Hollywood continua um espetáculo. Precisou de 54 milhões de dólares para avacalhar com um clássico das histórias em quadrinhos. Nesta sexta-feira, 7 de abril, os melhores coretos e praças de alimentação brasileiros acolhem a versão Matrix de V de Vingança, graphic novel bolada nos anos 80 pelos britânicos Alan Moore e Dave Lloyd.

V for Vendetta. Levada às telas pelo diretor James McTeigue, laranja do produtor Joel Silver e dos roteiristas Andy e Larry Wachowski, os criadores de Agente Smith, Neo, Morfeu e grande elenco.

Criadores”, por sinal, é forçar, amizade. O caso não é tão conhecido por estas plagas, mas quem leu sabe que Matrix é uma apropriação sem-vergonha d’Os Invisíveis, série escrita na primeira metade da década passada pelo quadrinhista Grant Morrison. Britânico, aliás. Como Dave e Alan.

Lloyd, o desenhista de V for Vendetta, é talentoso mas relativamente desconhecido fora do mundo Plof!, Blum!, Soc!, Voosh! e Tum! dos balõezinhos. Moore não.

Aos 52 anos, é um ícone. Com poucos paralelos sacudindo as pranchetas e os nanquins. O nome mais importante dos quadrinhos nos últimos 30 anos. Vivo, venhamos. Will Eisner não vale. É Pelé com bola, Picasso com pincel, Ferrari de tanque cheio.


De Moore dizem-se muitas coisas. As editoras Conrad, Devir e Via Lettera, por exemplo, que publicaram no país o romance A Voz do Fogo e os álbuns da Liga Extraordinária e Watchmen (respectivamente), dizem que o homem “mudou as histórias em quadrinhos”. Não exageram. A oposição diz outras coisas. Mas a oposição, Alan espreme mais pra baixo.

O surgimento treme-terra do escritor veio cheio de fúria nos anos 80. Emplacou uma série de trabalhos na indústria dos Estados Unidos – Watchmen, Miracleman, Monstro do Pântano, Piada Mortal, V de Vingança... Essenciais ao que se chama boçalmente de nona arte (música, poesia, arquitetura, teatro, escultura, pintura, cinema, dança...).

E é para falar – mas não apenas – de uma “terra de boçais” que Moore atendeu com exclusividade a Trip. A jequice de Hollywood e de sua versão película de V de Vingança e a bocozada do “mercado de quadrinhos norte-americano” fazem o dia do autor. Dá gosto. Ele estala a língua para disparar uma sorte sapeca de pancadinhas no fígado “dessa gentalha desonesta”.

Moore criou V sob Margaret Thatcher. McTeigue/Wachowski endereçam o mesmo pacote a George Bush. V em filme é mais rasteiro. Diverte mas é ralo. O público vai adorar. Um herói de máscara é sempre simpático. E a máscara ainda sorri. As semelhanças com a obra original param por aí.

V, o protagonista interpretado por Hugo Weaving (Senhor Smith), nestes tempos, ganha tempero de “terrorista Oriente Médio”. Diz a tantas horas: “Explodir um edifício é algo que pode mudar o mundo”. A referência, óbvia, às torres ausentes de Nova York. E deu que muita gente se derreteu com a “nova ousadia” de Hollywood. Mas vá. Qual? Ousadia é explodir o prédio...

Esta entrevista é a primeira parte de uma longa conversa com o escritor. Será publicada na íntegra na edição 144 e no site da Trip, em maio. Perguntado, Moore dá o parâmetro: “Acho que esta é a primeira que dou ao Brasil em mais de dez anos”. Nas linhas que seguem, o criador espalha um punhado de cascudos contra as adaptações das HQs por Hollywood. E semeia a boa palavra. Deus sabe. Não?

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