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Nesta página você vai conhecer os três indicados ao Prêmio Trip Transformadores na categoria Teto. Brasileiros que se dedicaram a dar abrigo, conforto e a pensar o espaço como uma forma de resgate da dignidade
NIÈDE GUIDON
Pensando na proteção do nosso patrimônio, esta arqueóloga tem usado a pré-história para reescrever o presente e melhorar o teto que nossos netos habitarão no futuro



Formada em história natural pela Universidade de São Paulo (USP) em 1959, Niède Guidon tem dedicado a maior parte de seus 74 anos de vida à paixão pela arqueologia, colhendo inúmeras descobertas sobre o nativo brasileiro e sobre a verdadeira formação de nosso berço esplêndido. Nascida em Jaú (SP), res­ponde atualmente como presidente e diretora da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), chegando a ser nomeada professora da Universidade Federal de Pernambuco depois de concluir um doutorado na Sorbonne, em Paris. “A arqueologia é importante porque serve para nos avaliar, descobrir quem somos através das nossas origens. Esse conhecimento nos traz mais humildade. Acabamos perdendo essa idéia de que devemos dominar a natureza”, reflete.
Foi na Missão Arqueológica Franco-Brasileira – que ela integrou de 1973 até o encerramento das atividades, em 1986 – que Niède acabou criando, com apoio do Ibama, o Parque Nacional Serra da Capivara, uma área com mais de 129 mil hectares localizada no interior do Piauí e hoje reconhecida pela Unesco como patrimônio histórico mundial. Além das 35 mil imagens catalogadas e protegidas nos 700 sítios arqueológicos (500 deles com pinturas rupestres) incrustados pelas diversas formações rochosas que integram o parque, outro projeto educacio­nal criado por ela trata de beneficiar 450 crianças de 4 a 12 anos que vivem nos municípios próximos ao parque.

Muliere Sapiens

Ao iniciar seu trabalho no Nordeste brasileiro, a experiente arqueóloga percebeu que a preservação dos sítios arqueológicos estaria arriscada sem a devida cons­cientização da população. “Talvez por ser um país novo e de grandes proporções, se danificarem uma região, exaurirem todos os recursos, acham que poderão mudar para outra área e assim sucessivamente. É preciso muita educação ainda. O parque é um motor de desenvolvimento para a região, é um patrimônio deles, não do
go­verno. Mas, se a gente diz que é deles, eles querem entrar para caçar e plantar.”
Tanta participação rendeu a Niède frutos amargos: mesmo jurada de morte na região, continuou combatendo os assentamentos entre a serra da Capivara e a serra das Confusões e percorre diariamente o parque denunciando as irregularidades e a falta de proteção aos tesouros que ela conhece e sabe avaliar bem o valor. “Aqui conseguimos montar o mais moderno centro de pesquisa arqueológica da América do Sul e um belo museu. Abrimos também o primeiro curso público de graduação em arqueologia do Brasil”, dispara.
Acredita-se que o homem está na região há 50 mil anos e as novas descobertas podem mudar a percepção sobre nosso habitat real. “Toda essa região abriga uma das maiores concentrações de sítios catalogados com pinturas rupestres do mundo. Os grafismos ajudam a reconstituir a vida dos grupos humanos que moraram no Brasil em tempos ancestrais, cobrindo aspectos da vida cotidiana como a caça, a morte e o sexo”, conclui.
Entre os principais prêmios, Niède conquistou uma Ordem do Mérito Científico, entregue pelo Ministério de Ciência e Tecnologia em 2005, um Green Prize e um Prêmio Príncipe Claus, concedido pelo governo da Holanda no mesmo ano, um prêmio Cientista do Ano em 2004, um Comendador da Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura, um Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito do Governo Francês e uma medalha da Ordem do Mérito Educativo, entregue pelo Ministério da Educação brasileiro em 1994.

CIRO PIRONDI

Indicado também para concorrer ao Prêmio Trip Transformadores 2007, o editor convidado desta edição da Trip coleciona uma extensa lista de contribuições para a moradia digna e o conforto da população

 

Formado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Braz Cubas, em São Paulo, no início da década de 80, foi só depois de concluir um doutorado na Univer­si­dade Politécnica de Catalunha, em Barcelona, e passar por um período de estudos na Escola de Arqui­tetura de Veneza, na Itália, que Ciro Felice Pirondi, hoje com 50 anos, resolveu abrir seu primeiro escritório de arquitetura em São Paulo.
De lá pra cá ele tem registrado significativas rea­lizações na área da arquitetura e do urbanismo, inclusive levando cada vez mais os canteiros de obras para serem discutidos em sala de aula. Em 1995, o arquiteto deixou a presidência do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) para fundar, no ano seguinte, a Escola da Cidade – uma faculdade de arquitetura e urbanismo instalada na mesma rua General Jardim do IAB, na região central de São Paulo.
Entre outros feitos marcantes, Ciro foi res­ponsável pelas obras de revitalização do edifício Copan, projetado por Oscar Niemeyer e um dos símbolos de São Paulo. Também restaurou o acervo do arquiteto e urbanista Lúcio Costa, falecido em 1998, que ficou conhecido por desenhar Brasília e ser um dos fundadores da arquitetura moderna nacional. Ponto
para o projetismo consciente.

Bate-estaca

Nascido em um lar com formação espírita, Ciro já recebeu diversos prêmios importantes, entre eles um Prêmio Petrobras por sua atuação nas Fábricas de Cultura, promovidas pela Secretaria da Cultura de São Paulo, e uma menção honrosa em 2005, concedida pelo Museu da Tolerância da Universidade de São Paulo (USP). “A nossa experiência dentro e fora da sala de aula é que nos permite criar uma proposta inovadora, que é ensinar não só a construir, mas a entender o papel social do arquiteto”, ressalta. Ao lado de grandes nomes como Geraldo Vespaziano, Paulo Sant'anna e Rafic Farah, Ciro fez da Escola da Cidade uma das instituições de ensino superior mais procuradas pelos futuros arquitetos, que podem usufruir das parcerias criadas com a Escola Federal de Lausanne, na Suíça, além da Universidade de Viena, na Áustria, e da Escola Técnica de Arquitetura de Barcelona, fazendo o caminho que Ciro Pirondi um dia já trilhou.
Em seu texto de apresentação como novo conse­lheiro do Instituto Brasileiro de Arte e Cultura, Ciro mostrou a régua que deveria ser usada em todos os projetos criados na sua área e foi categórico: “A função social de um arquiteto é fazer boa arquitetura, adequada à realidade socioambiental onde ela está sendo construída. Como ser social, o arquiteto deve inserir-se em uma ideologia que mais o inspire a lutar socialmente por ela. A arquitetura precisa voltar a fazer parte do discurso cultural do país. Os arquitetos estão cada vez mais sendo chamados para participar dos governos, da gestão das cidades, e ampliam, assim, seu campo de trabalho”.


AURO LESCHER
O organizador do Projeto Quixote busca dar abrigo a quem perdeu
as expectativas, resgatando crianças e jovens das ruas e trazendo um novo significado para a palavra lar

 

Um dos livros que não saem da cabeceira do psi­quiatra paulistano Auro Danny Lescher, 45 anos,é Dom Quixote. Foi com essa leitura que ele descobriu meios de se aprofundar ainda mais na subjeti­vidade humana e entender melhor os jovens que hoje abriga em seu Projeto Quixote, nome inspirado na obra de Miguel de Cervantes.
Ainda em seus primeiros anos de residência no setor de psiquiatria do Hospital São Paulo, na capital paulista, Auro teve o estalo de montar uma peça teatral dentro da ala feminina. O bom resultado fez com que ele criasse, tempos depois, o Grupo Biruta de Artes Cênicas, em Santos, e fosse convidado a integrar a Comunidade Terapêutica Enfance, criada pelo psiquiatra Oswaldo Di Loretto, hoje supervisor do Projeto Quixote.
Com sua experiência de oferecer arte como prática terapêutica a crianças e adolescentes pobres – além de ajudar diretamente aqueles que vivem nas ruas e sofrem de dependência química, violência e falta de vínculos familiares – Auro Lescher concebeu o Projeto Quixote e acabou criando mais que um espaço para oficinas de artes plásticas, trabalhos com madeira e grafite – ele transformou a vida daqueles que um dia serão o futuro do Brasil.
Hoje com a Agência Quixote Spray Arte, a Oficina de Mães, entre outras atividades, os profissionais
ligados ao projeto – entre médicos, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas familiares, educadores, advogados e artistas – tentam minimizar as angústias daqueles que não possuem um lar plenamente formado. “Há mais de dez anos convivo diariamente com crianças e jovens privados das condições básicas para uma vida com dignidade, ajudando alguns
a afirmar sua criatividade, outros a amenizar as dores físicas e psíquicas que os abandonos sucessivos e
a vida nas ruas lhes impuseram”, salienta.

Não tinha teto, não tinha nada

“Tenho aprendido e ensinado que as crianças que vivem na rua são tristes, e que a tristeza e a violência que os jovens sofrem e reproduzem são os principais sintomas da nossa grave doença social.” Assim, numa parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o psiquiatra já contabilizou 2,5 mil crianças tratadas nas duas casas abertas no bairro de Vila Mariana, em São Paulo – 70% delas vindas de institui­ções que também trabalham com crianças e adolescentes em situação de risco. Para entrar no Projeto Quixote basta que o jovem se inscreva em uma das oficinas. “O jovem tem de se sentir protagonista de sua ação, pertencente a um grupo que lhe mostra a sua função social de gritar. Não adianta criarmos centros de desintoxicação. Uma porcentagem mínima precisa de remédios e de tratamento desse tipo. Eles precisam de oportunidades para se expressar, para extravasar a juventude que brota neles. Quando comecei, morria de inveja do Projeto Axé, que tinha aquele universo musical muito ligado ao negro da Bahia. Mas encontrei meu ouro na periferia de São Paulo, o hip hop”, disse em uma entrevista recente.
Entre os principais parceiros do Projeto Quixote estão Petrobras, Banco Safra, Prefeitura de São Paulo, W. K. Kellogg Foundation, Playcenter, Merrill Lynch e a empresa de auditoria PriceWaterhouse & Coopers.

» LEIA O QUE JÁ FOI PUBLICADO SOBRE TETO:

Trip #144 – Teto
Páginas Negras: Carlos Motta
Perfil: Chico Buarque
Reportagem: Celebration


 
 
 
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