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| Nesta página você vai conhecer os três indicados ao Prêmio Trip Transformadores na categoria Corpo. Brasileiros que dedicam suas vidas à busca e difusão da consciência e do equilíbrio eficiente de nosso corpo |
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IVALDO BERTAZZO
O coreógrafo paulistano dedica sua arte à reeducação corporal.Na escola que criou ou nas apresentações que dirige,o bailarino redescobre o corpo na dança .
E em vez de profissionais ,é o cidadão comum quem brilha em seus palcos .
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É através do corpo que o dançarino exprime emoções e intenções nos movimentos fluidos do baile coreografado. É com ele que entretém nobres platéias. Mas há mais que entretenimento naqueles complicados passos. Logo que começou a estudar a dança, nos seus jovens 16 anos, Ivaldo Bertazzo percebeu que o balé do corpo poderia ser utilizado para modificar vidas, dentro e fora do palco. Viu ali um modo de mudar a maneira como as pessoas enxergam e se relacionam com seu sistema locomotor. Para descobrir como tornar possível sua idéia, recolheu experiências e estudou diversas expressões de dança batendo perna por metade do globo. Passou por Indonésia e Índia, aprofundando-se na arte oriental; estudou na França os segredos da coordenação motora; em Bruxelas decifrou os enigmas das cadeias musculares e das articulações no renomado Institut des Chaines Musculaires e des Techniques. O conhecimento acumulado foi aplicado na inovadora Escola do Movimento. Fundada por Ivaldo em 1974, é lá que ele põe em prática seu Método de Reeducação do Movimento. É onde ele transforma a vida de cidadãos comuns ao ampliar o entendimento de seus músculos e articulações. “Conhecer os novos limites do corpo é conhecer os novos limites da vida”, costuma dizer.
Ivaldo implantou na escola o conceito do “Cidadão-Dançante”, reunindo no palco pessoas comuns. Assim deu vida a uma série de espetáculos unindo amadores e profissionais – mais de 35 nesses moldes. A idéia de levar cidadãos aos palcos foi o embrião para os projetos que mais abrilhantam seu currículo. O Mãe Gentil, na favela da Maré, no Rio de Janeiro, e o Dança Comunidade, em parceria com o Sesc-SP, lhe mostraram as possibilidades do que chama de “ecologia corporal”, a educação pela dança. Trabalhando com adolescentes – da comunidade da Maré, no Mãe Gentil, e de ONGs paulistanas, no dança Comunidade –, Ivaldo percebeu que seu método poderia modificar profundamente aquelas vidas. Levou alta cultura à periferia e, junto com ela, consciência corporal, auto-estima e mudança de atitude perante o mundo. Com os exercícios trouxe concentração, postura e autoconhecimento aos alunos. “Em vez de estudar como a personalidade define o movimento, quero investigar como o movimento pode construir a identidade do adolescente”, explica. As aulas com o corpo de dança da Maré resultaram nos aclamados espetáculos Mãe Gentil (2000), Folias Guanabaras (2001) e Dança das Marés (2002). Com o Dança Comunidade fez Samwaad (2004) e Milágrimas (2005). Além de dançarinos, formou caráter, e hoje os jovens do Dança Comunidade são monitores do seu próximo projeto, o Cidadança, parte do Capacitação Solidária, da prefeitura de São Paulo.
Ao aplicar a arte na vida, unir centro e periferia e modelar personalidades através do corpo, Ivaldo foi premiado no Brasil com a Medalha de Ordem ao Mérito Cultural, do Ministério da Cultura, e, no exterior, levou o Prêmio Fundação Prince Claus, do governo da Holanda. Muito além dos limites dos palcos, Bertazzo cuida dos corpos para modificar almas.
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Quem vê o rapagão alto, forte e bem-apessoado vestido em roupas de grife, imagina que ele é mais um boa-vida da zona sul do Rio de Janeiro. Daqueles que passam o dia nas academias para desfilar os músculos definidos pela orla da Barra... No caso de Flávio Canto isso é equívoco crasso, aliás, ali está um dos atletas brasileiros que melhor uso do corpo faz.
Desde cedo, o rapaz, nascido na Inglaterra – onde o pai, físico nuclear, fazia doutorado –, tratava seus músculos a doses fartas de exercícios. Começou, para tratar de sua asma, com a natação. De lá passou a encarar ondas maiores, literalmente. O surf, sua grande paixão, o acompanha até hoje. Mas foi no judô que ele descobriu o canal para seu talento. Começando tarde para os parâmetros do esporte, aos 14 anos, teve que trabalhar redobrado para alcançar seus pequenos rivais. Mas, fiel ao “levanta pra cair de novo”, Flávio foi sempre se reerguendo e, com o passar do tempo, as quedas só eram para aplicar sua tática preferida: a imobilização, o chamado jogo de chão. O esforço extraordinário sempre foi seu maior talento. E as recompensas foram grandes. Aos 21 classificava-se para sua primeira Olimpíada, a de Atlanta (1996).
A carreira brilhante que se desenhava encarou seu primeiro grande obstáculo em 2000, quando o judoca não se classificou para a Olimpíada de Atenas. Em vez de lamentações, o fracasso trouxe o início de sua maior conquista nos tatames. Decidido a não se abalar, aproveitou o “tempo livre” que ganhou para se dedicar ao projeto que a Universidade Gama Filho, seu único patrocinador, promovia: aulas de judô na favela da Rocinha. O espírito contestador que o acompanhou desde a infância encontrou ali, nas crianças carentes do morro, a oportunidade que procurava para mudar a situação calamitosa das diferenças sociais. “Para diminuir a culpa e a vergonha”, como disse nas páginas da Tpm. Depois assumiu de vez o projeto e fundou sua ONG, o Instituto Reação. Foi nos 700 alunos distribuídos em três comunidades – Rocinha, Cidade de Deus e Tubiacanga – que ele encontrou o espelho da sua determinação. Porém a luta dos garotos se dava muito mais fora do tatame. E na filosofia do judô estava a melhor maneira de educar a mente dos garotos através do treinamento de seus corpos. “O que o judô faz é ensinar a cair para depois se levantar. É fundamental que eles aprendam a não desistir, a continuar lutando.”
A força que passou para seus alunos o fez alcançar o brilho do bronze em Atenas (2004). Coroava-se com louros olímpicos a carreira do garoto que ainda morava na casa dos pais porque gastava quase tudo que recebia do patrocinador financiando seu sonho e o dos meninos do Reação. Hoje, enquanto se prepara para os próximos Jogos Olímpicos, vai treinando alguns de seus alunos para a seletiva do Pan-americano do Rio, em julho deste ano. Cultivando sua obsessão em ser melhor atleta e melhor pessoa, o judoca usa seu corpo para lições que vão além do físico. Através dos músculos aprende e ensina lições que cabem ao espírito. E isso não se mede em medalhas.
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Mara Gabrilli nunca foi de ficar parada no seu canto. Saiu de casa cedo, viveu um ano e meio na Itália. Seu corpo sempre acompanhou seu espírito livre. Até que uma curva freou, ou melhor, mudou sua trajetória. Era agosto de 1994. Mara voltava de viagem depois de passar uns dias na praia pedindo a Deus que transformasse o rumo da sua vida – infeliz que estava em seu relacionamento. Mal sabia que Ele agiria tão rápido. O carro que o namorado dirigia escapou numa curva e despencou 15 metros barranco abaixo. A Land Rover capotou inúmeras vezes antes de parar, quebrando o pescoço de Mara – e virando sua vida do avesso. Aos 26 anos, a menina livre, ativa, dona do seu corpo, era agora uma prisioneira do próprio. Imóvel do pescoço para baixo: tetraplégica.
Fácil pensar que algo assim acaba com a vida de uma pessoa. Era o que a própria Mara sentia – o que ela mesma havia pensado, quando namorou um cadeirante antes do seu acidente. Estava enganada: determinação e força para a recuperação não lhe faltaram. Assim, aceitou os limites impostos pela vida, sem nunca cessar de tentar superá-los. Aproveitou sua situação financeiramente privilegiada e, amparada pelo carinho familiar, buscou as melhores condições para viver a nova vida. Nessa busca, encontrou muito para melhorar também a condição de outras pessoas. Em 1997, fundava a ONG Projeto Próximo Passo, assumindo de vez a luta para melhorar a vida das pessoas com limitações físicas. Criou iniciativas e parcerias com os laboratórios da USP e do Hospital das Clínicas para pesquisas ligadas a células-tronco e regeneração de células nervosas. Junto com a Fórmula Academia fez um núcleo de reabilitação para incentivar a prática de esportes por pessoas com limitações físicas. Organizou até um time de basquete em cadeiras de rodas na sua ONG.
Conectada ao próprio corpo
Mas não são só suas realizações que justificam a indicação de Mara ao Prêmio Transformadores na categoria Corpo. Nem é o fato de, embora não tenha sido eleita, ter sido a mulher mais votada no PSDB nas eleições para vereador, em São Paulo. Muito menos por ser a primeira secretária municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida de São Paulo. Acima de tudo, Mara exemplifica o que é viver além dos limites da nova condição que a vida lhe impôs.
Com o ensaio sensual nas páginas desta revista, em 2000, e com a campanha de lingerie que fez (para a Duloren em 2002), provou que a vaidade, a beleza e a feminilidade não se vão com as terminações nervosas. Nunca deixou de sair. Nunca deixou de namorar. Nem de transar, ou gozar, ou de alimentar o desejo de ter filhos – sempre tocando nesses temas com elegância. A lesão que poderia isolar Mara de seu físico tornou sua relação com o corpo ainda mais próxima. “Quanto mais trabalho faço, mais conectado sinto o meu corpo”, explicou nas Páginas Vermelhas da Tpm #53. “Para os outros não é óbvio, mas para mim é uma evolução rápida, constante e surpreendente. Todo dia eu vou dormir e deixo o chinelo ao lado da cama.
De repente...”. Mesmo esperançosa de um dia voltar a andar, Mara fez de si mesma um exemplo de entendimento do seu corpo. Sua cadeira nunca foi uma prisão: apenas um apoio para alguém que anseia pela liberdade.
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