Meu trabalho, como crítico gastronômico, é descrever a sensação de comer os mais diferentes pratos - os bons e os ruins. Daí minha surpresa ao ser convidado para fazer o oposto: escrever um texto sobre a sensação de não comer nada. Para isso, precisaria, claro, manter minha boca fechada, trancada, soldada por algum tempo. O pessoal da revista propôs que este test-drive de faquir durasse três dias.
Topei. E quer saber? Foi moleza. Embora ninguém acredite muito. "Mas você não está fraco? Não está morrendo de fome? Como é que ainda está de pé, e trabalhando?", perguntavam as pessoas, preocupadas ao saberem que eu só estava tomando água. A Trip chegou a propor que eu tivesse acompanhamento médico durante o feito. Que nada. Fácil. Como diria o personagem de Franz Kafka, no conto "O Artista da Fome" (de 1924), a respeito de um faquir que vivia de exibir seus dotes de jejuar por 40 dias: "... só ele sabia (...) como era fácil jejuar. Era a coisa mais fácil do mundo. Ele não o ocultava, mas não acreditavam nele".
Se um belo dia você toma seu café-da-manhã, mas depois não almoça porque não dá tempo e não consegue jantar porque a geladeira de casa está vazia aí sim você vai sofrer. Essa quebra de expectativa, essa interrupção de sua rotina alimentar, realmente provoca uma fome de leão.
Você passa o dia esperando uma brecha para poder comer, só pensa em comida, e a fome fica, portanto, o tempo todo à espreita. Meio como passar um fim de semana num spa: você fica o dia todo esperando pela hora de comer - e, quando ela chega, você recebe apenas algumas míseras calorias... que só servem para abrir o apetite, e retomar a angustiante espera pela próxima refeição.
Diferente é a situação de quem decide não comer - seja para derrubar um governo, seja para escrever uma reportagem. Você acorda e não come. Põe-se a fazer seus afazeres, e ignora que haverá uma hora de almoço - pois não haverá. Distrai-se com outras coisas. E assim vai. A proximidade com aromas e visões de comida, é claro, atrapalham um pouco a concentração... Assim como, para mim, trabalhar durante o jejum era um pouco incômodo (por exemplo, escrever minhas críticas gastronômicas, tendo que lembrar detalhes dos pratos que comi dias atrás, não ajudava muito). Mas uma vez decidido a não comer (claro que na véspera, à noite, abasteci-me com uma enorme pizza, quase uma garrafa de vinho, depois de um perfumado negroni como aperitivo...) a tarefa não foi difícil. Ainda trouxe benefícios como 2,5 quilos a menos de gordura no corpo, e 3 centímetros a menos na minha silhueta abdominal... |