ali mesmo, no rolete, e pica tudo na
tábua. Os pedaços de
costela, picanha e alcatra são
servidos no buffet ao lado da piscina.
Acompanhamento: arroz, salada, mandioca
e farofa. Acompanhantes: morenas, loiras,
mulatas, ruivas, magras, baixas, gordinhas,
mineiras ou gaúchas. O cardápio é farto,
mas o preço um só – 240
reais por uma hora de refeição
no andar de cima.
O matadouro do Connection, como em
quase todas as casas do ramo, fica
no alto das escadas. Palitando os dentes
por ali está Sérgio,
o Sergião. A negócios,
como todos (certo, certo). É sócio
numa empresa que planta e vende alho.
Alho? “Sim, alho. Estou nessa
vida há muito tempo, mais de
15 anos. Cheguei lá, sabe?” Sergião
pede outro uísque e aponta as
garotas que se agrupam na frente do
bovino: “Deve estar rolando uma
aftosa”.
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