É impossível uma boa versão a partir de um texto que não foi feito exclusivamente para o cinema? A coisa ruim das adaptações feitas a partir de literatura, por exemplo, é que elas inevitavelmente perdem a voz do autor, o jeito que ele usa as palavras. Um dos meus livros favoritos – na verdade, uma trilogia – é Gormenghast, do Mervyn Peake. Há uma adaptação para a TV de grande orçamento feita pela BBC, que é séria, bem executada – eles provavelmente fizeram o melhor possível. Mas o resultado é vazio, é oco. Alguma coisa fica faltando: a maravilhosa prosa de Mervyn Peake. Com os quadrinhos, e com suas versões feitas para o cinema, você não perde apenas essas eventuais qualidades, essa prosa – coisa, aliás, que não é um grande forte das HQs –, mas você perde também a essência do autor, que é incrivelmente, sobejamente importante.


A opção do diretor de Sin City, Robert Rodriguez, foi evitar essa perda com uma reprodução bastante fiel ao estilo das graphic novels do Frank Miller. Huum... Eu sei que diretores precisam fazer uma conspiração, usar todo um repertório de truques de câmera para criar efeitos, como no caso de Sin City, com aqueles tons profundamente escuros – que são, aliás, uma influência maciçamente européia. Frank usa essa influência em Sin City. E aí vem o filme e eles precisam rebolar para reproduzir o efeito, para levar isso à tela... Eu não sei. De novo, não vejo muito sentido nisso tudo. Você pega a adaptação de Ghost World [lançada em 2001 e dirigida por Terry Zwigoff. No Brasil, Mundo Cão]. Há alguma coisa ali parecida com a história escrita por Daniel Clowes. Você tem alguns personagens, a maioria dos principais... E é isso. O fato é que eu me diverti tanto lendo Ghost World no original, como uma história em quadrinhos, por ser simplesmente a essência do Daniel Clowes, pelo jeito de Daniel Clowes desenhar, o jeito de Daniel Clowes contar uma história.

Aliás, essa é uma crítica comum dos fãs de quadrinhos em relação ao “jeito Hollywood” de amaciar a obra para “o grande público”. Mas quais são as opções? Criar uma nova história a partir do universo da tal HQ ou respeitar fielmente a obra do autor? Não é uma opção. Vou te dar um exemplo. As coisas que me fazem gostar dessa HQ do Clowes não estão no filme. Eu não estou muito interessado em ficar vendo uma dupla de atrizes de Hollywood numa espécie de romance independente e fútil. Não que seja culpa delas - estão fazendo seu trabalho. Não é isso. A questão é que você perde toda a qualidade do Daniel Clowes, os desenhos, o jeito de ele contar a história, o estilo. Há um prejuízo. É inevitável. O essencial da questão é que estou muito satisfeito com os meus livros e com os meus quadrinhos. Eu não preciso deles como filmes. Não penso em opções. Eles já são capazes de afetar a mim e às pessoas profundamente, emocionalmente. Por isso eu te digo que não, adaptar HQs para o cinema não é algo que me tente hoje em dia. Não me faz ficar imaginando: “Ah, que maravilha seria...”.

Esta é a primeira parte de uma longa entrevista que Alan Moore deu com exclusividade à Trip. A primeira ao Brasil em mais de dez anos. E a mais abrangente concedida ao país. A íntegra da entrevista você confere dividida na Trip #144, nas bancas na primeira semana de maio – e, no mesmo período, aqui no site. Nela, o escritor britânico fala sobre a vida nos quadrinhos, como iniciou a carreira num bizarro incidente com LSD, adianta e conta detalhes inéditos dos enredos de seus novos projetos (Lost Girls, Liga Extraordinária e o romance Jerusalém), comenta sobre aposentadoria e o envolvimento com a magia, e faz uma análise detalhada de suas principais obras.

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