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Nesta página você vai conhecer os três indicados ao Prêmio Trip Transformadores na categoria Desprendimento. Pessoas que usam o seu dinheiro para viver o mais próximo possível da generosidade
JAYME GARFINKEL
O empresário que despontou no ramo de seguros descobriu sua capacidade de dividir os lucros e hoje ajuda dezenas de projetos sociais e culturais em São Paulo



Aos 60 anos, Jayme Brasil Garfinkel pode se dizer um homem realmente afortunado. Não porque ele teve a oportunidade de tocar a seguradora da família, a Porto Seguro – que depois do falecimento de seu pai, Abrahão Garfinkel, deixou o 48º lugar no ranking para ocupar o 3º na lista de seguradoras brasileiras, registrando lucro de 67,3% só no ano passado –, nem por sua bem-sucedida atuação no conselho da Federação Nacional das Seguradoras (Fenaseg) e uma passagem pela diretoria do Sindicato das Seguradoras, Previdência e Capitalização do Estado de São Paulo (Sindsegsp), ainda no começo da década de 90. A maior fortuna de Jayme talvez esteja guardada nos projetos que patrocina, tanto na área cultural como nas obras sociais que ele acompanha diariamente. A Porto Seguro investe hoje cerca de R$ 3 milhões por ano só nas escolas estaduais que resolveu abraçar em Paraisópolis, zona sul de São Paulo, beneficiando 7 mil crianças.

Líder do mercado

Nascida em 1991, a Associação Crescer Sempre, que ajuda outras instituições de ensino, também conseguiu montar sua própria escola. Serve ainda de exemplo para outras iniciativas do tipo, estimulando empresários a fazer parcerias como as que Jayme um dia fez. "Seria excelente poder atrelar o tamanho do incentivo fiscal dado às empresas a uma avaliação de performance dos nossos alunos", reflete.
Nesses 15 anos de parceria com escolas públicas na favela de Paraisópolis, Jayme destaca: "Não acho que acertamos em tudo e, portanto, não dá para dizer ‘sigam a Porto Seguro’, mas também não adianta ficar querendo criar o modelo ideal antes de agir".
As idéias do empresário já foram discutidas em uma palestra no Centro de Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), que logo passou a patrocinar 38 escolas públicas, auxiliando na reforma dos prédios e no treinamento dos professores. Tudo pago com di­nheiro de empresas como a Porto Seguro – hoje a seguradora investe 2% do seu faturamento nos projetos que apóia, e sem buscar benefícios fiscais por isso. “Em vez de comprar um carro importado, resolvi investir esse dinheiro na melhoria de uma escola da favela de Paraisópolis. Nem todos os carros importados me dariam tanto prazer como eu tive ao ajudar uma escola.” O projeto de Jayme já atendeu mais de 50 mil pessoas, com a participação de 6 mil voluntários, 23 mil itens arrecadados entre roupas e calçados e mais de 15 toneladas de alimento. “Em 2005, inauguramos a Casa Campos Elíseos Melhor, um espaço destinado à geração de renda e educação para a comunidade do bairro. O objetivo do espaço é proporcionar uma visão integrada do bairro e suas necessidades: arte e educação, esporte, lazer, limpeza, segurança, áreas verdes, qualificação e capacitação profissional”, diz o empresário, que não pretende parar tão cedo de acumular riquezas como essa.

MILU VILLELA
A herdeira do Itaú rejeitou o trono para se jogar de cabeça
no voluntariado e hoje ajuda patrões e empregados a encontrar uma forma de enriquecer com nobreza

 

Ela foi nomeada embaixadora da Boa Vontade pela Unesco recentemente e ainda segue firme como presidente do Instituto Faça Parte, cuja tarefa é viabilizar o trabalho voluntário usando uma fórmula bastante simples, mas que requer intensa dedicação: ligar jovens e adultos capacitados a entidades que buscam cada vez mais mão-de-obra voluntária. Além disso, a paulistana Maria de Lourdes Egydio Villela, 60, consegue tempo para presidir o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) e o Instituto Itaú Cultural.
Com formação em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), Milú Villela começou cedo, na casa de apoio a crianças e mães solteiras mantida durante a sua infância pela avó. O fascínio foi tanto que Milú acabou assumindo uma escola infantil quando adulta e foi trabalhar com pessoas carentes na região do Real Parque e no Jardim Miriam, ambos na zona sul de São Paulo. Ela poderia muito bem usufruir o título de herdeira do Itaú – e viu sua riqueza aumentar depois da morte do irmão em 82 e do divórcio do marido em 92 –, mas preferiu conti­nuar na luta. “Depois que me separei descobri o meu idealismo em prol da construção de um mundo me­lhor. Encontrei a minha vocação de abrir os olhos das pessoas, de que temos de trabalhar para a cidadania e dar um exemplo para a elite brasileira, que está desengajada, acomodada e centrada em si mesma”,
disparou em entrevista recente.
Milú acompanhou de perto o aumento do número de ONGs no Brasil nos últimos anos e ajudou pessoalmente a incrementar o número de voluntários em atuação no país. Em 1997, inaugurou o Centro de Volun­tariado de São Paulo e, em 2001, foi convidada a integrar o comitê brasileiro no Ano Internacional do Voluntário, evento realizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 123 países com o objetivo de aumentar a quantidade de trabalho voluntário no mundo.

Bem Eficiente

Uma pesquisa do IPEA apontou que 59% das empresas privadas já exercem algum tipo de atividade social. Sinal de que os empresários brasileiros se conscientizaram da importância do trabalho voluntário que ela e outros 42 milhões de voluntários se esforçam para divulgar e tornar útil diariamente. “O brasileiro agora vê no trabalho voluntário uma ferramenta estratégica na luta pela cidadania e no fortalecimento da cultura”, reflete. Só o programa Jovem Voluntário, Escola Solidária, do Instituto Faça Parte, tenta agora sensibilizar 80 milhões de brasileiros com menos de 25 anos de idade. “Hoje, gerar empregos, pagar impostos e criar produtos e serviços adequados às necessidades dos clientes não são mais os únicos objetivos de uma empresa que se diz socialmente responsável. A prática do
voluntariado ajuda a promover a participação cidadã e fazer com que o brasileiro seja parte ativa na construção de uma nação socialmente mais justa”, aponta Milú.

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JOÃO JOAQUIM DE MELO
O fundador do Banco Palmas encontrou na economia solidária uma forma de reverter o quadro de exclusão social e hoje oferece dinheiro a quem não tem acesso a crédito

 

Aos 45 anos, João Joaquim de Melo Neto Segundo tem se esmerado, através de seu papel de educador popular, em encontrar meios de ampliar o acesso ao crédito e de resgatar a auto-estima dos brasileiros mais pobres. Fundador do Instituto Banco Palmas de Desenvolvimento e Socioeconomia, um banco comunitário criado no Conjunto Palmeira – uma favela na periferia de Fortaleza com uma população que recebe em média dois salários mínimos por mês –, ele também responde como diretor da Rede Nacional de Bancos Comunitários, servindo de consultor em outros programas de combate à pobreza e participando ativamente dos projetos de desenvolvimento econômico que vira e mexe aparecem.
A empreitada começou há dez anos, quando João entrou na favela na periferia de Fortaleza, onde hoje habitam cerca de 40 mil pessoas, disposto a abrir as portas da primeira agência do Banco Palmas, chegando a criar, inclusive, uma moeda própria batizada por ele de Palma, reconhecida em quase todos os estabelecimentos erguidos dentro do Conjunto Palmeira. O banco cresceu e passou a oferecer linhas de microcrédito e até um cartão de crédito próprio, o PalmaCard, que possibilita às famílias da comunidade fazerem suas compras no comércio do bairro e pagarem no mês seguinte com taxas menores que as do mercado.

Banqueiro dos pobres

A experiência do banco comunitário, tão bem aplicada em Fortaleza por João de 1997 pra cá, já rendeu um Prêmio Nobel de Economia no ano passado. Como você pode ler nesta edição, o premiado foi o economista Muhammad Yunus, que criou em Bangladesh uma rede semelhante à do Banco Palmas, oferecendo empréstimos de US$ 27 para 42 artesãs endividadas. Hoje o programa de Yunus beneficia mais de 7 milhões de bengaleses, registrando índice de inadimplência de menos de 1%. O mesmo aconteceu com o Banco Palmas, que começou emprestando R$ 2 mil para cinco pessoas e agora beneficia 1,6 mil pessoas com empréstimos que dependem dos testemunhos dos vizinhos, ou seja, não há necessidade de nenhum avalista. Os empréstimos podem chegar a 1 mil palmas e a moeda é usada em mais de 200 estabelecimentos. “Esta economia popular e solidária garante maior circulação de riquezas e justiça social”, enfatiza o banqueiro cearense. Ao lado de Sandra Magalhães, João publicou em 2003 o livro Bairros pobres, ricas soluções: Banco Palmas ponto a ponto, obra que já ajudou a espalhar bancos comunitários por 13 municípios brasileiros (sete no Ceará, dois na Bahia, dois no Espírito Santo e um no Mato Grosso do Sul). A meta de João Joaquim de Melo é chegar a 100 bancos até o fim de 2007. “Não adianta urbanizar, melhorar as condições de moradia na comunidade, sem que tenhamos também uma alternativa de geração de renda”, escreve João.

» LEIA O QUE JÁ FOI PUBLICADO SOBRE DESPRENDIMENTO:

Trip #148 – Desprendimento
Páginas Negras: Gustavo Kuerten
Especial: Marajás
Reportagem: Revista Caras em Angola


 
 
 
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