Esse ponto de vista se aplica a Hollywood? Há uma diferença simples entre as duas áreas. A coisa é que eu não tenho que manejar, para fazer um trabalho desses, cem milhões de dólares – seja para escrever, seja para fazer um artista desenhar. Nós realizamos nosso trabalho numa mídia muito simples e muito elegante. Não precisamos lidar com esse monte de dinheiro cuja finalidade é uma tentativa escancarada de manipular o público. E eles tentam. É mais uma objeção que tenho a esse tipo de filme. São extremamente controladores, arrogantes, agressivos. Mais do que em outras mídias – é o leitor, são os espectadores, é o público; todos ficam sob controle do que está ali na tela. 

Ao contrário da literatura... Sim. Quando você lê um livro e dá vontade de tomar chá, por exemplo, você deixa de lado o livro, e vai tomar a sua xícara de chá. Se quiser voltar algumas páginas para lembrar de algo que foi dito páginas atrás, você pode fazer isso. O leitor é que tem que fazer todo o trabalho. Quando lê um livro, o que você faz é decodificar esses arranjos de vinte e seis palavras numa página, por exemplo. Você tem que criar uma imagem para todos os personagens. É capaz de imaginar as vozes deles. Você está conjurando um mundo inteiro, e o está fazendo sozinho. O trabalho é seu. O leitor está contribuindo para ter uma experiência. Não é o caso nos filmes. Você está lá sentado na sua cadeira, e o filme segue, correndo a, sei lá, 24 frames por segundo. A máquina está fazendo todo o trabalho por você. Está tudo pronto. Não precisa imaginar como tal personagem vai se parecer ou como é que ele vai soar. Porque o camarada ali na tela vai sempre se parecer exatamente como o Jack Nicholson, e aquele outro personagem lá vai falar exatamente como um ator qualquer... É negada a chance de ter uma imagem na cabeça. Você tem as possibilidades negadas. Você não está apto a contribuir ao filme, sua imaginação é simplesmente freada e é substituída pela imaginação de quem o fez. Eu tenho esse incômodo com adaptações de cinema. Quando você tem um público que cresce ao redor do cinema, há esse problema dos jovens que absorvem arte apenas se ela vier por uma tela. Isso encoraja à preguiça. Muitas das pessoas que vão ao cinema não precisam se preocupar em ler o livro, porque, obviamente, o livro é muito mais difícil, exige muito mais experiências do que apenas ficar sentado no cinema com uma tigela de pipoca no colo por 90 minutos... É por isso que me incomoda tanto essa coisa das adaptações.

Uma questão que chateia os seus fãs é o fato de que suas criações não receberam uma adaptação decente. Aliás, pelo contrário. Parece que Hollywood se esforçou pra errar. Você disse que o roteiro de V de Vingança é um lixo... Mas outro grande quadrinhista, Frank Miller, entrou há pouco no jogo e parece que com um resultado diferente. Ele está bastante empolgado com a versão de Sin City. Teve boas críticas. Isso não o animou de algum jeito a cogitar uma nova chance? Não, não. Eu não vi nenhum desses filmes feitos com o meu trabalho e não vi Sin City. Para ser absolutamente honesto. Em relação a Sin City em quadrinhos, por mais que eu goste do empenho que Frank colocou no trabalho de arte desse projeto, a história não me agrada tanto quanto os trabalhos anteriores dele. Nada contra o trabalho em si, é apenas uma questão de gosto pessoal.

Mas o senhor não gostaria de uma boa adaptação? A idéia realmente não te atrai, mesmo com o sucesso de crítica de Sin City? Humm... Não. Realmente não interessa. Filmes não me atraem nesse sentido. É claro que o cinema é capaz de fazer coisas maravilhosas. Mas a maioria dos grandes filmes que vi foi escrita para o cinema, ou foi adaptada do teatro - o que me parece até bastante lógico. Neste tipo de versão, não há uma necessidade real de perder as coisas que fazem do Teatro o que ele é. As características até se mantêm. Já vi muitas adaptações bem-sucedidas, mas não a ponto de me atraírem.

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