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Nesta página você vai conhecer os três indicados ao Prêmio Trip Transformadores na categoria Corpo.
Brasileiros que dedicam suas vidas à educação, abrindo novos caminhos para a inclusão social e o desenvolvimento pessoal |
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Em 1988, aos 36 anos, a pedagoga com sangue calabrês e olhar sereno Dagmar Rivieri Garroux mudou-se com o marido artista plástico e o filho ainda pequeno para o então cobiçado Parque Arariba, na zona sul de São Paulo. As ruas ainda de terra e a vizinhança tranqüila eram os principais atrativos da região. Com o tempo, o sonho acabou virando pesadelo; despontaram os primeiros barracos no horizonte – hoje a casa é cercada por 60 favelas onde vivem cerca de 1,5 milhão de habitantes. A violência não tardou bater em sua porta. Na favela ao lado, onde o gol era comemorado quase sempre com uma salva de tiros para o alto, os nomes de alguns garotos da vizinhança apareceram numa lista pregada nos postes. Estavam sendo ameaçados de morte.
Consternada com o fato, Dagmar resolveu se mexer. Reuniu toda a coragem e experiência que tinha e abrigou os garotos em sua casa. Os anos passaram e, do pesadelo, acabou surgindo um sonho antigo, do tempo em que ainda estudava pedagogia na USP (Universidade de São Paulo). Junto com outras cinco amigas de faculdade, ela passou a promover bazares e oficinas de arte, integrando a comunidade. Mesmo com as constantes ameaças, seguiu firme abrigando 12 crianças. Foi acusada pelos moradores da rua por tentar montar uma espécie de Febem dentro de casa, enfrentou denúncias de formação de quadrilha e visitas da polícia. Em 1994, decidiram então comprar uma segunda casa. Foi no vizinho Capão Redondo, bairro conhecido por fazer parte do “Triângulo da Morte” (confluência do Jardim Ângela, Parque Santo Antonio e Jardim São Luiz), que ela fundou a Casa do Zezinho, referência a um poema de Carlos Drummond de Andrade.
E AGORA, JOSÉ?
Esperança e dedicação, por sinal, Dagmar sempre teve de sobra. Aquelas 12 crianças que ajudava há 14 anos hoje se transformaram em 1,2 mil crianças e jovens com idades entre 6 e 21 anos. Aqueles que conseguem uma vaga dentro da casa são matriculados em uma das 67 escolas públicas da região e passam a ter à disposição cerca de 17 oficinas, entre aulas de música, teatro, informática e padaria, além de capacitação profissional, atendimento odontológico, convênio médico, oftalmológico e reeducação alimentar.
A iniciativa é considerada uma das mais bem-sucedidas experiências na área da educação. Foi lidando com traficantes, mães adolescentes, rappers, ex-presidiários, banqueiros e empresários que Tia Dag conseguiu respeito e o apoio de organismos internacionais para tentar melhorar uma das regiões mais violentas de São Paulo e educar as crianças para o futuro. “Por que as crianças da periferia têm que ser programadas para o trabalho árido, sem sonhos, sem prazer, sem lazer? Por que o modelo que é válido para a criança da periferia é o do curso profissionalizante? Quem cresce feliz vai saber escolher melhor seu futuro”, dispara. Colocando em prática os ideais do educador Paulo Freire, Tia Dag diz ter conseguido criar um espaço onde impera a pedagogia da autonomia, respeitando as possibilidades e sonhos de cada um. “Por que o jovem não quer mais ir pra escola? Porque ele fica lá oito anos e sai semi-analfabeto. Além disso, ele tem uma escola com grade, uma escola desinteressante, na qual eles batem o sinal para acostumar o menino a virar um operário. Eles ainda se sentam olhando um para a nuca do outro, o que é isso? Aqui não toca sinal, não toca apito, não tem porta fechada. O jovem transita pela casa inteira, não tem um segurança na porta para dizer quem pode ou não entrar. Ele é autônomo nas decisões dele. Ele não é número, ele tem nome.”
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Enquanto alguns pensam em escrever um livro, este médico, cientista e professor paulistano – e pai de três meninos – já está escrevendo a sua enciclopédia. Aos 46 anos, Miguel Angelo Laporta Nicolelis gasta milhares de neurônios diariamente tentando encontrar uma maneira de integrar o cérebro humano às máquinas, isto é, controlar braços robóticos através das ondas cerebrais. Só para se ter idéia da importância disso, seu trabalho foi parar na lista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) como uma das tecnologias que irão mudar o mundo.
Nicolelis é formado em medicina pela USP (Universidade de São Paulo), concluiu um doutorado em fisiologia e um pós-doutorado na extinta Hahnemann University, na Filadélfia. Foi professor de neurobiologia e engenharia biomédica e diretor do Centro de Neuroengenharia da Duke University. Entre os prêmios que recebeu, estão um Darpa pela excelente performance científica e um prêmio Oswaldo Cruz por excelência em pesquisa, sem contar as inúmeras nomeações internacionais que recebeu – entre elas uma citação recente na revista Scientific American como um dos 20 pesquisadores em atividade mais importantes no mundo.
DE VOLTA PRA CASA
Foi tentando driblar a falta de recursos para pesquisas que Nicolelis deixou o Brasil e foi buscar dinheiro em outros países. Conseguiu regressar, ano passado, propondo as mesmas condições de pesquisas das universidades americanas e o apoio necessário para igualar os níveis salariais – que chegam a ultrapassar a casa dos US$ 300 mil por anopor cientista lá fora. Com isso, Nicolelis trouxe de volta os jovens cientistas brasileiros que deixaram o país, atraindo assim as atenções do Banco Mundial e do Ministério da Ciência e Tecnologia.
No final de fevereiro deste ano, ele inaugurou em Natal, no Rio Grande do Norte, o primeiro pólo de educação e pesquisa científica do país. Selecionando 300 estudantes da rede pública, ele passa a compartilhar suas experiências como cientista e ensina o prazer de pesquisar. Batizado de Instituto Internacional de Neurociência, o ex-militante estudantil agora viaja pelo Brasil para tentar ampliar o diálogo entre os cientistas e a sociedade. “Essas divulgações científicas contribuem demais para que as pessoas conheçam os avanços do mundo e também criam acessos a esse conhecimento”, reflete.
Além da sede do IINN, estão previstos outros dois centros de educação científica, um centro de saúde e outro exclusivo para pesquisa, totalizando cinco prédios – sem contar as outras unidades previstas para outros Estados. “O objetivo é oferecer um tipo de educação que não se vê nem nas escolas particulares. A idéia é que todas as regiões se abracem e sejam beneficiadas pelo conhecimento científico, pela tecnologia de ponta e pela educação de qualidade”, completa. Seja nos laboratórios de biologia, química, física, robótica ou informática, seja nas oficinas de ciência e tecnologia, história e geografia, nossas crianças passam a ter uma nova fonte de criatividade, novas formas de conhecimento e um olhar diferente para o mundo.
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Ele aceitou ser nosso editor convidado, apontando o norte desta edição, mas não imaginava que seria um dos indicados ao Prêmio Trip Transformadores 2007. Em sua entrevista para as Páginas Negras da edição 142 – que também tinha a educação como tópico principal –, José de Oliveira Júnior revelou a sua fórmula para contrariar todas as estatísticas e chegar vivo aos 37 anos ao lado da mulher e de duas filhas: um dos projetos sociais mais respeitados e premiados dos últimos anos, o Grupo Cultural AfroReggae. Há 14 anos o AfroReggae atende pessoas carentes nas regiões mais degradadas e violentas do Rio de Janeiro, entre elas Vigário Geral, Morro do Alemão, Cantagalo e Parada de Lucas.
Os cerca de 2 mil jovens hoje atendidos pelo projetomor de Junior (apelidado assim, sem acento) conseguiram, com a ajuda dele, abrir mão do crime em troca de participação em projetos e oficinas de música, teatro, grafite e basquete de rua, que levam a marca AfroReggae. Iniciativas que passaram a ser bancadas por Petrobras, Ford, RedBull, Rede Globo, Natura, entre outras empresas doadoras.
Seja na turnê com o grupo AfroReggae ou promovendo a grife de roupas recém-lançada, Junior tem conseguido mudar as expectativas dos jovens envolvidos e transformado o conceito de felicidade entre os menos favorecidos. E leva essa experiência para além das fronteiras brasileiras, em consultorias que vira e mexe presta no exterior.
“Quando fiz 17 anos vi que tinha duas opções: ou seria bandido, ou brigaria bem. Então briguei muito”, lembra. Com seu andar duro e rosto marcado – um nariz deformado e algumas várias cicatrizes espalhadas pelocorpo – Junior já perdeu a conta das armas que, apontadas para seu peito, falharam quando apertaram o gatilho. Sorte? Não tenha dúvida.
RISCOS DA VIDA
Ogum tatuado no braço direito e Shiva no esquerdo, ele tem outras quatro tatuagens ligadas à espiritualidade. Freqüentou cultos de Testemunhas de Jeová, encontros Hare Krishna, baixou na Igreja Universal, umbanda, quimbanda, candomblé e igreja messiânica. Descobriu a Assembléia de Deus dos Últimos Dias e o pastor Marcos. “Ele é um cara polêmico, mas considero um dos maiores mediadores de conflito que já conheci.”
Mediação de conflitos, por sinal, é uma das grandes paixões de Junior. Assim que começou seu trabalho social, ele percebeu que a falta de interação com o tráfico e o pouco diálogo com a polícia prejudicavam o desenvolvimento de seu trabalho. Foi então que ele resolveu mergulhar na narcocultura; da ilícita (tráfico de drogas e armas) até aquela senhora que vendia quentinha na boca de fumo para sustentar a família. Aí ele começou a entender realmente o funcionamento da marginalidade. E foi com conversa que colocou em prática seus 60 projetos, cinco filmes – entre eles o premiado Favela Rising. “Só de bandas de música são nove [mais um grupo formado por policiais militares que recebe ajuda do AfroReggae]”, enumera. A organização tem ainda dois grupos de circo, diversos grupos de teatro e ainda mantém um projeto de inclusão digital. “Não vamos continuar fortalecendo o estereótipo de que o negro da favela só pode ser jogador de futebol e artista. Queremos formar intelectuais”, emenda.
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