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| Nesta página você vai conhecer os três indicados ao Prêmio Trip Transformadores na categoria Diversidade. Brasileiros que dedicaram suas existências a conhecer, respeitar, apreciar e difundir outras formas de vida e pensamento |
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FERNANDO MEIRELLES
Mudar a forma como o mundo vê os excluídos e como os excluídos vêem
o mundo: para um filho da burguesia paulistana, realizar esse feito com apenas quatro filmes é mais importante que ganhar um Oscar
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Paulistano, branco, aluno de escola particular, depois arquitetura na USP. Praticante de esqui aquático, viajado, diretor de filmes publicitários e sócio da mais próspera produtora de comerciais do Brasil. Por que Fernando Meirelles foi enfiar todas as suas economias na periferia do Rio de Janeiro? Nem ele sabia direito, mas acabou por mudar o cinema brasileiro e o modo como o mundo enxerga nossas favelas – e como nossas favelas enxergam o mundo.
Seu longa-metragem Cidade de Deus escancarou certos mecanismos que movem a máquina da violência social brasileira. Até aí, pouca novidade. Acontece que Meirelles conseguiu ir além: deu alma e carisma aos corpos e às vidas de seus personagens ao contar a história original de Paulo Lins. A perfeita mistura de fascínio e paranóia social, de charme e miséria, a fronteira invisível entre crueldade e circunstância, entre vítimas e carrascos, resultaram em um retrato implacável da exclusão – e tudo com um irresistível apelo pop que cuidou de espalhar sua película pelo planeta. Ganhou nove prêmios no festival de Havana, levou o Bafta britânico, foi indicado ao Globo de Ouro e arrancou quatro indicações ao Oscar – incluindo de melhor diretor.
Hoje, na capa do DVD de Cidade de Deus nos EUA tem a seguinte frase: “o melhor filme que você já viu”. Hipérboles à parte, é uma mostra do tipo de impacto que nossos becos (o melhor e o pior deles) causam no primeiro mundo. Mais importante, no entanto, do que o prestígio cinematográfico que Meirelles conquistou é o que há por trás dessa e de suas outras obras. Explica Meirelles: “Basicamente meus projetos têm a mesma idéia: a exclusão”. Em Domésticas, seu primeiro filme, entrou nos quartos de empregadas da classe média e estreou a película em cinemas populares. Depois, no curta-metragem Palace II, começou a entrar no universo dos moleques do tráfico. Veio Cidade de Deus, o sucesso, e o primeiro contrato com Hollywood – quando Meirelles, agora em alto orçamento, foi à África enquadrar a maligna política farmacêutica em ação no Quênia em seu bem-sucedido O Jardineiro Fiel.
Exclusão, ele diz. Inclusão – é o saldo. Seus filmes acabam por trazer para a linha de frente da cultura pop mundial camadas da sociedade que dificilmente têm voz. E, no Brasil, deu orgulho a uma comunidade, carreiras promissoras a jovens atores vindos da periferia e provou que é possível fazer cinema global no Brasil. E, sem querer, depois de repensar clichês da pobreza e da violência, quebrou seu próprio estereótipo. Depois de Meirelles, um paulistano, branco, aluno de escola particular, que fez arquitetura na USP, esquiador, viajado, diretor de filmes publicitários, sócio da mais próspera produtora do Brasil e indicado ao Oscar não parece tão peixe fora d’água em qualquer periferia por aí.
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Nas Páginas Negras da Trip 141, Sidney Possuelo foi perguntado: “Por que defender os índios?”. Ele nos devolveu a pergunta: “Por que não defendê-los?”. A réplica, com jeito de retórica, esconde o trabalho duro de uma vida toda. E revela uma grande verdade oculta atrás do cinismo de muita política: a de que os índios são os mais desprotegidos de nossa, já vulnerável, sociedade. Estima-se que em 1500 os índios eram 1,5 milhão no país. Hoje não chegam a 400 mil, e a maior parte vive em áreas urbanas, perdendo laços com a cultura e os hábitos de seu povo. Mais vulneráveis ainda são os índios isolados, os que não mantêm contato com a dita civilização – os poucos que ainda permanecem in natura no planeta. A Funai estima que ainda existam 41 tribos isoladas no Brasil. Os mesmo índios que Sidney Possuelo mais tenta entender e preservar do contágio do mundo moderno. Tribos remotas, que querem e, na opinião de Sidney, devem permanecer assim. Basicamente, seu trabalho é proteger gente que nunca vai querer ser encontrada e só faz contato quando crê que sua tribo está ameaçada – sempre pelo avanço do homem branco na mata.
Seu currículo em si bastaria para indicarmos Sidney à categoria Diversidade de nosso prêmio: começou a carreira como assistente do sertanista Orlando Villas Bôas; foi o primeiro a entrar em contato com sete comunidades indígenas isoladas; ganhou da rainha da Inglaterra a medalha da Royal Geographic Society; das mãos do rei da Espanha recebeu o prêmio Bartolomé de Las Casas; levou o prêmio da National Geographic Society; presidiu a Funai de 1991 a 1993; contraiu malária 38 vezes.
Sua coragem também poderia justificar nossa menção: desde 1959 desbravou 3 000 quilômetros amazônicos, arriscou a vida muitas vezes ao colocar os pés em tribos hostis que nunca haviam visto um homem branco. E arriscou a vida combatendo interesses de madeireiros, seringueiros, grileiros e gente acostumada a resolver problemas com pistolas. Nunca baixou a cabeça ou fez concessões políticas que ameaçassem os índios. Uma rotina de peitar chefes e presidentes e não poupar palavras duras: enquanto era coordenador geral de índios isolados na Funai, identificando e demarcando terras, fez críticas diretas ao presidente da Funai e ao governo Lula. Perdeu o emprego – mas não o ânimo. Hoje, extra-oficialmente, continua seu trabalho, planejando expedições e ensinando ao filho, Orlando, seu ofício de explorador.
Para nós, o mais importante na figura deste homem de 66 anos não é o currículo ou o espírito intrépido. É sua profunda vontade, talento e prazer em entender e respeitar o diferente – e buscar no outro, no mais remoto e diferente dos seres humanos, algo que nos una e pacifique.
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“Quando mostro um cotidiano anônimo, estou realmente dando o retrato do nosso país. No meu programa, documentamos que não existe um tema único no Brasil, que não somos um grande boi-bumbá. Creio serem esses closes a única forma de mostrar a nossa cultura.” Talvez seja essa a melhor explicação sobre o trabalho de Regina Casé. A explicação que ela mesma deu.
Quem, nas últimas duas décadas, manteve o hábito de ver TV, conhece essa mulher de sorriso fácil. E quem a vê, toda semana, mostrando a vida de gente que câmeras de TV costumam desprezar, pode nem reparar que, por trás do sorriso fácil desta atriz/humorista, está uma das jornalistas de maior alcance no Brasil.
Regina Casé tem a missão de fazer do horário nobre um palco para a cultura popular – realmente popular – em seus programas na TV Globo. O formato mudou muitas vezes: Na Geral, Brasil Legal, Muvuca... mas sempre com a idéia fixa de mostrar que nossa cultura é muito mais rica do que os clichês regionalistas ou do mainstream dos canais de TV. De juntar aos poucos as peças de um tesouro pulverizado por todo o território. E, em geral, oculto nas sombras midiáticas das cidades pequenas.
A identificação com o povo e a vocação para a mídia vieram do berço. Seu avô Ademar Casé, pernambucano de Caruaru, chegou ao Rio em um pau-de-arara e virou grande nome no rádio nos ano 1930 e 1940 – era capaz de narrar por 12 horas seguidas. O pai, Geraldo Casé, foi o diretor-geral e idealizador do Sítio do Pica-pau Amarelo, na mesma Globo da filha. Quem viu o homem trabalhar, diz que Geraldo era um obcecado, queria saber e participar de tudo no programa. Está no sangue. A filha é muito mais do que o tal sorriso de suas matérias populares: mete a mão na produção, nas pautas e texto de tudo que faz. E a idéia, muito mais do que apontar uma câmera, é conversar, descobrir, valorizar e jogar nas salas das famílias o que ainda vale a pena no Brasil.
“Tenho um compromisso terrestre com a felicidade. Sempre quis ver o lado positivo das coisas. Não estou negando os problemas sociais, mas também há o que retrato, nossa imensa diversidade e criatividade. Não somos só a tragédia. É importante lembrar disso sempre”, disse certa vez.
Hoje Regina está no ar com o programa “Um Pé de Quê?”, no canal Futura, onde apresenta e conta histórias de plantas brasileiras, e com o quadro “Minha Periferia”, no Fantástico. Tudo o que há de bom acontecendo em comunidades ditas periféricas – baixa renda, longe dos centros (nem que seja o centro da cidade). E, para esse quadro, até o Brasil ficou pequeno. Da já conhecida Cidade de Deus aos guetos de Moçambique. De Elza Soares no bairro de Água Santa ao Balé de Rua de Uberlândia. Do Popó em sua Baixa de Quintas às aulas de surf na periferia de Fortaleza. E já escalada para a próxima minissérie da Globo – a se passar no Acre, para não ficar no óbvio, algo que Regina Casé simplesmente não
sabe fazer.
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